• Equipe Sputnik Consulting

O CENÁRIO POLÍTICO NACIONAL E SEUS NOVOS NOMES



O ambiente político resultante das eleições de 2018 é bastante interessante dos pontos de vista da ciência política, da filosofia política e da sociologia. Saindo da histeria dos derrotados e do frenesi dos vencedores, podemos notar muitas características do nosso povo e observar três personalidades que passaram ao patamar mais alto da política nacional. Curiosamente, antes mesmo de o novo governo tomar posse, a imprensa e a população esqueceram que temos um governo constituído e os trabalhos da equipe de transição eclipsaram as atividades do governo. A algaravia militante da oposição já declarou a intenção de ser contra tudo que o novo governo possa propor e trata-o como fascista; a algaravia militante da situação, ao que parece, continuará a tachar de comunista tudo o que não for extrema-direita. Embora seja compreensível e até mesmo efetivo enquanto ferramenta de controlo da militância e forma de engajar apoiadores ativos, esse é um péssimo caminho a seguir para o país. A crispação apenas aumenta, desapontando todos que imaginavam que os ânimos arrefeceriam depois do resultado; isso é visto nos Estados Unidos da América, onde o clima político não se pacificou e mesmo, de acordo com alguns analistas, piorou consideravelmente.

A imbecilidade dos fanfarrões de redes sociais é esperada e natural, mas desconfio que seu incentivo vindo das instâncias de comando superiores seja uma mistura de ignorância e de má-fé. Ao nomear um lado ao outro como aquilo que ele não é, ambos abrem mão da honestidade intelectual; os desinformados o fazem guiados por seus líderes, que sabem muito bem o que estão fazendo. Tudo isso encoberto pela “pós-verdade” e por notícias falsas. Que a campanha do PSL tenha jogado muito pesado é muito claro; surpreende a cara-de-pau do PT ao reclamar que seus adversários usaram a arma que eles manejaram com destreza nos dois últimos pleitos nacionais. Apenas desenvolveram métodos de aplicação da doutrina através da tecnologia mais moderna. Isso é vergonhoso para ambos e para nós cidadãos, que assistimos essa mostra de horrores enquanto boçais de diversas orientações ideológicas tratam seus concidadãos como inimigos apenas porque têm visões de progresso e desenvolvimento diferentes. Aqui cabe ressaltar que eu acho muito bom que todos os lados tenham adotado as cores nacionais no segundo turno da campanha; sempre me irritou que os partidos de esquerda deixassem de lado a bandeira brasileira, embora isso seja consonante com o viés historicamente internacionalista da causa operária.

Passemos agora para a situação objetiva. Há três nomes que ganharam imensa força política com essa eleição: obviamente o primeiro é o Sr. Jair Bolsonaro, “mito” (pergunto-me se seus apoiadores mais fanáticos entendem o conceito exato de mito) eleito Presidente da República pelo PSL; outro é o Sr. Sérgio Moro, indicado ao ministério da justiça e já há tempos uma celebridade com fãs cujo comportamento era (no passado?) equiparável àquele de fãs adolescentes de ícones da música pop – em matéria de fãs ridiculamente infantis ele só compete com o próprio Sr. Bolsonaro, o mito; e o Sr. João Doria, com uma carreira política meteórica, se considerada desde sua disputa pela candidatura à prefeitura de São Paulo com apoio do então governador Sr. Alckmin (que já pôde observar a gratidão e lealdade de seu apadrinhado político). Essas três figuras, cada uma a seu modo, encarnam o cenário político nacional contemporâneo e se apresentam como personagens de fora da “política tradicional” – seja lá o que for isso, já que geralmente associam esse conceito a uma política sem negociação e sem a estrutura partidária que possibilitam o fazer político – conquistando admiradores, adeptos e mesmo alguns discípulos organizados em seitas.

O Sr. Jair Bolsonaro é um líder carismático que suscita paixões. Nesse sentido, ele ocupa a posição que há alguns anos foi do Sr. Luiz Inácio Lula, que é um líder carismático cujo poder e influência diminuíram muito por estar preso por corrupção e lavagem de dinheiro (a despeito da balela de perseguição – ainda que a recente indicação do então juiz Sr. Moro tenha sido desprestigiosa para a lisura do processo, já questionável por outros fatores). Sim, bolsonaristas e lulistas podem vituperar, gritar e fazer protestos com cartazes e faixas, podem até espernear no chão e fazer greve de fome, mas o Sr. Bolsonaro e o Sr. Lula são essencialmente a mesma coisa na política nacional, e seus seguidores agem da mesma forma. Ele causa reações fortemente emotivas a seus apoiadores e àqueles que o rejeitam. Ele agora passará por um teste de fogo: exercer a Presidência da República sem desgastar seu capital político e fortalecer sua imagem e sua biografia com um governo que agrade a pelo menos parte considerável do eleitorado de modo a manter apoio e benquerença, assim como conseguiu o Sr. Lula, que ainda figura como um ídolo para muitos brasileiros, mesmo tendo passado por diversas crises, como o “mensalão” e o “petrolão” e ter a confiança de uma imensa parte da população mesmo estando preso. A tarefa é árdua e só o tempo dirá se ele obterá tal sucesso ou não, lembrando que ele não contará com o cenário internacional extremamente favorável com o qual contou o Sr. Lula, nem com o país estabilizado que o mesmo Sr. Lula herdou do Sr. Fernando Henrique Cardoso.

Não tendo o carisma nem o discurso de um político experiente, o Sr. Moro tem o mérito de ter combatido a corrupção e de ter sido elemento fundamental no processo do maior caso de desvio de dinheiro público da história do mundo. Em uma época na qual a política e os políticos são execrados pela população e são demonizados em grande parte pela própria operação Lava-Jato e pelas atitudes de procuradores e juízes envolvidos no caso – inclusive as desse sobre quem escrevo – que promoveram uma verdadeira razia na política nacional, não ser visto como político é um trunfo que todos procuram obter. A fama de impoluto e incomplacente associada à sua figura austera conferem-lhe uma imagem muito favorável para grande parte das pessoas. O Sr. Moro terá a vantagem de poder adiar o desgaste de ser um político no governo com a desculpa muito esfarrapada de ocupar um cargo técnico – visto que ministérios são cargos essencialmente políticos – e de que se as coisas não saírem como o esperado será por culpa do sistema, dos colegas ou dos adversários, mas jamais por sua eventual incompetência ou erro; com isso ele terá uma grande segurança de deixar o governo por um desentendimento inconciliável com o Presidente.

A principal qualidade do Sr. Doria é uma excelente visão tática dos movimentos políticos. Ele foi alçado à candidatura à prefeitura de São Paulo pela força de seu padrinho político, Sr. Geraldo Alckmin, então governador do Estado, em uma ação que causou mal-estar entre membros históricos do partido e uma cisão entre lideranças locais, com gente desligando-se do PSDB. Ele mostrou grande habilidade de comunicação durante a campanha, valendo-se do discurso de alegar distanciamento da classe política e oferecendo ao eleitorado um gestor e não um político profissional. Que isso fosse verdade era questionável - pois ele já tinha ocupado cargos públicos por indicação; foi secretário de turismo e presidente da Paulistur e da Embratur – mas funcionou e em 2016 ele foi eleito no primeiro turno, algo inédito na cidade de São Paulo – concorreu praticamente sozinho, é verdade, mas isso não muda o caráter arrasador da vitória. Mas sua esperteza política é vista a partir daí: ele teve boas relações com lideranças petistas enquanto estavam no poder, mas na eleição de 2016 ele transformou-se no “anti-Lula” e nunca desperdiçou uma chance de atacar o ex-presidente e políticos petistas; nos primeiros meses do processo de impedimento da Presidente Rousseff ele deu declarações de apoio ao Presidente Temer e em sua campanha ao governo paulista ele atacou indiscriminadamente o governo Temer e seus aliados; ele deve sua projeção política ao padrinho Sr. Alckmin, no entanto não teve pudor em manifestar – assim como alguns outros tucanos - apoio ao candidato mais bem colocado nas pesquisas, Sr. Bolsonaro, quando notou que a candidatura tucana não decolaria e tentou ligar seu nome ao do candidato do PSL a todo custo, arriscou-se ao ridículo de viajar ao Rio de Janeiro para não ser recebido pelo candidato à presidência e inventou o mote “bolsodoria”. Constata-se friamente que sua carreira política está pavimentada por oportunismo e que ele vai criando inimizades em sua ascensão; e não o digo em tom de crítica, ele age como um político talentoso.

A perspectiva de poder é essencial para o jogo político e, naturalmente, já estão se articulando forças que estruturarão a corrida eleitoral de 2022. O Sr. Bolsonaro tem a imensa vantagem de ter conquistado o cargo e carrega uma vasta massa de eleitores; obviamente ele também enfrenta o risco que um mau governo trará para sua avaliação e suporte. O Sr. Moro tem também uma grande quantidade de apoiadores e tem uma certa blindagem por não ser uma figura carimbada na política nacional, e, por outro lado, sua inexperiência pode colocá-lo em uma posição desfavorável, a depender de como ele e seus assessores trabalhem sua imagem diante dos inevitáveis percalços. Pelos próximos anos esses dois homens estarão no mesmo barco, pois o governo recebe muita credibilidade com a participação do juiz e este terá a possibilidade de desenvolver uma vida política institucional. É provável que ambos se desentendam no futuro – e eu arrisco dizer que o Sr. Guedes terá seu desentendimento com o Presidente da República antes do Sr. Moro – se não por questões ideológicas, por uma incompatibilidade de aspirações políticas. É razoável imaginar que o Sr. Moro fique tentado a seguir carreira solo e almeje a faixa presidencial, assim como é razoável que o Sr. Bolsonaro tentará prolongar sua carreira ao máximo e eventualmente encaminhar seus filhos para os mesmos sucessos. Eu apostaria que o Sr. Bolsonaro indicará o Sr. Moro para o Supremo Tribunal Federal; tanto porque isso lhe acresce a fama quanto porque isso é um jeito muito arguto de remover a ameaça que o futuro ministro da justiça poderia representar eleitoralmente – o cargo de ministro do STF é vitalício, dificilmente alguém tão jovem quanto o Sr. Moro abandonaria esse cargo para concorrer a uma eleição.

Já a situação do Sr. Doria está menos ligada à dos outros dois; ela dependerá do sucesso de sua disputa pelo controle do PSDB - que coroa a sua hercúlea lealdade a si mesmo – e pode, a médio prazo ser favorecida por um debacle do governo PSL. Não me parece sábio que o Presidente Bolsonaro mantenha uma aliança com o Governador Doria se este tiver o controle do próprio partido, e o próprio Sr. Doria em seu discurso da vitória deixou claro que apoiará o governo enquanto lhe for conveniente. Se estivesse dentro do PSL, o Sr. Doria poderia ser contido pela máquina partidária, da qual, frise-se, nem o próprio Sr. Bolsonaro tem o controle a despeito de ter sido exclusivamente seu nome que transformou o então nanico PSL em um colosso. Dessa forma, o Sr. Doria representa um perigo maior para as ambições futuras do clã Bolsonaro mais do que o Sr. Moro, e não por falta de interesse deste, mas por abundância de meio daquele; o Sr. Bolsonaro não disporá de um mecanismo tão eficaz quanto a indicação para um cargo vitalício para demover o Sr. Doria de suas intenções, já manifestas quando ele tentou tomar o lugar do Sr. Alckmin já nesta eleição. Além disso, tanto o Sr. Bolsonaro quanto o Sr. Doria já se mostraram mestres na comunicação por mídias sociais e a intersecção de seus públicos é muito grande. Pese-se que seu curto período na prefeitura paulista não o impediu de conquistar o governo paulista, mas agora ele precisará ficar no cargo por pouco mais de três anos e desligar-se em 2022 em tempo de lançar-se candidato à presidência; neste caso ele não terá como esconder a falta de resultados de longo prazo ao deixar seu vice assumir. Claramente ele poderá tentar uma reeleição se o cenário lhe for desfavorável à época.

Seja como for, para um politólogo será muito interessante observar os movimentos dessas celebridades políticas. Então emendo uma recomendação de leitura, já muito batida, mas que não posso me furtar a fazê-la: O Príncipe, de Nicollò Machiavelli. É uma obra fundamental para compreender a política profunda, além das pirotecnias e farsas - absolutamente necessárias para a saúde da sociedade e das instituições - que são apresentadas pelos políticos e pelos partidos para fazerem crer que o interesse público é o objetivo último desses que estão no ramo da obtenção e manutenção do poder.

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