• Equipe Sputnik Consulting

A Ucrânia elegeu um novo presidente. Quem é Vladimir Zelensky e o que esperar de seu governo?

Atualizado: 23 de Abr de 2019


O que muda na política e economia ucranianas, sua aproximação com a UE, OTAN e suas relações com a Rússia? Uma breve análise.


O ator e comediante, novato na política, Vladimir Zelensky obteve neste domingo (21) uma impressionante vitória nas eleições presidenciais da Ucrânia com cerca de 73% dos votos contra 25% do atual presidente Petro Poroshenko.



Vladimir Zelensky


A campanha do humorista de 41 anos focou seus esforços principalmente nas redes sociais, apresentando o então candidato como antissistema, além de “uma cara nova na política”. Aqui podemos fazer um paralelo com a mesma onda global de populismo e descredito na política na qual surfaram, Trump, Bolsonaro, Viktor Orban entre outros fazendo uso de meios não tradicionais de propaganda. O Tsunami Zelensky prometeu “quebrar o sistema” sem se desviar do curso pró-ocidental. Seu projeto político é vago, a campanha presidencial na Ucrânia careceu de debates profundos sobre os problemas do país, um dos mais pobres da Europa. Tratou-se, assim como no Brasil, da primeira campanha efetivamente da era das redes sociais onde os candidatos se acusavam mutuamente de difundirem fake-news. A margem de manobra do novo presidente até outubro, quando ocorrerão as eleições parlamentares, será limitada.

A maior parte do eleitorado que deu a vitória a Zenesky é de uma juventude pró-ocidental, pessoas que já cresceram em uma economia pós-industrial, muitos vêm o ator como o melhor entre os piores. Zelensky representa uma parte do eleitorado de oposição que não é nacionalista e também não é pró-russo. Trata-se de pessoas que verdadeiramente esperavam que o golpe da Maidan os levasse para a Europa e em lugar disso receberam retórica chauvinista e a mais absoluta desordem corrupta.

A natureza da simpatia a Zelensky é clara: Para muitos é uma pessoa encantadora e sensata. A este respeito, o seu programa é de importância secundária, mas suas opiniões sobre algumas questões fundamentais são mais ou menos conhecidas.

Por um lado, ele ajudou a financiar as ações militares do exército ucraniano no Donbas com seus próprios fundos. Ele acredita que a Crimeia foi anexada pela Rússia e a língua ucraniana deve permanecer como o único idioma estatal. Ele é favorável a um mais significativo movimento do país em direção ao Ocidente, favorável a autocefalia da igreja ucraniana que recentemente se separou do patriarcado de Moscou (embora esta questão, ao que tudo indica, quase não o incomoda) e pela continuação da atual política econômica - devido à falta de alternativas (agora esta política equivale a receber empréstimos do FMI). Sua imagem do futuro ucraniano é assim: “País incrível, liberal e muito livre, para o dinheiro do mundo fique aqui em segurança”.

Zelensky tem outro lado também. Por exemplo, ele é categoricamente contra a retomada das hostilidades no Donbas e considera necessário entrar em acordo com os russos "em algum lugar no meio" de demandas mútuas, e então aprovar o acordo, aparentemente, através de um referendo. Ele se opõe ao ataque à língua russa na Ucrânia e que se faça dessas pessoas cidadãos de segunda classe. Zelensky acredita que a "evolução gradual" resolverá tudo. E aqui vale a pena lembrar que o próprio ator se tornou repetidamente um alvo para os defensores da língua ucraniana devido ao fato de que ele como produtor produz principalmente conteúdo em russo. Além disso, ele entrou em um conflito aberto com o Ministério da Cultura, que segundo ele, "nos dirige sem cultura e sem a qual a cultura não perderá nada", pela razão do fechamento das fronteiras ucranianas para muitos artistas russos.

Em geral, Zelensky se colocou como um candidato que tenta agradar a diversos setores da sociedade. Patriota, mas não fanático. pró-ocidental, mas não russofóbico, euromaidan, mas sem Poroshenko.

Assim, o presidente Zelensky para a Ucrânia moderna será o "último Jedi", um símbolo de nova esperança ucraniana. Esperanças por um futuro europeu num sentido civilizacional, esperanças de renovação, esperanças de normalidade. Esperança desse tipo na Ucrânia nunca se concretizaram, talvez devido à sua mentalidade e geografia, mas não vamos fingir que podemos prever o futuro. É mais seguro falar sobre o que o presidente Zelensky será para a Rússia.

Para a Rússia, aparentemente será um presidente adequado e em boa medida equilibrado. É necessário perceber que muitos na Federação Russa, não excluindo seus círculos de governo, têm uma relação bastante próxima com a Ucrânia (para não dizer "fraterna").

Um presidente equilibrado à frente deste Estado pode finalmente entrar em algum acordo com o lado russo, o que garantirá que o Estado ucraniano, entrando na barganha, tenha pelo menos algum "espaço para respirar". É necessário dar um “espaço para respirar” a um Estado abertamente hostil, que ao mesmo tempo não vai abandonar os planos de integração euro-atlântica, ucranização e descomunização (este último termo é frequentemente usado para atacar tudo o que é russo). Este oponente enfraquecido não deve ser hostilizado não dando assim subsídios para uma nova Maidan, ainda mais anti-russa.

O risco Zelensky, a nosso ver, é o perigo representado pela ascensão à presidência de um político completamente sem experiência, sua equipe eleitoral e seu partido foram formados basicamente por pessoas do seu círculo no canal de TV onde trabalhava e em sua produtora. O nacionalismo de extrema direita provavelmente não vai desaparecer da cena política do país. Seu próprio rival, Proroshenko, afirmou que ele pessoalmente e seu partido acompanharão de perto as ações do governo Zelensky para garantir que o caminho em direção à UE e à OTAN seja sem retorno. No cenário político ucraniano Poroshenko, apesar de suas bravatas, é um moderado se comparado com determinadas figuras e organizações extremistas que ressuscitaram e/ou ganharam força a partir da Maidan. Neste sentido, se no futuro a situação política levar à uma escalada do conflito no Donbas, o país com Zelensky, devido à sua inexperiência, pode mergulhar em um caos ainda maior do que seria com Poroshenko. Poroshenko é claramente uma figura desagradável para a Rússia e agressiva, mas devemos lembrar que ele pegou o país em um completo caos e soube ter astúcia política, muitas vezes por meio de promessas, ameaças e força bruta, para restaurar algum poder vertical que foi pulverizado entre grupos extremistas, muitos de orientação neofascista e armados, no inicio da Maidan e que ameaçavam sair do controle a qualquer momento. Agora, no final de seu mandato, Poroshenko tem muitos destes grupos no bolso, além de muitas conexões no mundo financeiro e na mídia, já que estamos falando de um dos veteranos da política ucraniana.

Zelensky precisará aprender rápido. A imersão final da Ucrânia no caos administrativo ameaça a Rússia com consequências imprevisíveis e, portanto, possivelmente catastróficas.

É claro que não se pode dizer que o ator não tenha aliados poderosos - mas são “novos jogadores”. Temos, por exemplo, a figura de um operador de marionetes experiente, ambicioso e poderoso - o oligarca Igor Kolomoisky está por trás de Zelensky. Kolomoisky é famoso por seu rancor, e sua "guerra fria" com Poroshenko pode rapidamente se tornar "quente". Ironicamente, Kolomoisky lançou a carreira política de Zelensky muito antes de o próprio ator decidir entrar na política. O canal de TV "1 + 1", de propriedade do oligarca escandaloso, é o responsável por uma das séries de televisão ucraniana mais populares - "servo do povo" com Zelensky no papel-título (há uma coincidência dos títulos da série e do partido de Zelensky e isso não foi acidental) e com a personagem que interpreta Poroshenko sofrendo duríssimos ataques. No mesmo canal de TV, Zelensky parabenizou os ucranianos pelo ano novo de 2019, anunciando sua decisão de participar da corrida pela presidência enquanto os parabéns tradicionais do atual presidente foram transferidos para "mais tarde". O grau de influência de Kolomoisky em Zelensky só pode ser especulado. Até agora, ele é objeto de suposições e especulações, e pouco importa saber quem apoiou quem anteriormente (o próprio Kolomoisky, por exemplo, apoiou Poroshenko, e o oligarca Boris Berezovsky apoiou Putin, depois se tronaram rivais). Ambos são “curingas” no quadro da crise ucraniana, quando e de onde virá o próximo capítulo da crise e como ele afetará os vizinhos (isto é, os russos) não está claro.

Por outro lado, está claro que esperar de Zelensky que aquelas relações entre a Rússia e a Ucrânia, as quais pareciam necessárias para ambos há apenas 5 anos atrás, sejam retomadas, é sem sentido. Referimo-nos à interrupção da desrussificação, garantias de transito de gás, comércio civilizado e relações com a OTAN. Isso tudo mesmo se admitíssemos como verdade as acusações de Poroshenko de que o comediante foi “comprado” pela Rússia, para uma virada como esta, tão brusca por cima de uma poça de sangue de mais de 13 mil mortos na guerra civil do país, ele não terá nem força nem possibilidades. Pela Crimeia e pelo Donbas, paixões nacionalistas, papel dos EUA e EU, o conflito russo-ucraniano, tudo isso caiu em uma espiral de inércia, e agora sua energia é suficiente para alguns mandatos presidenciais independentemente do sobrenome do presidente.

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