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Rússia, China e os BRICS, uma convergência ou uma ilusão?


Duas narrativas dominaram a discussão dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A primeira afirma que este grupo de países se tornou uma força importante na política internacional do século XXI, destacando a mudança no poder global do Ocidente. A segunda, pelo contrário, vê os BRICS como uma incógnita, marcada pelo abismo entre a retórica extravagante e a conquista mínima. O debate não poderia ser mais polarizado. No entanto, em um ponto, há convergência: a chave para a viabilidade dos BRICS reside na interação efetiva entre seus dois principais atores, a Rússia e a China.


Moscou e Pequim têm assiduamente promovido uma imagem de “semelhança” dentro dos BRICS, mas tais esforços dificilmente conseguem ocultar diferenças significativas nas atitudes e na abordagem. O Presidente Putin identifica os BRICS como o fundamento de uma ordem multipolar não-ocidental em que a Rússia desempenha um papel central. Para os chineses, no entanto, os BRICS são um espetáculo de fachada – apenas um entre muitos instrumentos para avançar seus interesses na Eurásia e além. Essas perspectivas contrastantes limitam severamente o potencial dos BRICS em oferecer um modelo alternativo de governança global ou atuar como um motor eficaz de desenvolvimento internacional. Enquanto os BRICS permanecerem parte do cenário internacional, nos próximos anos, sua relevância será cada vez mais questionada.

Duas narrativas dominaram o debate sobre os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A primeira afirma que este grupo se tornou uma força importante na política internacional do século XXI. Ele pode até ter se originado como um slogan de marketing, segundo os clientes da Goldman Sachs [1], mas na última década o processo dos BRICS gerou um ímpeto sério. Uma vez que os conceitos abstratos adquiriram substância genuína, a ascensão dos países BRICS passou a expressar uma tendência maior – a mudança do poder global do Ocidente para o Leste.[2] O sistema internacional liderado pelos EUA estariam dando lugar a uma ordem pós-americana multipolar e as instituições de Bretton Woods estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial estariam sendo suplantadas, lenta, mas inexoravelmente, por novas figuras para um novo século.

Muitos céticos, entretanto, contestam esta visão otimista. Eles observam que, apesar das grandiosas declarações de intenções, o progresso tem sido muito modesto. Diferenças no nível econômico, na cultura política, nas aspirações estratégicas e nos objetivos políticos asseguraram que os BRICS continuassem a ser um “talk-shop”. Países membros individuais, em particular a China, são influentes, mas coletivamente a influência do grupo BRICS é mínima. Sua fraqueza foi sublinhada por acontecimentos recentes: a desaceleração do crescimento econômico chinês, as recessões na Rússia e no Brasil, o permanente atraso da Índia e a quase irrelevância da África do Sul. [3] A decisão da Goldman Sachs de encerrar seu fundo BRICS em favor de uma abordagem mais adaptada e individualizada revela até que ponto essa construção se tornou desacreditada. [4]

O debate sobre os BRICS dificilmente poderia ser mais polarizado. No entanto, em um ponto essas perspectivas muito diferentes se juntam. Na visão do processo BRICS como a base de uma nova ordem mundial ou de um elaborado enigma, a relação sino-russa, claro, detém a chave para suas perspectivas futuras. Não é por acaso que o incremento do “perfil” dos BRICS nos últimos anos coincidiu com o ganho de expressividade desta “parceria estratégica”. Esse nexo pode permanecer por algum tempo. Um cenário positivo para o futuro desenvolvimento dos BRICS depende de sinergias econômicas, de segurança e geopolíticas duradouras entre Moscou e Pequim. Por outro lado, qualquer degradação de laços bilaterais iria expor a fragilidade da construção BRICS.

A questão-chave, então, é a direção da viagem. Moscou e Pequim cooperarão na realização de uma visão ambiciosa para os BRICS? Ou seus objetivos e aspirações são incompatíveis? Líderes de ambos os lados aproveitam todas as oportunidades para enfatizar sua semelhança, mas essas garantias apontam para uma realidade em evolução ou simplesmente ensaiam antigas platitudes? E mesmo se assumirmos um compromisso sincero, até que ponto isso pode ser traduzido em realização tangível frente a numerosos obstáculos? Para responder a estas perguntas, precisamos identificar os objetivos russos e chineses em relação aos BRICS; examinar as semelhanças e contradições entre suas respectivas políticas; e avaliar as realizações e deficiências de sua interação até agora, é o que veremos em breve na continuação deste artigo.

Originalmente publicado por

http://passapalavra.info/

[1] J. O’Neill, “Building better global economic BRICs”, Goldman Sachs Global Economics Paper, No.66, 30 November 2001.

[2] K. Mahbubani, “The New Asian Hemisphere: the Irresistible Shift of Global Power to the East”, Public Affairs, New York, 2008.

[3] A falta de sinergia entre os BRICS se reflete em seus modestos laços econômicos – exceto quando se trata da China. Entre os parceiros comerciais da Rússia em 2014, a China ficou em segundo lugar (11,3% do total) e a Índia em décimo (1,2%). No caso da China, apenas a Rússia (nona com 2,2 por cento) e o Brasil (décimo com 2 por cento) estavam no top10. A China foi o segundo parceiro comercial da Índia (9,2%), do Brasil (17,1%) e da África do Sul (12,8%). Os outros BRICS não figuram entre os dez maiores parceiros destes três últimos países, com exceção da Índia no comércio externo da África do Sul (quinto com 4,4%). Em comparação, a UE é o principal parceiro comercial de cada um dos países BRICS. Ver: <http://trade.ec.europa.eu/doclib/docs/2006/september/tradoc_113440.pdf>, <http://trade.ec.europa.eu/doclib/docs/2006/september/tradoc_113366.pdf>, <http://trade.ec.europa.eu/doclib/docs/2006/september/tradoc_113390.pdf>, <http://trade.ec.europa.eu/doclib/docs/2006/september/tradoc_113359.pdf>, <http://trade.ec.europa.eu/doclib/docs/2006/september/tradoc_113447.pdf>.

[4] J.-P. Lehmann, “The Rapid Rise and Fall of the BRICS: Meanderings in Global Fantasyland”, Forbes, 11 October 2015.

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