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LITERATURA RUSSA: Oniéguin, vítima de seu veneno



O romance em versos Ievgueni Onieguin deu tanto trabalho a Pushkin, que ele se dispôs a fazer as contas: entre 9 de maio de 1823 e 25 de maio 1830, a empreitada levou “sete anos, quatro meses e 17 dias”. E, na verdade, foi um pouco mais. Porque em 5 de outubro de 1831, o poeta redigiu a carta de Oniéguin a Tatiana, incluída no oitavo capítulo do romance.

Nascido na cosmopolita e ocidentalizada São Petersburgo, Oniéguin, o protagonista, é um dandy (costuma-se chamar “dandy” aquele homem de bom gosto e fantástico senso estético, mas que não necessariamente pertencia à nobreza), frequentador de teatros e salões, contudo, o “mal do século”: a Khandra, equivalente russo do spleen (em francês, o termo spleen representa o estado de tristeza pensativa ou melancolia associado ao poeta Charles Baudelaire) que atormentava a juventude do romantismo.

E se transfere para a propriedade rural herdada de um tio. Lá, com 26 anos de idade, conhece Lenski, poeta de temperamento forte. Com 18 anos, e fã dos autores germânicos, o jovem literato corteja Olga Larina. Lenski leva Oniéguin a visitar a casa de sua amada. Com Olga ele não se impressiona, mas presta atenção em sua irmã, a introspectiva Tatiana. A alma sonhadora de Tatiana se inflama em contato com Onieguin; a paixão se cristaliza em uma longa carta. Oniéguin se comove com o amor de Tatiana. Porém, diz à moça que não foi feito para a vida conjugal. O fato permanece em segredo, e Lenski, inconsciente do que ocorreu, consegue convencer o amigo a ir a uma festa na casa de Tatiana. O desconforto da garota com a presença do amado é evidente, e este resolve se vingar do poeta por fazê-lo passar por tamanho constrangimento, cortejando Olga. Ofendido, Lenski se retira da festa e, posteriormente, desafia Oniéguin para um duelo. Este aceita, e no embate, acaba matando seu amigo. Oniéguin parte em viagem. De volta, encontra em São Petersburgo uma beldade de rara beleza, casada com um oficial russo. É Tatiana, que metamorfoseada em uma mulher adulta desperta em Oniéguin a mais ardente das paixões. Chega, então, a vez de o personagem-título do romance cortejá-la insistentemente, e escrever também sua carta. No final, é a vez de Tatiana, mesmo se confessando apaixonada por Oniéguin, rejeitá-lo, decidindo permanecer fiel a seu marido.

Estilisticamente, Pushkin suscitou díspares juízos de valor sobre Oniéguin, ressaltando a caracterização oscilante, que evoca a noção de uma individualidade especial, complexa, irrepetível, que Dostoiéviski caracterizaria como da seguinte forma: “Pushkin levou consigo para o túmulo um profundo mistério que doravante nós tentamos decifrar sem ele”.

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