• Equipe Sputnik Consulting

O colapso do mundo neoliberal pós guerra fria

Atualizado: Mai 21


O mundo vive as consequências da crise de 2008.

Artigo escrito com base em entrevista dada pelo jornalista Breno Altman em dez. de 2018.

Nacionalismo, colonialismo e ultra-liberalismo. As economias passaram a ser ultra-liberais internamente e colonialistas externamente, esse discurso colonialista será sustentado com base em um discurso nacionalista xenófobo, tal como Trump, liberal na economia, nacionalista no discurso interno para constituir base de apoio interno tanto para proteção de sua economia quanto para expansão de suas fronteiras coloniais. Um cenário em certa medida semelhante aquele que antecedeu a I Guerra Mundial.


Manifestantes se reúnem na Champs-Elysées, perto do Arco do Triunfo, em Paris — Foto: Lucas Barioulet / AFP

Em 2008 explodiu a forma pela qual o capitalismo sustentava o seu desenvolvimento, nas duas décadas anteriores a 2008 nos assistimos a um duplo processo: de um lado o capitalismo multiplicou sua capacidade de produção em função das revoluções tecnológicas, sobretudo da informação, e essa multiplicação da capacidade produtiva foi acompanhada por uma deterioração da renda das famílias, a rende se concentrou de uma forma brutal neste período. O capitalismo era capaz de entregar mais e melhores mercadorias mas a capacidade de consumo das famílias, especialmente da periferia do mundo. O capitalismo resolveu esse problema durante 15 anos com a expansão do crédito, as famílias não tinham renda, os Estados nacionais também não e assim a roda do consumo familiar e estatal não parou, em 2008 a bolha de crédito estourou porque a oferta de crédito era muito maior que a capacidade de pagamento dos juros desse crédito. Isso explodiu no chamado subprime (crédito de segunda linha para financiar habitações). Com a depreciação brutal do crédito ocorrida naquele momento os grandes capitalistas se voltaram de uma agenda expansiva para uma outra que é cortar custos de qualquer forma para preservar a margem de lucro, crescem menos, vendem menos e precisam cortar custos de produção, ou seja, rebaixar salários, precarizar o emprego, reduzir investimentos sociais e públicos para que o capital rentista possa ter garantias de recebimento das dívidas publicas dos países, privatizar etc. É essa situação de regressão social em que o mundo se encontra, tanto nos países centrais quanto na periferia do sistema. Essa agenda provoca um enorme mal-estar que produz protestos que produz choques políticos que vão abalando as estruturas das democracias liberais dos países no mundo inteiro. Vivemos uma crise prolongada e estrutural do capitalismo na qual emergem protestos sociais e também poderosas correntes de ultra direita porque na medida em que o crise mundial se aprofundou e que as taxas de crescimento do capitalismo caíram, subiu muito a concorrência entre os Estados nacionais e na base do sistema a concorrência pelos empregos entre trabalhadores locais e imigrantes. Neste espaço passou a ter muita força o discurso nacionalista, cada uma das grandes burguesias mundiais defendendo os seus interesses contra os interesses das demais.

Há no cenário atual um triplo conflito produto dessa crise de 2008, há um acirramento do conflito de classes entre a burguesia e a classe trabalhadora dos países porque na medida em que salários e direitos são reduzidos, a classe trabalhadora e as camadas médias assalarias resistem. Um segundo conflito é aquele entre os países centrais e os países periféricos do sistema porque faz parte do reequilíbrio da taxa de lucro dos grandes grupos corporativos o acirramento da exploração dos países do terceiro para controlar seus mercados e matérias primas. E um terceiro conflito, aquele entre as burguesias de todos os países centrais por conta da disputa de mercados e fontes de matérias prima. Neste cenário de triplo conflito é que devemos compreender que a situação da França não é única, e vai provavelmente se espalhar por outros países, trata-se de um sintoma desta crise estrutural e grava que toma conta do sistema.

A crise de 2008 gerou duas ondas: primeiro a do subprime, depois da queda das commodities, especialmente depois de 2014, e pode agora estar indo para sua terceira onda porque os grandes grupos para poder preservar a saúde das empresas incorreu em um grau de endividamento muito alto.

A hipótese da resolução do problema pela via da guerra (vide 1914) é por hora remota devido ao profundo desequilíbrio das forças militares no mundo, EUA, Rússia e China são muito superiores deixando a Europa em segundo plano neste sentido.

_______________________

Breno Altman é jornalista fundador do site Opera Mundi.

https://operamundi.uol.com.br/

#Política #economia

0 visualização