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Assim foi temperado o aço


A obra “Assim foi temperado o aço”, escrita por Nikolai Ostrovski (1904-1936) entre 1930-1931 e publicada originalmente pela revista "Molodaya Gvardia” (Jovem Guarda) em 1932 é, sem dúvida, uma das mais representativas obras do realismo socialista e merece destaque entre as grandes e imperecíveis obras literárias já produzidas pela Humanidade. Trata-se, para os jovens, de leitura absolutamente necessária.


A Revolução de Outubro de 1917 constituiu o ponto de partida para uma nova etapa na literatura russa - o realismo socialista. "Assim foi temperado o aço" é um exemplo do empenho da literatura em auxiliar o Estado revolucion

ário a educar seus jovens, desenvolvendo nas novas gerações a coragem e a confiança em sua missão de formar e consolidar o Estado soviético. Coragem, confiança, garra, vontade e o mais que fosse necessário para que sua missão fosse realizada era o que não faltava a Pavel, personagem principal desta obra, que lutou até mesmo quando suas condições não mais permitiam.

O romance Assim foi temperado o aço, de Nikolai Ostróvski se insere na tradição de literatura edificante. Publicado em 1934, tem como característica a recuperação do “herói positivo”. A personagem Pável Kortcháguin, inspirada na vida do próprio autor, caracteriza-se por uma espécie de romantismo revolucionário: dotado de um caráter impulsivo e obstinado. Sai das camadas mais baixas do povo para mais tarde ingressar nas fileiras do exército vermelho. Kortcháguin, à semelhança de Rakhmiétov de O que fazer?, abdica dos interesses de ordem pessoal, da vida privada, em prol da causa revolucionária e da consolidação da revolução socialista. Também possui um sentimento de coletividade bastante evidente, sente-se parte integrante da massa e não mais um ser individual contribuindo para a profusão do valor de coletivização, daquilo que é de todos:

Pável perdeu a sensação de individualidade. Todos aqueles dias estavam saturados da embriaguez dos combates cruentos. Pável fundiu-se com a massa e, como cada um dos combatentes, pareceu ter esquecido a palavra “eu”, ficando unicamente “nós”: nosso regimento, nosso esquadrão, nossa brigada. (OSTRÓVSKI, 2003, p

Em outro trecho, há o explicito rompimento com os interesses privados para privilegiar a causa revolucionária:

[...] o meu amor ainda pode voltar, mas para isso, deves estar conosco. Eu não sou agora o Pável de antes. E serei um mau esposo, se achas que devo pertencer mais a ti do que ao Partido. Antes de tudo, pertencerei ao Partido, e depois a ti e aos demais seres amados. (2003, p. 237)

A personagem vivencia uma trajetória de ascensão cultural que remonta aos ideais apregoados pela intelligentsia russa no século XIX de instruir o povo para que com esse conhecimento a revolução se desse de maneira mais justa. Podemos dizer que Pável Kortcháguin representa a realização do “herói positivo”, do revolucionário idealizado por Tchernichévski. A definição dada por Frank (1992, p. 216) de Rakhmiétov como um herói dedicado, com vontade de ferro, que ama a humanidade e se sacrifica por ela, é inteiramente aplicável a Kortcháguin, excetuando-se apenas a crueldade e o egoísmo de Rakhmiétov.

Contexto

histórico

O realismo socialista, segundo definição de Jdanov, corresponde, do ponto de vista de sua criação, a “uma forma socialista num conteúdo nacional”. (2) Diferentemente da decadente e pedante produção artística burguesa que, sendo parte da concepção de mundo da burguesia e interessada na manutenção do status quo, busca por todas as vias a fuga à realidade, a distorção mais vulgar e embrutecedora da vida, o culto ao ócio e à decomposição da classe dominante, a concepção proletária da literatura e da arte, ao contrário, alimenta-se exatamente da vida e da luta das massas de milhões e bilhões de trabalhadores oprimidos, os construtores autênticos de toda as riquezas, a classe operária e o campesinato, principalmente.

Se a arte burguesa teme a realidade, a verdade, baseia-se no niilismo, no misticismo e na pornografia, é porque, no campo artístico assim como no campo científico a burguesia é inimiga irreconciliável da verdade, uma vez que é classe reacionária condenado ao desaparecimento. A literatura e arte revolucionárias proletárias, ao contrário, se alimentam da verdade, da vida das massas, de seu heroísmo cotidiano na luta de classes e na luta pela sobrevivência, essa espada que paira sobre a cabeça do povo sob o capitalismo, aonde o espectro do desemprego e da fome está sempre à espreita. A literatura e a arte revolucionárias proletárias alimentam-se da verdade, enfim, porque o futuro pertence à classe operária e demais classes oprimidas, e é o comunismo inarredável meta histórica, para onde marcha a Humanidade inelutavelmente.

“Assim foi temperado o aço” começou a ser escrito no final do ano de 1930. Momento de aguda crise do capitalismo a nível mundial (craque de 1929) momento em que o mundo capitalista ardia em crise e começava a soar os tambores da guerra. Na Alemanha, rondava a ameaça da besta nazista, que se confirmaria logo depois. Enquanto isso, em um sexto do globo terrestre, nos territórios das Repúblicas Socialistas Soviéticas, marchava a passos largos a edificação de um mundo novo. Completara-se definitivamente então a passagem do período de reconstrução econômica da NEP (Nova Política Econômica) ao período da edificação sobre novas bases da economia socialista propriamente dita, com a aplicação dos primeiros Planos Qüinqüenais e a coletivização no campo, liquidando com a classe dos kulaks (camponeses ricos). Sobre as ruínas da antiga sociedade nascia, edificada pelos braços vigorosos de milhões de homens e mulheres, operários, camponeses, a juventude em geral, uma nova sociedade, uma nova economia e uma nova cultura. Nascia mesmo um novo mundo, nascia também um novo Homem.

Tal movimento gigantesco e violento, que sacudira não só à União Soviética mas todo o mundo, como ocorreu sempre ao longo da história, não transcorreu “pacificamente”. Ocorreu em meio a grandes tormentas, porque é por meio delas, como diria o Presidente Mao, que avança a sociedade humana.

O cerco imperialista era tremendo. Após o término da Guerra Civil (1918-1921), aonde 15 países invadiram a jovem república proletária intentando mata-la ainda no nascedouro, vencida pelo Poder Soviético, jamais a Pátria do socialismo deixou de ser vítima de todo tipo de restrição e sufocamento econômico, diplomático e militar. A ameaça de uma intervenção estrangeira nunca deixou de estar presente. E, principalmente, dentro da União Soviética e do Partido Comunista (bolchevique) da União Soviética mesmo, se levantavam furiosamente todas as forças moribundas da velha sociedade, utilizando-se para isso de todas as “capas” e justificativas possíveis no intento de retornar à velha sociedade. A situação extremamente complexa em todo o mundo, e aguçada na Rússia com a coletivização socialista da agricultura, expressaram-se em uma aguda luta de duas linhas no seio do Partido Comunista, aonde, sob a liderança do camarada Stalin, a linha proletária logrou naquele momento prevalecer.

Toda a gritaria derrotista das diversas correntes burguesas e pequeno-burguesas, apregoando a “degenerescência” e “desvirtuação” do Partido bolchevique e da ditadura do proletariado, da qual o trotskismo é um rebotalho, foi devida e fragorosamente derrotada pela marcha histórica. As duas teses centrais em torno das quais erigia Trotski suas “concepções”, quais sejam, a negação da possibilidade da aliança operário-camponesa e a negação da possibilidade de se edificar o socialismo em um só país, teses profundamente hostis ao desenvolvido em teoria e prática pelo próprio camarada Lênin em primeiro lugar, foram aplastadas. A esse antigo representante do menchevismo restou tomar o mesmo caminho trilhado por seus antigos companheiros Martov & cia, ou seja, o da contra-revolução armada à soldo dos países imperialistas.

É esse, em linhas bem gerais, o cenário da obra de Nikolai Ostrovski que, como se depreende pelo próprio romance, não assistiu tais acontecimentos do alto de suas janelas, ou enfurnado em bibliotecas, mas deles participou ativamente.

Autor

e obra

Pouco se conhece, no Brasil, a respeito de Nikolai Ostrovski. E se sabe menos ainda que a sua obra mais importante – e única- é, sob vários aspectos, um retrato exato da sua própria vida.

Nikolai Ostrovski nasceu em 24 de setembro de 1904, na aldeia ucraniana de Vilyia, filho de uma família proletária. Desde muito cedo gostava de ler e sempre esteve entre os melhores alunos da escola. Em 1915 muda-se com a família para a cidade de Shepetovka Nikolay, perto da fronteira com a Polônia, e gradua-se na Escola Básica Integrada do Trabalho. Torna-se operário, trabalhando como foguista.

Alguns biógrafos afirmam ter Ostrovski ingressado no Exército Vermelho em 1919, participando ativamente da guerra civil contra os exércitos brancos contra-revolucionários. Segundo esta versão, teria ficado gravemente ferido nas costas no outono de 1920, e por isso foi desmobilizado. Esse fato, entretanto, nunca foi mencionado por Ostrovski. Não obstante, foi desde o princípio grande entusiasta da Revolução de Outubro e tomou parte de inúmeras atividades clandestinas em sua terra natal.

Por viver próximo à fronteira com a Polônia, Ostrovski vivenciou a encarniçada luta entre o Exército Vermelho e os exércitos alemão e polonês, bem como os diversos grupos de guardas brancos e seus pogroms (chacinas de judeus) criminosos. Vencida a guerra civil, integra-se à construção socialista e participa como mecânico da construção da grande ferrovia destinada ao abastecimento de Kiev. No local da construção Ostrovski, de saúde muito frágil, permaneceu sempre exposto ao frio e acabou contraindo tifo. Ainda assim permaneceu firme no trabalho e somente foi levado para casa quando pulou na água gelada para tentar salvar a madeira que estava afundando, tendo quase se afogado.

Logo Ostrovsky foi diagnosticado com poliartrite, ou seja, foi condenado a permanecer imóvel durante o resto de sua vida. Enquanto pôde mover-se, entretanto, desempenhou febril atividade revolucionária e se tornou secretário da União da Juventude Comunista da Ucrânia. Em 1924 ingressa no Partido Comunista.

Sua saúde debilita-se diariamente e os tratamentos tentados não surtem efeito. Aos 23 anos já não consegue andar e sofre de dores crônicas. Dedica-se então ao estudo, e escreve em uma carta: "Eu perdi tudo fisicamente, mas a energia da juventude e o desejo de ser útil ainda permanecem". Pouco depois, em decorrência da doença, perde também a visão.

Nesse momento difícil, seus amigos e camaradas o estimulam a escrever um livro. Começa então a rascunhar a história de um jovem que, como ele, decide abraçar e defender o Poder Soviético. Começa a nascer Pável Kortcháguin que, como vemos, em muito se assemelha ao seu criador.

O livro, iniciado no final de 1930, teve sua primeira parte concluída em Moscou, em 1931. No texto original, foram encontrados 19 manuscritos de pessoas diferentes, uma vez que o autor ditava o texto. A primeira parte enviada à revista “Jovem Guarda” foi recusada pelos editores por acharem, vejam só, os personagens principais totalmente “irrealistas”! Entretanto, os responsáveis da propaganda soviética interviram e em abril de 1932 a revista iniciou a publicação do romance. Em sua vida, Ostrovski viu 41 edições soviéticas de seu romance.

O conteúdo do romance, e o contexto em que foi escrito, tornaram o autor muito popular na União Soviética e em todo o mundo. Pouco tempo após seu aparecimento o livro já ganhava edições no Japão, na República Checa e nos Estados Unidos. Em 1935 Nikolai Ostrovski é condecorado com a Ordem de Lênin, o maior mérito na União Soviética. O governo soviético disponibilizou-lhe todos os recursos para que pudesse continuar a viver e a produzir e o autor recebeu uma casa em 1936, aonde começou a trabalhar em seu segundo romance. Infelizmente, entretanto, uma semana após ter concluído o primeiro volume, em 22 de dezembro de 1936, seu coração deixou de bater.

Foi enterrado em Moscou e seu nome batizou inúmeras ruas e praças por todo o território da URSS. Seu romance mereceu três edições diferentes no cinema soviético.

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