Literatura russa

Direto do original

     Os escritores russos estão de volta para mostrar que a grande literatura, sendo regional, é também universal. Afinal, nada poderia ser mais distante da realidade brasileira do que a Rússia, seja o império czarista do século XIX, seja a pátria do comunismo do século XX. E, no entanto, a literatura lá produzida está próxima de nós a ponto de suscitar disputas de preferência, como a que divide admiradores de Tolstói e Dostoiévski. Se gerações de leitores brasileiros se formaram na companhia de Anna Kariênina, que morre por amor, e de Raskolnikov, que mata por uma razão intelectual, qual o sentido de falar em volta dos escritores russos? Eles não estiveram sempre por aqui? Sim e não. Eles sempre foram traduzidos, é certo, mas em geral a partir de edições francesas. São versões às vezes primorosas, algumas resultado da colaboração de escritores, não de tradutores profissionais. A triangulação das línguas, no entanto, não raro deixa rastros indesejáveis. Não se trata de fetichizar a tradução feita diretamente do russo, mas de reconhecer que, sem a intermediação, o resultado tende a ficar mais próximo do original. Daí que, diante da pergunta sobre a presença antiga dos russos no Brasil, impõe-se a resposta ambígua. A volta dos russos se materializa nessas novas traduções que, nos últimos anos, estão substituindo as primeiras. É um trabalho que exige profundo conhecimento da tradição e da modernidade russa, o que o leitor pode constatar nesta edição: ela é resultado, em grande parte, da colaboração de vários desses especialistas, que nos conduzem com segurança pelas mais diversas vias culturais de Moscou, São Petersburgo e adjacências literárias.

EM CONSTRUÇÃO

AUTORES E OBRAS

EM BREVE

NUMA ADMIRÁVEL INTRODUÇÃO A THE OXFORD BOOK OF russian verses, Maurice Baring sintetiza, dentro do panorama da literatura ocidental, o advento de Aleksandr Serguéievitch Púchkin (1799-1837), explicando por que ele é considerado por muitos estudiosos como o grande iniciador da literatura russa. É claro que ela não nasceu no século XIX. Seu curso, porém, foi subterrâneo durante muito tempo, acompanhando o atormentado desenrolar da própria história da Rússia. Já no século XI, após a consolidação da unificação das tribos eslavas, Kiev, o primeiro grande centro da cultura russa, era comparável a qualquer outra grande cidade da Europa ociden-tal, no mesmo período. Comerciantes, artistas, sábios transi-tavam livremente de Leste a Oeste, e os manuscritos russos dessa época competiam em pé de igualdade com os melhores manuscritos do Ocidente. Quando, porém, deu-se o cisma religioso entre Roma e Bizâncio, em 1054, os eslavos — de rito ortodoxo — foram as vítimas acidentais. Ergueu-se uma barreira entre a Rússia e o Ocidente que, reforçada pela inva-são dos tártaros e pelo jugo sucessivo (1240-1480), só come-çaria a ser demolida nada menos que em 1700, já no reinado de Pedro, o Grande. Kiev foi arrasada, a Polônia separou-se do Leste, o sul da Rússia foi abandonado. No século XV, os principados sobreviventes agrupavam-se em torno de Moscou, num desesperado esforço de sobrevivência. Obviamente, numa configuração como essa não se podia esperar que a literatura russa conhecesse as fases que conheceu a literatura européia. Houve, subterrâneo e rico, o filão da poesia popular, cujas manifestações se concretizavam em obras que passavam de uma geração à outra, graças à tradição oral. A introdução do alfabeto cirílico, levado à Rússia por dois monges búlgaros, Cirilo e Metódio, enviados de Bizâncio para  evangelizar Os eithi,vos no ano 820„permitiu o registro de uma surpreendente obra literária. sl‘tat a se de O dito da expedição de Igor, um epos anônimo escrito durante o século XII na língua literária oficial de então, o eslavo eclesiástico, mas com fortes inter-ferências do russo. A grande originalidade dessa obra reside na utilização dos métodos da poesia oral, numa épica que tem um ritmo r unia musica-lidade tão complexos que até hoje há estudiosos à procura de influências ou paralelos que a expliquem. Sempre em eslavo eclesiástico, foram escritos os Anais ou Crónicas da Galícia, a civilização russa que sobreviveu à invasão tártara no Norte e no Leste, bem como as de Nóvgorod e mais tarde as de Moscou, mas nem elas nem a vida dos santos ou os relatos militares dos séculos seguintes podem ser comparados ao Dito. Afora as vívidas descrições da vida russa na obra do arcipreste Avvakum — escritas em lingua vulgar, um russo híbrido em que se misturavam as expressões bárbaras com as assimilações estrangeiras mais variadas (a língua russa oficial só passará a  vigorar em meados de 1.7 00 após.a.compilação da primeira gramática russa por M. Lomonóssov) — nada mais há de realmente original até o advento de Púchkin. Até então, toda obra literária russa, após a libertação do jugo tártaro, refletirá a história da tentativa paulatina de derrubar a barreira de incomunicabilidade entre a Rússia e o mundo ocidental. O caminho é longo: a primeira prensa instalada em Moscou durante o reinado de Ivan, o Terrível (1547-1584); Kiev ressurge das ruínas e volta a ser um centro de atração cultural; escolas são fundadas em Moscou; e a influência polonesa volta a se fazer sentir. Em fins do século XVII., uma numerosa colônia alemã se estabelece nos arredores de Moscou, trazendo consigo suas técnicas e tradições. Durante o reinadode Pedro, o Grande (1672-1725),  governante conhecedor de vários países europeus (Inglaterra, Alemanha, Holanda) onde estudou arte naval e militar, a influência européia expande-se até culminar com a hegemonia francesa no governo de Catarina  II (1729-1762), que, conforme é sabido, manteve longa correspondência com Voltaire e Diderot. Convidou repetida-mente artistas da Itália e estudiosos da França a São Petersburgo, que, desde a época de Pedro se tornara, pouco tempo após sua fundação, a capital do Império. Não é de estranhar que alguns entre os primeiros poetas a escrever em russo, como Kantemir e Derjávin, o tenham feito nos moldes da versificação francesa clássica. Viveram ambos o auge da hegemonia francesa na Rússia, quando reinava Catarina II. Mesmo Krylov, que publicou suas famosas fábulas em 1806, utilizando expressões dos provérbios e das ruas, acabou mantendo o esquema silábico de La Fontaine, sem acentos de intensidade capazes de organizar os versos, mas com o final do verso e do hemistíquio discretamente marcados, respectivamente, pela rima e pelos acentos secundários.

Fim da hegemonia

     A hegemonia da influência literária francesa será rompida por Jukóvski, que, a partir das traduções que fez de obras de Gray, Bürger, Uhland, Schiller e Goethe, firmará na literatura russa o uso da métrica baseada na seqüência de "pés", sendo que sua distribuição e a distribuição dos acentos no verso serão regidas pelo esquema do metro correspondente. Em meados do século XVIII  Lomonóssov e Tretiakóvski, já haviam experimentado esse sistema denominado silabo-tônico, que tem raízes na metrificação greco-latina clássica e também é usado na poesia alemã e inglesa.

Foi justamente Aleksandr Púchkin quem consagrou esse novo modelo, levado adiante por seus sucessores até a época contemporânea. O sucessor de Púchkin no coração dos jovens e da posteridade foi Iúri Mikháilovitch Lérmontov (1814-1841). Ele também, como Púchkin, foi morto em duelo por razões triviais depois de repetidos exílios no Cáucaso, que ele imortalizou em seus poemas e em sua prosa, e depois de ter-se tornado famoso por sua “Ode”, por acasião da morte de Pushkin.

A era Dourada

     Nesta altura é introduzido o romantismo na Rússia e os temas são muito mais diversificados. Do fabuloso ao realismo passando também pelo drama (não texto dramático). Os autores desta época são muitos e destacam-se: Nikolai Gogol, com sua obra-prima Almas Mortas, é considerado o precursor da moderna Literatura Russa, Leon Tolstoi (Guerra e PazA Morte de Ivan Ilitch e Anna Karenina), Fiodor Dostoievski (O IdiotaOs Irmãos Karamazov e Crime e Castigo) e Ivan Turgueniev (Pais e Filhos - Livro que já surge o tema do niilismo, de uma forma mais política e revolucionária do que filosófica). A era dourada é marcada também pelo sentimento patriótico sobretudo retratado no livro "Guerra e Paz" e este sentimento coincide no estilo musical que vigorava também na altura. Historiadores já estimaram queAbertura 1812 de Tchaikovski é parte da versão musical da Guerra e Paz de Tolstoi. Fiodor Dostoievski é a maior figura da era dourada da literatura russa em que a sua obra mais conhecida (Irmãos Karamazov) é uma das maiores do mundo e das mais desenvolvidas quer a nível semântico e literário.

As revoluções de 1917

Talvez nenhum outro país tenha experimentado ruptura histórica tão drástica quanto a Rússia em 1917. Em janeiro daquele ano o país era governado por um soberano autocrático que, apesar de já ter seu poder limitado por um parlamento desde 1906, continuava a controlar o país. No final daquele ano, a Rússia dos czares era coisa do passado: o país se tornara a primeira república socialista do mundo, governada pelos famosos sovietes, os conselhos de operários e camponeses. Essa transformação radical se deu em duas etapas. Desde o século XIX uma série de organizações sociais e políticas já vinham se articulando para tentar pôr fim ao regime dos czares. Uma primeira tentativa se deu na fracassada Revolução de 1905, mas em 1917 a crescente insatisfação da população com a participação da Rússia na Primeira Guerra Mundial havia dado um novo ânimo para a luta dos partidos de oposição e do movimento operário em geral. O esforço de guerra levara ao recrudescimento da repressão às organizações de trabalhadores, que respondiam com um número cada vez maior de greves a cada ano. Em 22 de fevereiro de 1917 (data do antigo calendário russo) as massas famintas tomam as ruas. O czar Nicolau II tenta reprimir o movimento, mas as tropas já não respondem à sua autoridade. Finalmente, em 01 de março um governo provisório instalado pelos parlamentares da Duma põe fim aos quatro séculos do domínio dos czares. O processo não se esgota com a Revolução de Fevereiro. No seio do movimento que lutava contra o czarismo havia grupos das mais variadas tendências ideológicas, desde liberais e constitucionalistas até a ala bolchevique do Partido Operário Social-Democrata Russo, liderada por Vladimir Ilich Lênin, de orientação marxista revolucionária. Com a eclosão da Revolução de Fevereiro, os trabalhadores constituem os sovietes. Cria-se, então, uma dualidade de poder. O governo provisório havia assumido com a promessa de adotar medidas radicais de democratização. Ao longo dos meses, porém, vai ficando cada vez mais claro que as promessas não seriam cumpridas, e que o governo provisório se manteria dentro dos limites da democracia liberal burguesa. O partido bolchevique começa a preparar um novo levante, dessa vez para que os próprios trabalhadores organizados tomassem o poder. Sob o lema de "todo poder aos sovietes" os trabalhadores liderados pelos bolcheviques finalmente derrubam o governo provisório na noite do dia 24 para o dia 25 de outubro de 1917, transferindo o poder para os conselhos de operários e camponeses e criando a primeira das repúblicas socialistas da futura União Soviética.

o século 

soviético

O conceito de realismo socialista não é algo que se deve retirar de obras e estilos existentes. O critério não deve ser se uma obra ou uma descrição se parecem com outras obras e outras descrições que se incluem no realismo socialista, mas se é socialista e realista.

1. Arte realista é arte combativa. Luta contra visões errôneas da realidade e impulsos que se opõem aos interesses reais da humanidade. Produz possíveis formas corretas de pensar e amplia os impulsos produtivos.

2. Os artistas realistas enfatizam o sensitivo, o terreno, o típico, entendido em sentido amplo (o importante em termos históricos).

3. Os artistas realistas enfatizam o momento de formação e extinção. Em todas as suas obras, pensam historicamente.

4. Os artistas realistas mostram as contradições entre o ser humano e suas relações, e mostram sob as condições em que estas são desenvolvidas.

5. Os artistas realistas estão interessados nas transformações que ocorrem nas pessoas e nas circunstâncias, tanto nas mudanças constantes, como nas repentinas. Que se convertem em constantes.

6. Os artistas realistas refletem o poder das ideias e a base material das ideias.

7. Os artistas do realismo socialista são humanos, isto é, filantrópicos, e mostram as relações entre as pessoas de uma maneira que fortalece os impulsos socialistas. Se fortalece por meio de analises uteis da maquinaria social e pelo fato de que os impulsos se convertem em deleite.

8. Os artistas do realismo socialista não só têm uma visão realista de seus temas, mas também de seu público.

9. Os artistas do realismo socialista levam em conta o grau de formação e a que classe social pertence seu publico, bem como o estado da luta de classes.

10. Os artistas do realismo socialista tratam a realidade a partir do ponto de vista da população trabalhadora e dos intelectuais aliados a ela e que estão a favor do socialismo.

 

BRECHT, Bertolt. in ‘El compromiso en literatura y arte’; ed. Península, Barcelona, 1973,pp. 423-424.

Maksim Gorki, o criador da chamada literatura proletária que teve seguidores no mundo inteiro em sua época. Mesmo que o mundo resolvesse suas diferenças e corrigisse as injustiças sociais, ainda assim faltaria o último toque, aquele toque que construiu o templo literário de Gorki, resistente à ação do tempo

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Um guia para a cultura e uma ponte para os negócios no Leste Europeu e Ásia Central,

o antigo mundo soviético. 

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