• Equipe Sputnik Consulting

Derivativos: o petróleo a preços negativos


Na penúltima segunda-feira de abril um fenômeno extremamente inusitado ganhou espaço nas mídias sociais e jornais especializados: na esteira da crise causada pela pandemia do novo coronavírus, pela primeira vez na história americana barris de petróleo de tipo WTI foram negociados a preços negativos. Um fenômeno que é tomado como uma representação da “inversão dos riscos entre os jogadores”. Mas o que significa isso exatamente? Como foi possível? Para explicá-lo de forma satisfatória, faz-se necessário elencar alguns pontos muito importantes. Em primeiro lugar, é indispensável ter em mente que não foram propriamente os preços do barril que atingiram níveis negativos; os contratos a termo do produto é que, por seu turno, atingiram esse patamar. Os contratos a termo ou futuros, como são chamados nas bolsas de valores, representam modalidades de contrato entre duas partes, pelas quais se acordam antecipadamente os detalhes da compra que será realizada numa data futura. Por este mecanismo, por exemplo, um produtor de café, soja (ou petróleo), receoso das variações nos preços à vista da mercadoria que podem lhe acometer no futuro e que são imprevisíveis, emite um contrato no qual se compromete a vender e entregar o bem produzido em determinada quantidade, preço, qualidade e local numa data futura e previamente combinada. Tais prazos de vencimento podem variar, partindo desde poucos dias até mesmo meses ou anos. O comprador de tal contrato, por sua vez, responsabiliza-se pela obrigação de comprar o produto na data firmada pelo preço previamente negociado, reservando a si, portanto, o direito de recebê-lo de acordo com os detalhes acordados. E, como em qualquer mercado de valores, os contratos são negociados e podem ser trocados de comprador em comprador até a data de seu vencimento (também chamado de liquidação, quando o comprador e o vendedor efetuam por fim a compra nos detalhes firmados tempos antes). Tal espécie de ativo, conhecido também como derivativo, é, portanto, empregado com vistas a reduzir os riscos de uma determinada atividade econômica, uma vez que, ao permitir a compra futura de um bem a um preço previamente combinado, reduz as possibilidades de perda, por parte do emissor e vendedor inicial do contrato futuro, com uma eventual queda futura nos preços em mercado à vista. Por seu turno, os compradores, em função de dados concretos do momento e previsões, “compram” o risco subjacente a uma determinada atividade com a expectativa de que, no futuro, os preços à vista do produto sejam praticados em níveis acima do que encontra-se em vigor nos contratos adquiridos. Em segundo lugar, a grave retração econômica global provocada pela pandemia do novo coronavírus causou uma forte e rápida contração no consumo global de petróleo e de outros bens derivados.

Indústrias e outras empresas antes acostumadas a permanecer pouco tempo com o combustível fóssil em seus estoques viram-se diante da situação na qual os custos de armazenagem dos barris que passaram a se avolumar em seus depósitos superaram tanto as receitas advindas com a venda dos produtos finais quanto os possíveis lucros advindos com a compra de barris a preços historicamente baixos. Conforme as leis de oferta e demanda, mantidos praticamente estáveis os níveis de produção de petróleo, por um lado, e duramente reduzida, por outro, sua procura, o que se observou foi uma queda acentuada e persistente nos seus preços à vista e a termo. Associada ainda aos custos crescentes de armazenagem de barris que “emperraram” nos estoques, o que se viu verdadeiramente foi uma corrida para se desfazer a qualquer preço dado dos contratos futuros a medida que seu dia de liquidação se aproximava. Desesperados, os portadores dos contratos futuros com vencimento em 20 de abril, interessados em se livrar deles, tiveram a necessidade de ofertá-los no mercado acompanhados de uma “indenização” que pudesse cobrir os custos dos compradores com os novos barris que seriam adquiridos, pois, do contrário, não encontrariam quem se dispusesse a lhes “comprar” o ativo. Por conseguinte, no dia de liquidação desses contratos seus preços haviam alcançado o patamar negativo pela primeira vez em sua história. A forte e veloz contração na demanda por petróleo WTF fez com que os vendedores do contrato futuro se vissem obrigados a assumir de forma financeira os riscos que incorreriam os compradores ao adquirir quantidades adicionais de barris em seus estoques, comprados por um preço acima daqueles praticados no mercado à vista.

Desta forma, de um modo extremamente inusitado, o novo coronavírus foi capaz de inverter as relações de tomada de risco e custo nos voláteis mercados de derivativo - e, a julgar pelas condições econômicas globais, é de se esperar que tomem corpo, para nosso espanto, outros fenômenos tão ilustrativos da relação entre riscos e preços.


S O B R E O A U T O R

Filósofo formado pela USP-SP, Deniz Cabrerizo desenvolve estudos de conjuntura econômica para Sputnik Commercial & Consulting, em sua coluna aborda conjuntura econômica, política, filosofia e literatura.

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