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A VALORIZAÇÃO DO TRABALHO E DO ESTUDO PARA A DIGNIDADE DOS BRASILEIROS.


Cena do filme Germinal (1993), dirigido por Claude Berri baseado no livro homônimo de Émile Zola.



Neste Dia do Trabalho em meio a uma pandemia, pudemos refletir sobre o trabalho e o trabalhador sob uma perspectiva prática bastante peculiar. Com o isolamento social, os trabalhadores mais afortunados podem utilizar-se do teletrabalho - que por si é um tema que levanta muitas questões sobre a divisão da vida particular com o trabalho, sobre a situação das mães trabalhadoras, entre outras -, contudo, além dos muitos trabalhadores dos serviços essenciais, que estão arriscando-se pelo bem da sociedade, muitos trabalhadores já em condições precárias vêem-se agora impedidos de exercer seus ofícios e completamente desassistidos por um governo incompetente que atua sempre contra o trabalhador e contra aqueles que mais precisam da ação do Estado.

Toda a riqueza advém do trabalho, nenhuma combinação de fatores produtivos que não envolva o trabalho pode gerar riqueza verdadeira, no máximo gera especulação. E é muito curioso observar que o trabalhador, justamente este que é o motor de toda a economia, seja relegado ao último lugar das prioridades dos tomadores de decisão no governo e fora dele. Todos se lembram dos primeiros dias da chegada da pandemia ao Brasil, quando empresários patriotas clamavam pela salvação da economia, ainda que pelo perecimento dos trabalhadores; isso só é possível, porque faltam dois elementos na nossa estrutura social, a primeira, mais simples, é decência, humanidade e vergonha na cara da elite econômica do país, e a segunda é a verdadeira valorização do trabalhador pela própria sociedade, e sua adequada proteção pelo Estado. Ambas as coisas só podem ser conseguidas com uma mudança completa no zeitgeist brasileiro.

Vivemos em um período de retrocesso econômico e de retrocesso civilizatório. Não que já tivéssemos alguma vez na história sido um país muito civilizado, mas houve algumas tentativas. Agora, impera a barbárie. Por um lado, a barbárie é o que se pode esperar de um povo a quem foi negado desde sempre os meios para civilizar-se, como a educação, o saneamento, a saúde, a moradia, o emprego, o acesso à cultura e ao lazer e até mesmo um tratamento digno pelo Estado. O Estado não trata dignamente o povo em geral, mas a elite não sofre deste problema, seus encontros com o Estado podem ser desagradáveis em algumas pequenas situações, mas geralmente não o são e podem ser em muitos casos extremamente lucrativos. A elite econômica brasileira modelou o Estado para garantir sua permanência como elite, e sendo uma elite inculta e cujos interesses não convergem com os interesses de desenvolvimento nacional e de melhoria das condições de vida dos trabalhadores, o Estado não foi capaz de conduzir nem o crescimento econômico sustentado nem o desenvolvimento social sustentado.

Para que o Brasil possa entrar nos trilhos do crescimento econômico e do desenvolvimento social, duas coisas são imprescindíveis: a valorização do estudo e a valorização do trabalho.

Pela valorização do estudo, poderemos nos livrar da liderança política ignorante e orgulhosa da própria ignorância, muitas vezes apoiada em movimentos religiosos e mancomunada com seus líderes – isso quando os líderes políticos não são também os líderes religiosos – que se aproveita de um povo incapaz de discernir a verdade da mentira por falta de estudo, por falta do hábito de pensar que só pode ser cultivado com o estudo. Quando o estudo e a cultura forem valorizados, a nossa grosseira classe dominante terá diminuída parte de sua influência social, muitos reis estarão nus, com seus vergonhosos preconceitos, suas ridículas limitações intelectuais expostas; neste ponto os mais afetados serão não exatamente os integrantes da classe verdadeiramente dirigente, mas seus cães de guarda, a classe média alta que se considera rica e odeia o povo por perceber sua inescapável proximidade com ele, pois o que mais ofende a este tipo de pessoa - comumente os mais radicais e fanáticos defensores da truculência social e política – é perceber que a diferença de renda entre eles e os donos do capital é incomparavelmente maior que aquela entre esses e os mais pobres trabalhadores. Outrossim, o estudo evita a alienação e permite ao ser humano desenvolver sua consciência e sua humanidade, elevando-o mental e espiritualmente; parte importante dos problemas nacionais resultam da falta de consciência e do desconhecimento da nossa própria dignidade.

Pela valorização do trabalho, reconheceremos a importância do trabalhador, e corrigiremos os desvios daqueles que optam por meios outros que não o trabalho para enriquecer. Também assim elevaremos nossa condição moral, pois ao valorizar as pessoas pela sua contribuição à sociedade, derrubaremos os ídolos construídos pela sociedade de consumo desenfreado – muitos deles incluídos naquela grosseira classe dominante. Ao valorizar o trabalho e o trabalhador, não mais permitiremos que haja em nossa sociedade tantas pessoas sem emprego e tantos trabalhadores precarizados, tantos trabalhadores que precisam de múltiplos empregos para sustentar suas famílias, pois a remuneração pelo trabalho deve ser justa e permitir uma vida digna, de modo que o trabalho sirva ao indivíduo para dar-lhe mais sentido à vida, e não para impedir que viva, que o trabalho de cada um sirva à sociedade para desenvolvê-la, progredi-la e para resolver os problemas sociais.

Com tantas manifestações de respeito e apreço pelos trabalhadores que continuam em atividade para que os serviços essenciais não deixem de funcionar e para salvar vidas, cabe lembrar que de nada adianta manifestar apoio quando estes trabalhadores mostram-se heróis, e depois combater suas demandas legítimas por melhores condições e salários. Agora que muitos trabalhadores não podem trabalhar, suas funções passam a ser valorizadas, mas esta valorização só será honesta se não for esquecida quando a vida retornar à normalidade. Os arroubos de fraternidade só serão verdadeiros se este sentimento permanecer após o perigo ter passado, caso contrário terá sido apenas pavor e insegurança, uma genuína expressão de covardia.

Espero que reconstruamos durante o tempo sombrio em que vivemos a dignidade humana, que vem sendo erodida pela insanidade e ignorância que se apresentaram tão bruscamente nos últimos anos; e esta dignidade virá pelo estudo e pelo trabalho.


* Este texto não reflete necessariamente a opinião de Sputnik Commercial & Consulting.

S O B R E O A U T O R

Paulo Roberto de Macedo-Soares é formado em negócios internacionais, pós-graduado em política e relações internacionais e consultor Sputnik Commercial & Consulting. Em sua coluna escreve sobre política, economia e cultura.