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A EVACUAÇÃO SOVIÉTICA: UM CAPÍTULO POUCO CONHECIDO DA GRANDE GUERRA PATRIÓTICA

Atualizado: Jul 1





O grupo de estudos 9 de Maio

se dedica a estudar e divulgar materiais

acerca da Segunda Guerra Mundial

(Grande Guerra Patriótica) e seus

desdobramentos na sociedade contemporânea.


Por Eden Pereira.


Em 18 de agosto de 1941, no subúrbio de Zaporizhie, uma cidade ucraniana no Donbasse, foram ouvidos os primeiros disparos da invasão alemã. Naquele período, trabalhadores de uma das cidades modelo da industrialização soviética na Ucrânia já estavam cientes do plano de evacuação que seria iniciado no dia seguinte. O Exército Vermelho, estava presente na cidade em linha de defesa ao redor do rio Dniepr, que era um importante ponto de acesso dos alemães a leste para o cerco de Kiev, que então se encontrava sob ataque nazista, também estava ali para garantir a operação bem sucedida da evacuação.



Imagem 1 - Mapa de Evacuação das fábricas de blindados


Embora a heróica resistência em Zaporizhie tenha durado até 3 de outubro de 1941, um pouco depois que Kiev caiu- 26 de setembro-, a empresa de fundição de aço da cidade foi evacuada rapidamente, já em 5 de setembro, locomotivas puxavam 16 mil vagões destinados para o leste do país. Ali, empresas de todos os lados da Ucrânia, Bielorrússia e sul e ocidente da Rússia chegaram diariamente até o fim de dezembro para construir o coração da resistência econômica soviética na Grande Guerra Patriótica.

O episódio descrito é apenas um entre os milhares existentes sobre o processo de evacuação soviético durante a Grande Guerra Patriótica, que por sua vez é um dos maiores símbolos da capacidade de resistência soviética. Um processo que ocorreu durante um período geral de seis meses, mas que abrangia a evacuação de famílias, empresas e fábricas em um período de até 15 dias.

2Já em 24 de junho de 1941, isto é, dois dias após o início da invasão cem massa capitaneada pela Alemanha nazista à União Soviética, o Sovnarkom (Comissariado Popular das Nacionalidades- Futuro Conselho de Ministros), determinou a formação de um Conselho para Evacuação no país. O conselho responsável pela arquitetura e execução desta gigantesca e histórica operação era presidido pelo importante líder revolucionário Lazar Kaganovitch, e assessorado por Aleksey Kossygin, um importante deputado, e Nikolai Shvernik, líder dos sindicatos de todo o país. O plano desenvolvido por esta equipe previu a evacuação de famílias, empresas e indústrias inteiras das partes ocidentais de seu país, e o reassentamento delas nas regiões da Sibéria, Urais, Ásia Central e Cazaquistão.

O plano foi executado com sucesso entre a segunda quinzena de julho e a o fim de outubro, ainda que uma parte das famílias, empresas e fábricas chegassem entre novembro e dezembro. Essa velocidade era necessária, sobretudo porque o avanço nazista era igualmente rápido, pois a Bielorrússia havia caído em questão de semanas, assim como a parte ocidental da Ucrânia e a região báltica. Um dos exemplos da pressa soviética com a aplicação da evacuação, pode ser a surpreendente desmontagem da turbina da estação de energia de Zuevo, realizada em um prazo de 8 horas- possivelmente um recorde mundial para o período.

Entre 12 e 18 milhões de pessoas foram evacuadas neste período para o leste do país- talvez a maior migração em massa da história contemporânea. Foram evacuadas com elas 1.523 empresas, das quais 1.360 eram de alto porte!

A ideia da existência de um poderoso complexo industrial no centro da União Soviética não era algo novo, e nem muito menos um plano desenvolvido dentro da guerra contra a Alemanha. Existiam na década de 1930 uma série de planos para o assentamento de grandes complexos metalúrgicos e siderúrgicos na Sibéria e Cazaquistão, cujo objetivo não apenas era possuir uma capacidade industrial assegurada no caso de uma invasão vinda do ocidente, como aproximar as cadeias produtivas do extremo oriente onde existia uma ameaça japonesa vinda da Manchúria.



Imagem 2 - Ordem de evacuação


Os trabalhadores que chegavam ao coração da União Soviética para produzir para frente de batalha, eram também velozes para remontar as empresas e reiniciar as cadeias de produção industrial. Em outro exemplo, uma fábrica que desenvolvia aviões caça MiG, que havia chegado na região do Volga em 26 de novembro de 1941, iniciou sua produção já em 10 de dezembro do mesmo ano. Até o fim de um dos meses mais frios de um dos invernos mais rigorosos do planeta, os heróis desta fábrica haviam produzido 30 aviões caça da classe MiG-3 e 3 bombardeiros Ilyushin-2!

Tudo isso, não significa, contudo que não ocorreram perdas por parte dos soviéticos com a evacuação. Elas eram muitas!

Cerca de 40% da população- presos, vivendo em territórios ocupados ou lutando na guerrilha Partizan-, 63% da produção de carvão, 68% de ferro gusa, 58% do aço, 60% do total de alumínio, 38% da produção de grãos em relação ao pré-guerra, 84% de açúcar, 38% da carne bovina, 60% de todos os porcos do país. Apenas para ficar com estes exemplos em relação a perda de recursos e materiais por parte dos soviéticos.

No entanto, o heroísmos destes trabalhadores, algo desconhecido no ocidente, garantiu não apenas que a produção com um menor número de recursos fosse ultrapassada, como garantiu que não faltasse produtos de consumo para os povos da União Soviética, ou armas para o combate aos invasores nazistas. Estes trabalhadores são símbolos heróicos de pessoas comuns, jovens, mulheres e camponeses que por horas a fio, em dias consecutivos, batalharam para garantir os recursos necessários à frente de combate da Grande Guerra Patriótica.

Essa dedicação heróica, imortalizada desde então, foi central para o triunfo dos povos da União Soviética sobre as tropas invasoras do eixo e a posterior vitória sobre o nazismo.


Dados retirados de:

NOVE, Alec. An Economic History of USSR- 1917-1991. Editora Penguin Books, Londres, 1993, pp. 275-276.

VOZNESENSKY, Nikolai. The Soviet Economy During Great Patriotic War. Editado por International Publishers, Nova Yorque, s/d, p. 38


Imagens:


1 - Mapa de Evacuação das fábricas de blindados

Esquema de evacuação das fábricas de tanques soviéticas da parte europeia. Otechestvennye bronirovannye machiny. XX vek. 1941-1945. (Veículos Blindados Patrióticos. Século XX. 1941-1945). Editora Izdatelskiy Tsentr ’’Ekspirit’’, Tom: II- 1941-1945, Moscou, 2002, p. 12.

2 - Ordem de Evacuação Ordem de Evacuação

http://www.soldat.ru/doc/gko/scans/0099-01-1.jpg  

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