• Equipe Sputnik Consulting

O nacional desenvolvimentismo, o método marxista e o Brasil hoje


Há 148 anos atrás nascia Vladmir Lenin, a figura mais influente do século XX.

É imprescindível para um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento o desapego dos automatismos de linguagem e voluntarismo estéril.


Uma nação tem papel importante no mundo, não somente pela sua unidade, sua soberania, seu povo, e/ou sua história, mas também pela capacidade de planejar seu desenvolvimento, de programar estratégias de progresso e de obter um processo tecnológico.

Como sabemos historicamente, as mudanças que já ocorreram no país não foram por substituição de classes por outras, mas por mudanças de atitude e dissidências no seio das próprias classes dominantes, perdendo características conservadoras e ganhando elementos progressistas, sem apagar o caráter burguês. É por isso a necessidade angular de uma opção consciente por um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento (NPND) baseado em parâmetros científicos, para conhecermos nossa dinâmica interna e sem muletas teóricas de outras formações econômicas e sociais. Trata-se de almejar uma mudança de maior envergadura, como a Independência, a Abolição/República e a Revolução de 1930.

Como Vigotsky demonstra, o ser humano não nasce pronto; um NPND também não é feito da noite para o dia, exige um processo de lapidação crítica, incorporação de conteúdo e um viés progressista. É necessária vasta discussão e elaboração teórica, investigação rigorosa do real concreto, infatigabilidade do debate de ideias quebrando cânones enrugados. É preciso ir além da aparência, que é de fácil sedução, ir à etiologia, na essência. Deve romper-se com os arraigados vícios ideológicos, com os preconceitos do senso comum, não flertar com a vaidade e nunca abandonar ideias genuínas. O grande sistema de investigação que deve dar o pontapé inicial ao NPND é o marxismo-leninismo científico, por carregar em si o materialismo histórico dialético, que, para Althusser, não vai acima das ciências, pois é a própria teoria da prática científica.

O marxismo-leninismo é uma posição política, uma posição científica da realidade, o mais alto rigor científico da verdade. Nesse sentido, refuta-se o popperianismo romantizado pelos tubos de ensaios, as matematizações ideais abstratas que fogem do real, ou o dependentismo gerado por fantasmas que se “envergonhavam” por terem nascido no terceiro mundo. O marxismo-leninismo científico pode ser um instrumento letal para romper com os ranços tradicionais do passado, além de ajudar a compreender a formação econômica e social complexa brasileira. Serve também, como último recurso teórico, para se libertar dos “mitos da onisciência divina ou das profanas religiões dogmáticas” de nossos planejadores, intelectuais e políticos.

Hoje em dia se lê por aí que “o marxismo-leninismo representa o sentimento e o sofrimento dos trabalhadores”, “o marxismo-leninismo é feito por meio de uma forte disciplina interna, está preparado para todas as formas de luta”, “o marxismo-leninismo é concepção de aliança da classe operária com o campesinato”, etc. Alguns divagam no “leninismo contemporâneo” recheado de adjetivações, tão comum nessa fase crítica da pseudo pós-modernidade. Outros usam o marxismo-leninismo do Que Fazer? e de Esquerdismo, doença infantil do comunismo. Isso explica alguma coisa no real?

Gostaríamos de entender o porquê se resiste a encarar a obra de maior fôlego de Lênin: Desenvolvimento do Capitalismo na Rússia? Por que se tem medo de interpretar a realidade concreta? Por que perdemos tempo em querer transplantar o que Álvaro Cunhal e Gramsci escreveram sobre seus países para o Brasil? Isso não passa de marxismo-leninismo de pires. Só através do conhecimento real de nossa formação econômica e social (Brasil) teremos condições de traçar estratégia e tática para o NPND; sem isso, apenas emascularemos o marxismo-leninismo científico.

Ora! Na atual ordem das coisas, nada mais fácil do que abandonar a análise de economia política, em consequência do fascínio academicista em moda. Atualmente, a receita é tatear outras explicações ecléticas para os fenômenos, parecendo o weberianismo mais simples. Entendamos que em ultima instância o econômico, sempre! Em ultima instância o marxismo – leninismo é a ciência.

Marxismo-leninismo científico não é realidade virtual como, por exemplo, os pequenos agricultores, os sem terras e uma maioria que sai em defesa da reforma agrária distribuidora de microlotes. Estes estão lastreados na pequena propriedade privada da terra, artifício utilizado pela burguesia no século XVIII. Nada mais falso do que essa pretensa argumentação. Assim como a defesa do cooperativismo e do solidarismo, ambos os aspectos utilizados para acabar com os restos feudais. Cooperativa não supera o capitalismo, muito pelo contrário, ela serve para acabar com zonas atrasadas ao capital, e isso que vale?

O marxismo-leninismo científico é saber que o campesinato deixa de existir, se destrói e é substituído por novos tipos de estabelecimentos rurais (agronegócios), que constituem a base de uma sociedade dominada pela grande produção capitalista. O marxismo-leninismo científico não é a defesa irresponsável da quase santa “agricultura familiar”, em que se colocam lado a lado os pequenos produtores, baseada na mais-valia absoluta (alta concentração de mão-de-obra, jornadas de trabalho de até 18 horas por dia, baixa produtividade e etc.) com a empresa familiar, fornecedora, e com especialização tecnológica subordinada às grandes empresas.

O marxismo-leninismo científico é aquele que estuda a circulação ampliada do capital na agricultura, é aquele que estuda as engenharias financeiras e as políticas de crédito da produção do campo dos pequenos, médios e grandes produtores. Para isso utilizam-se como aporte as cooperativas capitalizadas, mas não tendo nelas o alardeado neo-socialismo. O que dizer das cooperativas capitalizadas do Oeste de Santa Catarina, que dinamizaram a vida rural arcaica e que hoje compõem grandes cotas exportadoras do país?

Basta analisar a pujança das pequenas produções mercantis, que carregavam o germe da melhoria de vida ao camponês, o qual hoje está apto para entender e lutar contra as contradições do capital. Marxismo-leninismo para o NPND deve levar em consideração as dinâmicas diferenciais de desenvolvimento das áreas de latifúndio e da pequena produção. Entender que ambas transitam ao capitalismo e carregam o germe do desenvolvimento, superando a miséria e gerando uma estrutura dinâmica, com uma classe possivelmente progressista na nação. Trata-se da superação do trabalho braçal familiar intensivo, da “domesticação” e racionalização da natureza, da compreensão do movimento da burguesia e de sua técnica de dominação, para compor na prática o planejamento voltado para o Brasil.

No Maranhão, por exemplo, o marxismo-leninismo científico não é o anti-sarneysismo, um simbolismo da incompreensão da origem das relações sociais de produção e da formação econômica e social. O mainstream político e acadêmico fala abertamente que isso se reduz o antagonismo de classe no Maranhão e que essa é a tradição. O marxismo-leninismo científico é saber a gênese e o desenvolvimento de ocupação do estado para entender o caráter progressista dos agronegócios do Sul do Maranhão, que representará o fim das reminiscências feudais e da oligarquia retrógrada. É saber como a Balaiada (levantamento de cafuzos, crioulos, mulatos e pretos, de vaqueiros e agricultores, de escravos fugidos e soldados desertores, de bandidos e vagabundos, sem uma figura maior que os chefiasse, sem um único elemento do clero, da nobreza, da burguesia, da oficialidade de linha, da magistratura, do funcionalismo, à sua frente), a República de Pastos Bons e a Revolta de Bequimão ajudaram nas raízes do nacionalismo brasileiro e no caráter revolucionário da industrialização de Getúlio Vargas.

O marxismo-leninismo científico é estudar a pequena produção mercantil, a dinamicidade de nossa industrialização, para saber como nosso desenvolvimento econômico nacional foi dependente máximo de substituição de importações. É entender como de “cada volta do parafuso”, pouco a pouco se construiu nosso poderoso departamento I da economia. É estudar como que nas fases A (fases expansivas) do ciclo longo (ciclos de Kondratiev), o país e sua economia rompiam com o relativo atraso perante o centro dinâmico do capitalismo. Além de entender que, devido a nossa produção ser voltada para as exportações, nas fases B (depressivas), em consequência da crise de demanda pelo centro dinâmico, houve a obrigação de se fazer força com a substituição de importações, o que representou crescimento na crise. Assim, historicamente, nossa industrialização segue, e no meio dessa característica, os serviços de utilidade pública (infraestrutura urbana, transportes, energia, etc.) aparecem hoje como os possíveis motores da base produtiva e da assimilação tecnológica. Pois, como dizia Marx, nenhuma produção é possível sem trabalho passado e acumulado.

O marxismo-leninismo científico não é ser contra as concessões de serviços de utilidade pública para empresas privadas, sem saber a origem desses serviços e o porquê do estrangulamento: o esgotamento da capacidade de endividamento do país. O leilão de Libra, por exemplo, foi uma gigantesca oportunidade de investimentos e pode representar assimilação técnica sem precedente para o país, além da articulação estratégica com o centro dinâmico do capitalismo e com o centro dinâmico do comunismo. O marxismo-leninismo científico quer saber como, atualmente, os serviços e a incorporação de tecnologia são os pontos de estrangulamento de nossa economia.

É mister no Brasil concessões dos serviços de utilidade pública a empresas privadas, pois esses setores (portos, estradas, ferrovias, aeroportos, linhas de metrô, transporte coletivo, nas cidades) são sub investidos e acarretam prejuízo de montante a jusante de todos os setores produtivos, e as consequências são os estrangulamentos. Essas concessões devem ser lincadas com uma política macroeconômica desenvolvimentista, que favoreça um efeito multiplicador em todos os setores da economia brasileira. Favorecerão, em última instância, a geração de emprego nas indústrias de bens de capital e, consequentemente, nas de bens de consumo, resultando no maior poder de compra da classe dos trabalhadores como um todo.

Por fim, o NPND lastreado no marxismo-leninismo científico é conceder parques e praças (de árvores podres, velhas e feias) das grandes e médias cidades à iniciativa privada para construção de estacionamentos subterrâneos e em cima refazer um paisagismo moderno e sofisticado à la Burle Marx (RANGEL, 1987). É pensar grande, é estudar com largueza para não sermos profetas de panaceia anticientífica, antiprogressista, antinacional e antipopular.

É imprescindível para um NPND o desapego dos automatismos de linguagem e voluntarismo estéril. Sabe-se que o hábito não basta para fazer o monge. Ignácio Rangel foi um dos poucos que não temeu a infungibilidade do marxismo-leninismo científico, pois não teve medo do cadafalso da história e desvendou, no seu tempo, esse organismo vivo chamado Brasil (a dualidade básica da economia brasileira, a inflação brasileira, a questão agrária, a capacidade ociosa, etc.).

Como disse Danton a caminho do cadafalso “é melhor ser guilhotinado do que guilhotinar”. Quem estará disposto à enfrentar a infungibilidade do marxismo-leninismo científico, uma vez que a história é implacável no encalço do progresso?

O artigo foi originalmente publicado em: http://passapalavra.info/2014/01/90830

Os autores são, respectivamente, geógrafo pele UFMA e geógrafo e mestre pela UFSC.

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