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Como China e Rússia se unem contra a hegemonia dos EUA


Por Pepe Escobar

A esta altura, todos deveríamos saber que o coração do Grande Jogo do século 21 é a miríade de vertentes da batalha entre os Estados Unidos e a parceria entre a Rússia e a China. Até mesmo a Estratégia Nacional de Defesa dos EUA o reconhece: “O desafio central para a prosperidade e segurança dos EUA está no ressurgimento da competição estratégica de longo prazo promovida por… poderes revisionistas”.

O recente parecer sobre as implicações da expansão global da China sobre a defesa dos EUA também o diz. O confronto moldará o surgimento de uma possível ordem mundial estratégica pós-ideológica, em meio a uma imprevisibilidade extremamente volátil, na qual a paz é guerra e um acidente pode desencadear um confronto nuclear. O cenário “EUA versus Rússia e China” continuará desafiando a obsessão do Ocidente em ridicularizar o “antiliberalismo”, um exercício retórico e medonho que iguala a democracia russa ao governo de um só partido da China, à demo-teocracia iraniana e ao renascimento neo-otomano da Turquia. É irrelevante que a economia da Rússia seja um décimo da economia chinesa. Desde o impulso ao comércio sem o uso do dólar americano até o aumento de exercícios militares conjuntos, a simbiose Rússia-China está pronta para avançar além das afinidades políticas e ideológicas. A China precisa muito de know-how russo em sua indústria militar. Pequim transformará esse conhecimento em uma abundância de inovações civis e militares de duplo uso. O longo jogo indica que a Rússia e a China vão derrubar barreiras culturais e de idioma para liderar a integração euro-asiática contra a hegemonia econômica americana apoiada pelo poderio militar. Pode-se dizer que o século eurasiano já está diante de nós. A era do Ocidente moldando o mundo à vontade (um mero lapso de história) acabou. Isto apesar das negações e fulminações da elite ocidental contra as chamadas “forças moralmente repreensíveis”, “forças de instabilidade” e “ameaças existenciais”. A Standard Chartered, empresa britânica de serviços financeiros, usando uma combinação de taxas de câmbio, poder de compra e crescimento do PIB, projetou que as cinco principais economias em 2030 serão a China, os EUA, a Índia, o Japão e a Rússia. Serão seguidos pela Alemanha, Indonésia, Brasil, Turquia e Reino Unido. A Ásia ampliará sua classe média no exato momento em que esta está sendo destruída no Ocidente. Pode-se argumentar que as elites de Pequim estão fascinadas em como a Rússia retornou, em menos de duas décadas, ao status de semi-superpotência após a devastação dos anos de Yeltsin. Isso aconteceu em grande parte devido à Ciência & Tecnologia. O exemplo mais ilustrativo é o incomparável e avançado de armamento revelado pelo presidente Vladimir Putin em seu discurso de 1º de março de 2018. Na prática, Rússia e China estarão avançando no alinhamento das Novas Rotas da Seda da China, ou a Iniciativa do Cinturão e da Estrada [Belt and Road Initiative (BRI), em inglês] com a União Econômica Rússia-Eurásia. Há um amplo potencial para que uma rede expressa Trans-Eurásia de transporte terrestre e marítimo esteja pronta e funcionando em meados da próxima década, incluindo, por exemplo, pontes rodoviárias e ferroviárias ligando a China à Rússia em todo o rio Heilongjiang. Após importantes conversas trilaterais envolvendo Rússia, Índia e Irã em novembro passado, mais atenção está sendo dada ao Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC), uma pista de 7.200 km misturando rotas marítimas e ferroviárias, ligando essencialmente o Oceano Índico ao Golfo Pérsico (através do Irã e da Rússia) e mais adiante à Europa. Imagine que a carga transite de toda a Índia para o porto iraniano de Bandar Abbas; depois siga para Bandar Anzali, um porto iraniano no Mar Cáspio; para o porto russo de Astrakhan; e, de trem, para a Europa. Do ponto de vista de Nova Delhi, isso significa que os custos de transporte foram reduzidos em até 40%, e a rota Mumbai-Moscou pode ser transposta em apenas 20 dias. Abaixo da linha, o INSTC vai se fundir com o BRI – como nos corredores ligados à rota Índia-Irã-Rússia, em uma rede de transporte global liderada pela China. Isso está acontecendo exatamente quando o Japão está olhando para a Ferrovia Transiberiana – que será atualizada ao longo da próxima década – para melhorar suas conexões com a Rússia, a China e as Coreias. O Japão é hoje um dos principais investidores na Rússia e, ao mesmo tempo, muito interessado em um acordo de paz entre as Coreias. Isso libertaria Tóquio dos enormes gastos com defesa condicionados pelas regras de Washington. Os acordos de livre comércio da União Econômica da Eurásia (EAEU) com a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) podem ser adicionados a isso. Especialmente nos últimos quatro anos, a Rússia também aprendeu a atrair investimentos e riqueza chineses, ciente de que o sistema de Pequim produz praticamente tudo e sabe como comercializar globalmente, enquanto Moscou precisa combater todos os bloqueios sonhados por Washington. * Pepe Escobar é jornalista independente, especialista em análises geopolíticas

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