• Equipe Sputnik Consulting

Notas sobre a guerra híbrida, EUA vs. Rússia-China. Os casos da Venezuela e Brasil.


Trechos selecionados e traduzidos do artigo de Pepe Escobar "Empire Of Chaos In Hybrid War Overdrive".



O que se aplica ao Heartland, claro, aplica-se também ao “quintal”.

O caso da Venezuela mostra que o cenário de “todas as opções estão na mesa” foi de fato abortado com a ação da Rússia, um resumo surpreendente foi dado em um briefing de Maria Zakharova, a porta-voz do Ministério dos Assuntos Estrangeiros, e depois detalhadamente pelo ministro dos assuntos estrangeiros Serguey Lavrov.

Em encontro com os colegas Wang Yi, da China, e Sushma Swaraj, da Índia em uma crucial reunião dos RIC (parte dos BRICS) na China, Lavrov disse: “a Rússia está observando de perto as tentativas descaradas dos EUA em criar um pretexto artificial para intervenções militares na Venezuela... A atual implementação destas ameaças é a colocação de equipamentos militares e treinamento de forças especiais americanas”.

As tentativas americanas de mudança de regime na Venezuela falharam de diversas formas:

Plano A – uma clássica revolução colorida – falhou miseravelmente, em parte por causa da falta de inteligência local.

O Plano B foi uma versão soft do “imperialismo humanitário”, com a ressuscitação do nefasto Libya-testedresponsibility to protect (R2P) (As invasões militares da Líbia e da Costa do Marfim foram justificadas por referência à doutrina da Responsabilidade de Proteger. ... O parágrafo 138 desse documento diz que cada Estado individualmente tem a responsabilidade de proteger suas populações de genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade); também falhou, especialmente quando o conto americano de que o governo venezuelano queimou os caminhões com ajuda humanitária na fronteira com a Colômbia foi exposto por ninguém menos que o New York Times.

O Plano C foi uma técnica da clássica guerra hibrida: um ataque cibernético, com um revival do Nitro Zeus (1), com o qual poderia desativar 80% da eletricidade venezuelana. Este plano foi exposto pelo WikiLeaks através de um memorando de 2010 de uma base americana em Belgrado para golpes de revolução colorida que ajudou na tentativa do autoproclamado “presidente”, um cara aleatório, então conhecido como Juan Guaidó. O memorando vazado dizia que o ataque à rede energética venezuelana “poderia ser um evento que teria um impacto galvanizador na agitação pública que nenhum grupo de oposição poderia esperar gerar”. Mas mesmo isso não foi o suficiente.

Sobrou o Plano D – que é essencialmente a tentativa de matar a população venezuelana de fome via sanções adicionais. A sancionada Síria e o sancionado Irã não colapsaram. Mesmo a miríade de elites compradoras reunidas no grupo de Lima terá que lidar com o fato de que a implantação da doutrina Monroe essencialmente para conter a China no jovem século 21 não será moleza.

Plano E – em caso extremo – seria uma ação militar dos EUA, a qual Bolton não quer tirar da mesa.

Mostre-me o caminho para o próximo jogo de guerra.

As elites locais compradoras devem ser recompensadas de forma generosa, caso contrário, você estará preso no território do pântano hibrido. Esse foi o caso no Brasil - e é por isso que o caso de guerra híbrida mais sofisticado até agora tem sido um sucesso. Em 2013, Edward Snowden e WikiLeaks revelaram como a NSA estava espionando a Petrobras e o governo de Dilma Rousseff desde 2010. Depois, um golpe complexo, judicial, comercial-político-financeiro-midiático acabou atingindo seus dois principais objetivos; em 2016, com o impeachment de Rousseff, e em 2018, com Lula preso. Agora vem indiscutivelmente a peça mais interessante do quebra-cabeça. A Petrobras deveria pagar US $ 853 milhões ao Departamento de Justiça dos EUA para não ir a julgamento por crimes dos quais estava sendo acusada nos EUA. Mas então um acordo duvidoso foi fechado, de acordo com o qual a multa seria transferida para um fundo brasileiro, enquanto a Petrobras se compromete a retransmitir informações confidenciais sobre seus negócios para o governo dos Estados Unidos.

A guerra híbrida contra o membro do BRICS, Brasil, funcionou como um encanto, mas tentar contra a superpotência nuclear russa é um jogo completamente diferente. Analistas americanos até acusam a própria Rússia de implementar uma guerra híbrida - um conceito realmente inventado nos EUA dentro de um contexto de contraterrorismo; aplicado durante a ocupação do Iraque e posteriormente espalhado através do espectro das revoluções coloridas; e apresentando, entre outros, um artigo co-escrito pelo ex-chefe do Pentágono James “Mad Dog” Mattis em 2005, quando ele era um mero tenente-general. Em uma recente conferência sobre a estratégia militar da Rússia, o chefe do Estado-Maior general Valery Gerasimov enfatizou que as forças armadas russas devem aumentar tanto o seu potencial "clássico" quanto o "assimétrico". Nos EUA, isso é interpretado como técnicas de guerra híbrida de subversão/propaganda, aplicadas na Ucrânia e no amplamente desmascarado "Rússia Gate". Em vez disso, os estrategistas russos se referem a essas técnicas como “abordagem complexa” e “guerra de nova geração”. A RAND Corporation (2) de Santa Mônica ainda mantém bons cenários de guerra. Eles têm realizado simulações de jogos de guerra “Red on Blue” desde 1952 - modelando como as “ameaças existentes” poderiam usar estratégias assimétricas. O último Red on Blue não foi exatamente bom. David Ochmanek, analista da RAND, disse que, com o Blue representando o atual potencial militar norte-americano e a Red representando a Rússia-China em uma guerra convencional, “Blue gets its ass handed to it.”. Nada disso convencerá Joseph Hunford, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, que recentemente disse a um Comitê de Serviços Armados do Senado que o Pentágono continuará a recusar a estratégia nuclear "no first use". Realmente há nos EUA quem acredite que os EUA podem iniciar uma guerra nuclear e se safar.


(1) O Nitro Zeus é o nome de um projeto para um plano de ataque cibernético abrangente, financiado e criado como uma estratégia de mitigação após a campanha de malware do Stuxnet e suas conseqüências. Ao contrário do Stuxnet, que foi carregado em um sistema após a fase de projeto para afetar sua operação adequada, os objetivos do Nitro Zeus são incorporados a um sistema durante a fase de projeto, sem o conhecimento dos usuários do sistema. Esse recurso integrado permite um ataque cibernético mais seguro e eficaz contra os usuários do sistema. A informação sobre a sua existência foi levantada durante a pesquisa e entrevistas realizadas por Alex Gibney para o seu documentário Zero Days. A proposta de infiltração generalizada de longo prazo nos principais sistemas iranianos interromperia e degradaria as comunicações, a rede elétrica e outros sistemas vitais, conforme desejado pelos atacantes cibernéticos. Isso deveria ser alcançado com implantes eletrônicos nas redes de computadores iranianas. O projeto foi visto como um caminho em alternativas à guerra em escala total. Não houve necessidade deste tipo de plano depois que o Acordo Nuclear do Irã foi assinado, embora quaisquer implantes em funcionamento nos sistemas de infraestrutura SCADA críticos do Irã provavelmente não tenha sido removidos.

(2) RAND Corporation é uma instituição "think tank", sem fins lucrativos. Criado originalmente como Douglas Aircraft Company, atua como uma entidade que desenvolve pesquisas e análises para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos.


Pepe Escobar é um jornalista investigativo independente brasileiro, especialista em análises geopolíticas. No Brasil, trabalhou para os jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Gazeta Mercantil, além de ter publicado artigos na revista Carta Capital. Desde 1985 tem atuado como correspondente estrangeiro no Asia Times.

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