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Como Yeltsin criou um déficit artificial de alimentos na URSS



Na União Soviética pré-Gorbachev as prateleiras dos mercados contavam com aproximadamente 95% de produtos nacionais (a segurança alimentar de um país é atingida a partir de 80%).

Sim, na segunda metade dos anos 1980, ervilhas, salsicha, linguiça e queijo faltavam em algumas regiões, faltava carne a preços acessíveis, até mesmo os estudantes tinham que ficar em filas. Mas era possível comprar quase tudo em feiras ou obter no mercado negro a um preço duplo-triplo. Exceto, talvez, bananas, abacaxi e outras frutas estrangeiras. Sim, houve um déficit, mas ninguém passava fome.

Mesmo em 1987, a produção de alimentos cresceu a um ritmo mais rápido do que o crescimento populacional e salarial. O aumento na produção, em comparação com o ano de 1980 na indústria da carne foi de 135%, manteiga queijo – 131%, na pesca – 132%, a moagem – 123%.

Todas as empresas da indústria alimentícia trabalhavam em plena capacidade e sem interrupções. Mas, no final de 1988, mesmo em Moscou, onde moradores de cidades vizinhas e pessoas em viagem "pegavam" tudo que podiam achar e que não tinha em suas regiões, apareceram os famosos cupons. (durante a crise de abastecimento os alimentos eram distribuídos com base em cupons). Logo se tornou quase impossível comprar alguma coisa. As pessoas ficavam de plantão nas filas por dias, organizando chamadas a cada três horas. Quase ocorriam brigas, as pessoas estavam perplexas: onde estavam os produtos, não só alimentícios?

O déficit foi criado artificialmente, e não no estágio de produção, mas na esfera da distribuição. E a melhor prova: em primeiro de janeiro de 1992, o ano começou com a "terapia de choque" de Gaidar (Yegor Timurovitch Gaidar foi um economista e político neoliberal soviético e russo. Foi primeiro-ministro da Rússia de 15 de junho de 1992 a 14 de dezembro de 1992) e em 02 de janeiro as prateleiras de supermercados já estavam preenchidas. Porém, os produtos subiam de preço, por vezes, mais de 30%. Foi um golpe no orçamento das famílias. Se, antes do "tratamento de choque" com 10 rublos, por exemplo, você poderia comprar pão, leite, ovos e legumes, depois, com esses mesmos 10 rublos era possível comprar apenas um único pão.

Existe um documento, a apresentação do futuro primeiro prefeito de Moscou, Gavriil Popov, no grupo inter-regional, onde ele disse que era necessário criar uma situação em que os alimentos e produtos fossem vendidos de maneira muito limitada por cupons, - Yuri Prokofyev, primeiro secretário do Comité do Partido Comunista Soviético da Cidade Moscou 1989-1991 disse: “Despertar a indignação dos trabalhadores e promover suas ações contra o regime soviético".

Yuri Luzhkov, o então "nachprod" de Moscou, explicou as interrupções que começaram da seguinte forma: "poderíamos colocar muito mais carne em Moscou de maneira a atender plenamente toda a demanda, mas a falta containers refrigerados não permite.”

Desta mesma forma, através da sabotagens burocráticas, os liberais criaram artificialmente escassez em Petrogrado para a derrubada de Nicolau II em fevereiro de 1917. Em Moscou, no fim do período soviético foram criados comitês para combater a sabotagem.

Estudantes voluntários ingênuos saiam para descarregar os vagões que chegavam ás regiões abarrotados de alimentos e que ficavam parados por motivos burocráticos, os chefes das estações não autorizavam o desembarque. Com a missão de leva-los até os fábricas de processamento e centros de distribuição nas cidades os estudantes faziam o trabalho que os burocratas tentavam impedir, o que eles não sabiam era que os diretores das fábricas, destino dos alimentos, já tinham se tornado uma nova classe emergente que não estava interessada na continuidade do sistema soviético, almejando o caos para apressar a morte da URSS, esses diretores, que mais tarde viriam a se tornar parte da atual oligarquia russa, estocavam os produtos e impediam sua distribuição nas cidades.

Outro exemplo da sabotagem burocrática foi dirigida diretamente por Boris Yeltsin. Em um único dia, ordenou que 26 das 28 fábricas de tabaco da URSS entrassem em reforma, imediatamente os cigarros desapareceram de todo o país.

Em 1990, Gorbachev compeliu os países do Conselho de Ajuda Econômica Mutua (Polônia, Romênia, Hungria, Checoslováquia, Bulgária e URSS) a decidir que o comércio seria realizado apenas em dólares. Os países do Conselho não tinham dólares. O FMI e o Banco Mundial entraram em cena. Tendo criado demanda por dinheiro americano, Gorbachev privou seu país dos mercados internacionais e receitas e transferiu o controle sobre toda a zona de influência soviética para os Estados Unidos. O que imediatamente afetou o mercado de alimentos. A burguesia recém surgida começou a levar tudo dos armazéns ,de manteiga, peixe e carne, a cereais, leite condensado, açúcar e frutas secas. Tudo era redirecionado para o mercado externo pois o monopólio estatal do mercado externo já não existia mais.

Em 26 de dezembro de 1991, apareceu a lei "Medidas Urgentes para Implementar a Reforma Agrária na República Socialista Soviética da Rússia". Foi marco da descoletivização em massa e forçada da terra e o plantio do capitalismo no campo russo.

#Gorbachev #Perestroika #Economia

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