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ANÁLISE: França em chamas



Alguns dados fundamentais para entender a situação na França:

Já não se trata apenas de uma mobilização isolada de pessoas que protestam contra o aumento dos combustíveis. A mobilização se estendeu aos estudantes secundaristas que já bloqueiam as escolas e paralisam as atividades em milhares de escolas, o movimento também atinge várias universidades expressando um repudio generalizado ao governo Macron e às leis aprovadas no âmbito da educação. A mobilização se estende também para uma série de setores operários que se juntaram na última semana à mobilização dos coletes amarelos, temos em marcha, uma mobilização de grandes proporções do conjunto dos trabalhadores franceses, não se trata mais de um movimento especifico, alguns jornais dão conta de que os movimentos populares da periferia de Paris, onde estão os imigrantes, começam a participar das mobilizações. Há uma tendência de mobilização geral de todos os setores populares contra o governo Macron levando à uma desestabilização do governo e do regime político. O presidente da república cedeu às reivindicações duas vezes, o que não impediu a continuidade do movimento, fato este característico de um típico movimento de traços revolucionários porque na medida em que o poder público recua diante das reivindicações, as reivindicações aumentam e as pessoas mobilizadas se tornam mais exigentes. Alguns jornais franceses já falam que essa é a maior crise política que já se viu na França depois da II Guerra Mundial. Pode parecer exagerado pois, na França tivemos o movimento de maio de 1968 mas, dá uma ideia de como a burguesia francesa vê o problema. É preciso considerar que contrariamente a 1968, o governo Macron que foi saudado como uma grande realização da burguesia imperialista foi desde o começo um governo minoritário e fraco apesar dos números conquistados nas eleições. Isso serve para mostrar que nem sempre a eleição reflete de maneira precisa o que ocorre na realidade, pode-se ganhar a eleição e ser um governo fraco, é o caso do Macron. O medo da burguesia é justamente que a mobilização se torne mais violenta, há uma grande campanha contra a violência, o que divide os manifestantes. O governo além de recuar fez um apelo patético a todas as forças políticas à calma e ao pacifismo. O único partido que se manifestou neste sentido após o apelo do presidente foi o partido republicano, o mais conservador de todos, os demais temem fazer esse tipo de convocação pois a mobilização é muito ampla e agressiva, além de muito desconfiada do sistema politico francês de um modo geral. A oposição de conjunto, a esquerda e a direita fizeram uma manobra parlamentar para tentar conter a manifestação pedindo a derrubada do primeiro ministro e convocação de novas eleições parlamentares, pedido este feito pelo França Insubmissa de Mélenchon e pela extrema direita do Reagrupamento Nacional, antiga Frente Nacional. Logicamente que isso não está de acordo com os manifestantes, uma das palavras de ordem da manifestação é “Macron renuncie”. De um modo geral a extrema esquerda não tem uma política adequada para a situação, uma parte participa ativamente da mobilização sem se preocupar com a ideia que havia no inicio de que os coletes amarelos eram da extrema direita, ideia esta que ficou para trás, e outra parte participa sem fazer referencia aos coletes amarelos. O que ninguém tem é uma palavra de ordem clara para a mobilização, que seria a queda do presidente da república, o “fora Macron” não aparece nas palavras de ordem de nenhum dos partidos que têm medo, têm um politica tímida, o governo foi eleito há pouco tempo e para estes, tal palavra de ordem parece incomum, o que não é de se admirar uma vez que a esquerda institucional é pequeno burguesa e vive em círculos de classe média e logicamente essa é uma das palavras de ordem “não respeitáveis”.

A fraqueza do governo veio à tona após ataques pesados ataques contra a população.

Temos uma população que não reconhece a autoridade política dos principais partidos políticos franceses, que rejeitou o partido socialista pelas políticas neoliberais levadas a cabo por ele e rejeitou o partido dos republicanos pelo mesmo motivo. A população não assimilou da maneira como o imperialismo pensava que seria a formação de um novo partido, o A república em marcha, de Macron, que seria a substituição de todo este sistema político desgastado, a “novidade”. Agora ficou claro para a população que o governo Macron é uma versão piorada dos governos neoliberais anteriores. Esta constatação está levando à uma rebelião que pode se generalizar e não é de se descartar que o governo caia. A questão dos coletes amarelos ficou para trás, agora todos os setores manifestam suas próprias insatisfações, os sindicatos discutem se devem ou não entrar em greve em apoio ao movimento geral. O que de fato começou como um movimento específico, contra o aumento dos combustíveis, pode agora assumir características de um movimento revolucionário a depender da adesão da população de um modo geral e das organizações operárias. A preocupação da burguesia é de que o governo possa ser derrubado por um movimento das ruas, o que abriria uma crise extraordinária na França. O Reagrupamento Nacional que estava satisfeito no inicio com essa mobilização por achar que poderia capitaliza-la não está agora tão ativo e passou para o segundo plano. Na medida em que a mobilização cresce vai contra a polícia ela torna-se uma mobilização contra a ordem estabelecida e, portanto, vai contra os patrões e os apoiadores da Frente Nacional, por isso a Frente Nacional diz apoiar, mas matem uma atuação bem discreta, a participação da direita não é fundamental, porém, ela continuará tentando capitalizar o movimento.

Esse governo que foi fruto de uma manobra muito complexa para levar um partido minoritário ao poder, semelhante ao que aconteceu com Bolsonaro no Brasil, coloca em evidencia que essas manobras não são suficientes para desfazer a situação de crise e bloquear a mobilização popular, a tendência destes regimes se revela no caso francês de maneira muito clara, a tendência não é de que a direita ganhe espaço político, a direita está ganhado espaço politico pela falta de iniciativa da esquerda, nesta crise nenhum setor da esquerda francesa tem a iniciativa de pedir que o governo renuncie e que sejam convocadas eleições, eleições convocadas no calor das manifestações seriam trágicas para todos os partidos de direita e a ofensiva popular poderia ser grande mas a esquerda não chama a greve geral apesar de já ter passado tanto tempo desde o inicio das mobilizações. A CGT esta paralisada discutindo se deve ou não chamar a greve e as organizações estudantis francesas também não o fazem mesmo com os estudantes ocupando todas as escolas e o movimento se estendendo para as universidades. Desta forma o movimento poderá tender para a direita que ocupará o espaço político sem ter de fato uma força para faze-lo. A proposta de uma parte da esquerda que pede a dissolução do governo é uma proposta que fica muito aquém das exigências das ruas que não querem simplesmente a renuncia do primeiro ministro e sim, a renuncia de Macron. Se as ruas estão contra Macron, estão, portanto, contra todo o regime político francês.

A mobilização francesa pode balançar a situação política europeia e mundial a depender do agravamento da crise e de como ela se desenvolva. Pode ser o principio de um amplo movimento contra a extrema direita e contra apolítica dos bancos.

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Rui Costa Pimenta, jornalista e

Analista político

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