• Equipe Sputnik Consulting

O BRASIL E SEU PROCESSO CIVILIZATÓRIO

Atualizado: 30 de Abr de 2019



A Elevação da Cruz (1879) de Pedro Peres.

O Brasil ainda não se tornou um país civilizado, e parece que estamos decididos a retroceder nos poucos avanços que tivemos. Tanto na vida pública quanto na vida privada, o brasileiro nunca teve o humanismo e a racionalidade como valores arraigados, mas o apreço pela irracionalidade e pelo misticismo agora está dominando o debate público; enquanto a boa educação e os bons modos foram alijados de todas as instâncias de convivência. Os discursos de ódio, a confusão entre debate e rinha, a substituição do argumento pela ofensa – tudo isso muito visível no âmbito político e sobretudo no eleitoral – são sintomas da regressão civilizatória da nossa sociedade. Correndo o risco de ser petulante, afirmo que não poderia ser diferente dada a nossa história: Um país que chega ao século XXI sem ter resolvido o problema do analfabetismo, mascarado pelo aumento de jovens matriculados em escolas; um país que chega ao século XXI deixando quase um quarto de sua população sem acesso a redes de água tratada e mais da metade da população sem rede de esgoto; esse país tem um problema civilizacional. Ainda mais quando esse país é uma das maiores economias do mundo, abriga centros de excelência em pesquisa em diversas áreas e possui grandes cidades bem desenvolvidas – não obstante seus arrabaldes tenham condições opostas àquelas de suas áreas mais ricas. Nosso país sofre no século XXI com doenças do século XIX que haviam sido eliminadas no século XX e retornaram devido à falta de limpeza dos espaços públicos e particulares. Além da vergonha de moléstias que estão tal e qual estavam no século XIX sem jamais terem sido resolvidas, como a malária e diversas doenças tropicais. Imagino já ter exemplificado bem a parte material e objetiva do nosso atraso, ainda que não tenha exaurido os argumentos, e abordarei agora seu lado abstrato e subjetivo. Por ser mais premente e atual, indico que o respeito ao indivíduo e à sua dignidade é um conceito quase vazio no debate público. É interessante notar que há patrulhas do politicamente correto e patrulhas moralistas, que têm linhas políticas nominalmente opostas mas essencialmente iguais, ambas são representantes dos mais elevados valores; os primeiros detêm o monopólio da bondade e da compaixão e militam em favor dos fracos e oprimidos, os segundos detêm o monopólio da moral e da correção e militam em favor da família. Nos dois casos, qualquer defensor de idéias diferentes é visto como síntese de todos os problemas e dificuldades nacionais. Pode-se depreender que a concepção básica desses grupos é a de que a multiplicidade de propostas é nociva e a existência de grupos que as defendam não deve ser tolerada. Naturalmente há um limite para a tolerância com a intolerância; o preconceito não deve ser admitido, mas não se deve abrir mão da racionalidade nem da honestidade intelectual no debate. Quando afirmo que a irracionalidade e o misticismo estão dominando o debate público não se trata de uma hipérbole, as pessoas estão realmente agindo e reagindo sem pensar e estão acreditando em qualquer coisa que pareça alinhar-se com suas

crenças e opiniões já estabelecidas, por mais estapafúrdia, absurda e ilógica que seja. Vivemos o oposto dos tempos da antigüidade em termos de valorização da oratória e da retórica; outrora Górgias e Cícero foram referências para homens públicos e pessoas cultas comunicarem e defenderem suas idéias pela capacidade de discursar e desenvolver o raciocínio de modo a encantar e convencer o público, hoje textos na internet são apoiados em montagens e desenhos toscos, tão toscos quanto a oratória dos vídeos difundidos na internet e em serviços de mensagens. A capacidade de persuasão de um discurso depende de quão grosseiramente ele é construído e expresso e de quanto ele consegue desviar da lógica e do bom senso; se ele ofender alguém, for simples e permitir a seu receptor sentir-se importante – como confessor de um segredo ou integrante de um seleto grupo de conhecedores de uma verdade secreta que forças ocultas poderosíssimas tentam esconder ou arautos da iluminação de um mestre sapientíssimo perseguido por entidades ou organizações obscuras – então esse discurso contém a receita do sucesso. Muitos sinais da incivilidade podem ser notados na nossa sociedade: pessoas jogando lixo no chão e nos jardins públicos, adolescentes e jovens colocando os pés sobre os assentos dos transportes públicos, pessoas incapazes de pequenas gentilezas no quotidiano que usam a desculpa da falta de tempo ou do estresse para suas atitudes, e – algo especialmente repugnante – a denominação da etiqueta e do refinamento como frescuras inúteis, como uma profissão de fé na grosseria e da boçalidade. Isso tudo constitui pequenos ataques à civilidade, que não são assim percebidos no instante em que ocorrem, mas que solapam a convivência e erodem a boa educação também para o futuro, já que naturalizam esses comportamentos desagradáveis e ao mesmo tempo justificam o conforto individual em detrimento do desconforto público. No esteio disso vem o orgulho presunçoso dos que afirmam terem coragem de dizer tudo sem papas na língua, sendo na verdade apenas gente sem educação que não mede o peso das palavras; pois se podem comunicar as mesmas mensagens de maneira bem direta sem grosseria. Há uma diferença entre ser direto e ser grosseiro; e a boa educação não é necessariamente falsidade, mas obriga sim que uma pessoa cumprimente e trate respeitosamente seus desafetos – e ninguém terá uma doença por controlar a língua e não expondo seu pensamento para ofender ou magoar alguém.

A psicologia terá de nossa época um vastíssimo material para estudo, desde a psicologia de massas nas redes sociais até a possível regressão intelectual das pessoas. O viés de confirmação tem forte participação no fenômeno das notícias falsas de nossos dias – e desconfio que o mau-caratismo também tenha. Vimos o funeral do iluminismo, seu enterro está sendo o descrédito no humanismo e o achincalhe de suas instituições. As pessoas, de modo geral, deblateram valores humanistas e preferem argumentos simples, propostas vagas e soluções fáceis, ainda que erradas, a aceitar que raramente problemas complexos sejam resolvidos assim, com um passe de mágica. A democracia incomoda-os porque é complicada e seus processos não são imediatos, outrossim, esse incômodo tem se tornado desprezo não apenas pela própria

democracia, mas pelos valores civilizados, pelos direitos humanos e pelas instituições reguladoras da violência social, sejam instituições jurídicas, judiciais, parlamentares ou executivas. A turba só entende a força bruta, só respeita a força bruta e deseja a força bruta.

Destarte, defendo que precisamos retomar um projeto civilizatório para nosso país. Isso envolve, obviamente, educação, saúde, infraestrutura, tecnologia, habitação, urbanismo et caetera, mas também envolve ensinar a conviver em sociedade, ensinar a pensar, cultivar a alma e o cérebro das pessoas. Acho curioso que muita gente critique a escola de modelo prussiano, o conteudismo francês e o formalismo; foram esses elementos que fizeram progredir e evoluir todos os países que podemos ter como modelos possíveis de desenvolvimento. Uma criança tem que aprender a respeitar as normas sociais, por exemplo, não se sentar no chão onde não seja permitido, ou não pintar as paredes mesmo que a isso a mova uma pulsão artística fortíssima – nenhuma grande obra de arte foi feita por acaso, todas demandaram planejamento, assim não corremos o risco de perder um Michelângelo, um Rembrandt, Watteau ou Ingres por evitar grafitagem em locais proibidos – para que não tenhamos adultos que incomodam os outros com música alta, que jogam lixo no chão, que picham as paredes, muros e monumentos, que depredam e vandalizam. É engraçado que um jovem que acusa um velho que reclama do justo direito que cada um tem conduzir sua vida como lhe aprouver é o mesmo jovem que desrespeita todos os cidadãos ao incomodá-los com comportamentos desagradáveis, em atividades que, alega ele, são ocupação do espaço público pela sua individualidade: por seu lado o velho não tem a civilidade de guardar suas opiniões para si – que ele as tenha de determinada forma é um problema cultural ou educacional – e o jovem não a tem para considerar os outros ao agir.

Deixo aos meus estimados leitores uma sugestão: o livro O Súdito (Der Untertan), do alemão Heinrich Mann, irmão de Thomas Mann. Essa obra terminada em 1918, mas iniciada anos antes da Grande Guerra, trata da violência inata ao ser humano que pode facilmente emergir com pequenos estímulos e que, enquanto individualmente apenas crie pessoas desagradáveis, quando difundida por toda a sociedade, pode resultar em tragédias.