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Mourão paz e amor



Jair vive o paradoxo de representar os militares e não representá-los. Embora carregue a bandeira do Exército durante toda a sua carreira, nunca comungou de prestígio entre a liderança como, aliás, nunca ocorreu em nenhuma área de atuação até a posse presidencial. Jair sempre foi considerado do baixo clero da câmara, como são conhecidos os deputados patrimonialistas, mais ligados aos interesses pessoais do que a grandes pautas nacionais. Não à toa emplacou 3 filhos na política. Não à toa a pecha de baixo clero seja tão condizente com a possível conduta de Flávio, o primeiro filho, chefe de um assessor acusado de efetuar um "recolhe", um "pedágio" do salário dos servidores da Alerj.

Como fica claro no excelente texto da jornalista Eliane Brum ao El País, Jair é o homem comum, o homem mediano. Não entendam comum como simples, modesto. Entendam comum como sem graça. Fernando Henrique Cardoso faz parte de uma elite intelectual do país, sociólogo, fundador do PSDB. Lula é uma excentricidade total, o retirante nordestino que virou líder sindical em São Paulo, fundou um partido e virou presidente do país por duas vezes. FHC e Lula são diferentes, mas ambos são incomuns. Jair está no centro da distribuição normal da população.

Lembremos que Jair iniciou a sua ascensão nacional servindo de escada para o CQC, da Band. Declarações polêmicas serviam para o parlamentar garantir ainda mais - como se 27 anos na câmara não bastassem - o seu reduto eleitoral carioca e convinham para o programa ter o que de cômico mostrar nos bastidores do congresso. Com a mudança de ideologia da população e outras conjunturas que merecem análise e reflexão em outro texto, o nome de Jair despontou como o da mudança - como se 27 anos na câmara não contassem - e da honestidade - como se 11 anos no PP de Paulo Maluf não importassem - .

Os militares, que tentam limpar a própria barra há 30 anos, não escolheram Jair. Engoliram-no. Um militar de desempenho acadêmico normal, rebelde e questionador, que foi para a reserva após ser inocentado da acusação de fabricar bombas para explodir banheiros no Exército em protestos contra a baixa remuneração. Esse fato, que rendeu até reportagem da revista Veja, ajudou Jair a ganhar certa notoriedade e ingressar no legislativo carioca.

Jair é para os militares o ticket de entrada para uma festa bacana que não iam desde os anos 80.

General Mourão. Esse sim de carreira militar extensa e com prestígio no Exército. A escolha de Mourão, por si só, já denota a fragilidade de Bolsonaro entre os seus. O hoje vice-presidente da República foi instrutor da Academia Militar dos Agulhas Negras, onde Jair se formou. Foi também adido militar na Venezuela e cumpriu missão de paz em Angola. Liderou o Comando Militar do Sul, comandou divisões e se reformou no posto de secretário de Economia e Finanças do Comando do Exército. Mourão é filho de militar e ingressou no Exército em 1972.

Guiados por estereótipos podemos imaginar que Mourão apenas reforçaria a posição de extrema direita adotada no discurso de Jair. Porque vemos, então, opiniões mais sensatas do general frente ao capitão? Seria Mourão um infiltrado progressista no alto escalão do Exército Brasileiro?

Mourão aprendeu, após algumas caneladas, que não se fala tudo o que se pensa. Antes de cogitar ser político teceu elogios ao ex-comandante do DOI-Codi, Brilhante Ustra, chamando-o de herói. Criticou abertamente a presidente Dilma Rousseff, comentário incomum para militares. Disse que o Exército deveria garantir - "impor" foi a expressão utilizada - a retirada da vida pública de pessoas envolvidas com ilícitos, caso o Poder Judiciário não o fizesse.

Após se tornar candidato Mourão continuou a distribuir declarações extremadas. Disse que famílias sem homens se tornam uma "fábrica de desajustados". Apontou ao próprio neto, mais claro que ele, e elogiou o branqueamento da raça em sua família. Cogitou uma nova constituição escrita por notáveis e, finalmente, disse que o décimo terceiro era uma "jabuticaba brasileira" que não deveria existir.

A eleição pode não ter mudado o homem, mas fez bem ao político. Mourão desde o primeiro dia do mês de janeiro sempre se coloca um pouco à esquerda de Jair. Lembremos que "um pouco à esquerda" de Jair ainda assim significa muito distante do centro. Mourão condenou a necessidade do exílio de Jean Wyllys, atestando que o fato foi um crime contra a democracia, descartou qualquer intervenção militar na Venezuela e contrariou Jair ao dizer que a embaixada brasileira em Israel permanecerá em Tel-Aviv. O general é o interlocutor preferido dos empresários, já que se mostra sensato. Dialogou com árabes para contornar a crise criada pelo presidente, exaltou parcerias com chineses e vizinhos latinos e, como últimas amostras de discernimento, declarou que a ida de Lula ao enterro de seu irmão é uma questão humanitária, além de ser a favor de que, pasmem, a mulher decida sobre o aborto. Dialogar com os opositores ideológicos, abrandar o discurso e fazer concessões parece ser a trilha escolhida pelo vice-presidente e já vimos isso com Lulinha paz e amor.

Ponto crucial na estratégia de Mourão é o tratamento dispensado à imprensa. Enquanto o chefe escolhe veículos para exclusivas o subordinado tuita: "Quero agradecer a atenção e cumprimentar pela dedicação, entusiasmo e espírito profissional a todos os jornalistas que me recebem na minha chegada e de mim se despedem quando deixo o anexo da Vice-presidência. Boas matérias a todos!". A imprensa de Jair é formada por Record, SBT e meia dúzia de blogueiros. Esses tiveram acesso VIP à posse, enquanto a gentalha se espremia, era revistada, não tinha acesso a banheiro, água e comida. O Trump dos trópicos decidiu que governará com Edir Macedo, Sílvio Santos e o Twitter.

É em meio a denúncias de enriquecimento ilícito, desvio de verbas e intimidade com a milícia contra familiares de Jair que cresce a figura militar inicialmente projetada pelo alto comando para habitar o Palácio do Planalto. O general em pele de cordeiro se prepara para mais uma promoção. O clã Bolsonaro já sabe que está refém. Há militares por todos os lados, nos postos mais importantes do governo e, o mais relevante, há um militar em um cargo não destituível por Jair: a vice-presidência.

O que você faz com o ticket após entrar em um show? Invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, eu jogo fora.

______________________________ Colunista Sputnik Consulting, João Gabriel Oliveira tem 34 anos, é economista formado pela Universidade de São Paulo, escreve sobre política, esportes, religião, cinema, TV e muito mais em seu blog "Dois contra o mundo"

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