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Rússia, futebol e revolução



Mais forte, mais alto, mais forte.

Assim como em boa parte dos países que iniciaram suas práticas no Século XIX, o futebol foi introduzido na Rússia pelos britânicos. O intercâmbio se deu a partir dos portos e, não à toa, Petrogrado (atual São Petersburgo) foi o primeiro pólo do esporte no país, pouco antes de Moscou. Curiosamente, o desenvolvimento da modalidade entre os russos deu-se de maneira parecida com o ocorrido na Grã-Bretanha: boa parte dos times era formada por trabalhadores urbanos, enquanto outros times tinham suas raízes estrangeiras.

O ano de 1892 é colocado como marco do futebol na Rússia e, em 1894, foi fundada a primeira equipe. Entretanto, é consenso entre os historiadores que a popularização só passou a ganhar força na década de 1910, quando o esporte passou a ser mais bem organizado e a associação nacional filiou-se à Fifa. Em seu livro Sport in the USSR: Physical Culture, Visual Culture, Mike O’Mahony fala sobre a amplitude desse crescimento.

“Nessa época, a popularidade do futebol certamente excedeu a de qualquer outro esporte em termos de participantes e também de espectadores, era o mais disseminado de todos os esportes. O diplomata britânico Robert Bruce Lockhart, que jogou pelo time do Moscou Morozovsy, reporta que ‘em uma partida da liga, a média de público está entre 12 mil pessoas e as mulheres contribuem com 30% do total’”, escreve O’Mahony.

Em 1914, oito mil praticantes de futebol eram registrados em todo o Império Russo. Representava uma parcela pequena da população, em um país de áreas urbanas reduzidas, por conta da industrialização tardia. Mais importante, no entanto, é o perfil dos praticantes que, de certa maneira, se alinhava com o de uma parcela importante daqueles que realizariam a revolução, anos depois. Jovens, trabalhadores urbanos e crescidos em Moscou, cidade que vivia o boom do esporte.

“A maior parte dos jogadores de futebol da classe baixa em Moscou era nascida na cidade ou chegaram lá na infância, esse fato por si não os torna revolucionários. No entanto, é importante lembrar que esse proletariado que tomou parte nos esportes, especialmente no futebol, havia cortado seus laços com o regime. Se eles não eram todos militantes radicais, eram pelo menos do mesmo ambiente que produziu esses militantes”, analisa o historiador Robert Edelman, em seu livro ‘A Small Way of Saying No’.

Assim, acabou-se constituindo um nicho perfeito para a expansão do futebol depois da estabilização da revolução. Algo percebido pelo estado, que passou a desenvolver mecanismos para aproveitar a mobilização gerada pela modalidade.

Ferramenta do estado, válvula de escape da população

Em 1917, a revolução estourou na Rússia. O processo de tomada do poder foi gradual, com fases distintas, até que a União Soviética tomasse forma e absorvesse as diferentes repúblicas em 1922. Neste contexto, o esporte já era utilizado pelo comunismo como método de direcionar a população à educação física e, em certa medida, à preparação militar. Em 1920, os bolcheviques promoveram o Festival da Cultura Física, dentro do Congresso da Terceira Internacional. O futebol, por sua vez, foi aproveitado para interação e entretenimento, com um jogo festivo ao final do evento, entre os delegados russos e os estrangeiros – com direito a John Reed, autor do clássico ‘Dez dias que abalaram o mundo’, defendendo o gol do time internacional.

Segundo Gilberto Agostino, autor de Vencer ou Morrer: Futebol, Geopolítica e Identidade Nacional, o governo soviético incorporou o futebol em suas políticas: “Durante os grandes desafios lançados por Lenin – a consolidação da União Soviética e a NEP –, o futebol assumiu posições contrastantes no país. Se por um lado foi encarado como um desvio burguês, permissivo devido às perigosas tendências em torno do individualismo e profissionalismo, por outro, foi um artifício importante no sentido de fortalecer as relações de ‘boa vizinhança’ entre o governo bolchevique e os países mais próximos, principalmente através de equipes formadas por sovietes”.

A mesma linha de pensamento é compartilhada pelo historiador James Riordan, entrando nos méritos econômicos do projeto liderado por Lenin. Interessantemente, o culto aos heróis é relacionado como um dos motivos que serviram de trampolim às práticas esportivas na recém-formada União Soviética: “As implicações dos processos econômicos e políticos (rápida industrialização, coletivização da agricultura e ditadura política) do final dos anos 1920 e do início do anos 1930 foram extremamente importantes para o movimento esportivo, para isso é que os modelos de organização esportiva soviética foi formada – com entidades nacionais, escolas de esportes, programa nacional de educação física e rankings uniformizados para modalidades individuais. A nova sociedade viu o florescimento de todas as maneiras de esportes competitivos com apelo junto ao público, campeonatos e culto aos heróis. Todos eram designados a providenciar recreação e diversão à população urbana que crescia rapidamente”.

Entre as medidas relacionadas ao futebol esteve a utilização da seleção soviética para relações internacionais. A equipe, formada em 1911, sequer figurou nas competições internacionais, com raros amistosos disputados até a década de 1952. Ela tinha basicamente o intuito de estreitar os laços diplomáticos com a Turquia, aliada política e vivendo transformações profundas. De 1924 a 1935, foram 15 partidas contra os turcos. Como se não bastasse a quantidade, ainda há relatos de que alguns jogos foram armados a favor dos turcos para ressaltar o orgulho nacional no país recém-formado. O projeto estatal mais marcante, porém, foi relacionado aos clubes do país.

O futebol de clubes a serviço da nova potência


Time do Lokomotiv

Ainda que primitiva, a estrutura do futebol de clubes já estava constituída nos territórios soviéticos quando a revolução começou a acontecer. Com a formação do novo estado em 1922, o poder central só precisou se apoderar desse mecanismo para utilizá-lo da maneira como bem entendesse, atendendo a seus interesses. De início, nomes e símbolos das equipes foram alterados a fim de colocar em evidência as organizações do país. O primeiro desses times foi o Orekhovo, criado por dois ingleses operários do setor têxtil. Por obra do chefe da polícia secreta soviética, em 1923 o clube passou a se chamar Dinamo Moscou e a ser financiado pelo Ministério do Interior. Na esteira, vários outros “Dinamo” surgiram em cidades importantes do país, como Kiev, Minsk e Tbilisi.

O projeto de estatização das equipes foi contínuo durante a década de 1920. O CSKA era fomentado pelo exército, enquanto o Lokomotiv tinha o apoio dos ferroviários. Spartak, Torpedo, Zenit e Krylya Sovetov representavam as indústrias de alimentação, automóveis, eletricidade e aviões. O próprio fim da classe dominante facilitou essa apropriação dos clubes sem maiores resistências. Dentro dessa visão é que o desenvolvimento levou à criação do Campeonato Soviético, em 1936. Até então, havia um torneio nacional esparso, em um modelo parecido com o que ocorria no Brasil, disputado por representantes regionais. A Liga Suprema veio para alimentar a estrutura formada, com um torneio competitivo e que mobilizasse os principais times. Durante os primeiros anos, se concentrou principalmente em Moscou, mas logo se expandiria para as demais repúblicas, em processo importante também às identidades locais.

Originalmente publicado em: http://m.trivela.uol.com.br/

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