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Fascista, neofascista ou nenhum dos dois?

Atualizado: Mai 21



Estas expressões estão sendo bem aplicadas? Alguns articulistas, estudiosos e acadêmicos rebatem a utilização desses termos para o candidato Jair Bolsonaro. É o caso de irmos até as raízes históricas para tentar entender se é cabível esses termos na nossa realidade. O fascismos remete à Itália de Benito Mussolini, o seu movimento é que deu o nome a um conjunto de posições caracterizado como tal. A etimologia é a seguinte: fascismo vem de “fasci", eram feixes que seguravam um martelo e esse foi um símbolo usado na republica romana para para os juízes decidirem pela decapitação de que descumprisse a lei, era o símbolo de uma justiça implacável. Esse símbolo foi adotado por Mussolini como símbolo do seu movimento mas, não nasceu de Mussolini esse movimento, suas ideias eram anteriores a fundação do movimento fascista. É necessário entender as origens de certas ideias. O fascismo foi caracterizadamente um movimento em países capitalistas atrasados como é o caso especifico da Itália e da Alemanha, esses países tinham como característica uma unificação tardia, ambos passaram as existir como nações apenas no final do século XIX, embora fossem capitalistas e imperialistas, ambas eram subjugadas por potências capitalistas mais poderosas, eram países que estavam na periferia do sistema e portanto necessitavam de uma espécie de “hiper-capitalismo”, ou seja sociedades capitalistas que pudessem avançar com maior produtividade e ao mesmo tempo. Especialmente depois da Grande Revolução de Outubro de 1917 na Rússia, pudessem derrotar a hipótese revolucionária nos seus países. As ideias que marcam o surgimento do movimento fascista estão muito relacionadas com três pensadores: O monarquista reacionário francês Charles Maurras que desenvolveu uma teoria nacionalista sobre a necessidade de se superar qualquer tipo de divisão de classe a partir de um Estado muito forte, ditatorial que unificasse a nação ao redor dos objetivos da burguesia hegemônica de maneira que os países pudesse avançar com mais velocidade suprimindo a liberdade, a luta de classes as liberdades de organização, expressão, ou seja, todos os direitos democráticos que haviam sido conquistados com a Revolução Francesa. Um ultra-nacionalismo como ferramenta para superar as contradições que a seu juízo impediam o desenvolvimento capitalistas. Tais contradições eram aquelas que os marxistas identificavam como o motor da história, a luta de classes, os direitos de organização em sindicatos, partidos, o direito de partidos de esquerda almejarem o poder, a supressão do conjunto das liberdades democráticas para o nacionalismo poder reinar sem freios. Esse nacionalismo tinha componentes racistas já no pensamento de Maurras, a nação era compreendida não apenas como um território mas também como um raça superior se contrapondo aos povos de origem colonial que eventualmente quisessem ir para as metrópoles. Além de Charles Maurras houve também um italiano na origem do fascismo chamado Georges Sorel. Sorel esteve ligado ao sindicalismo e compreendia que o sindicalismo era uma ferramenta fundamental para que as massas pudessem obter conquistas mas, aos poucos Sorel transita do sindicalismo revolucionário para uma concepção sindical aliada às ideias nacionais com o elemento fundamental da violência. Ele passa a compreender o sindicalismo não mais como uma ferramenta de luta dos trabalhadores mas como uma forma de organização que pudesse pela via da disciplina construir o punho de combate do nacionalismo desenhado por Charles Maurras. A fusão do pensamento ultra-nacionalista de Maurras com o pensamento organizacional de Sorel da origem ao que viria a se tornar o fascismo. A unificação desses pensamentos seria feita por um italiano chamado Enrico Corradini criando assim a base ideológica do fascismo que tem fundamentalmente três elementos:

O nacionalismo;

O militarismo, a ideia de que o nacionalismo deve ter uma capacidade de intervenção militar para poder manter a unidade nacional, suprimir a contradição e eventualmente enfrentar Estados inimigos que possa se opor à expansão nacionalista;

O racismo, a deia da raça superior para à nação uma conotação que vai além da cidadania, estabelece um principio filosófico, um direito divino, a ideia da raça pura.

São elementos fundamentais que Corradini desenvolve a partir do pensamento de Maurras e Sorel. Quem transforma essa ideologia em um movimento politico é exatamente Benito Mussolini que era um dirigente do partido socialista italiano, editor do Avante, o jornal do partido socialista italiano. Quando o partido socialista italiano se coloca contra a posição da burguesia italiana de manter a Itália na I Guerra Mundial e propõe a sublevação dos trabalhadores contra a guerra, um dos poucos a fazer isso e não por acaso se torno muito próximo dos Bolsheviques na Rússia, Benito Mussolini rompe com o partido pois, ele era um nacionalista e votou a favor da guerra. É quando Mussolini abraça as ideias de Corradini e começa a constituir o movimento fascista. O fascismo surge não como um movimento da alta burguesia italiana mas, como um movimento dos setores médios da sociedade italiana que viam neste movimento a possibilidade da Itália sair do profundo atraso que vivia. Aos poucos a burguesia italiana no pós guerra adota o fascismo como seu braço politico. Depois do término da I Guerra Mundial começaram as grandes lutas operárias com perspectivas revolucionárias inspiradas da Revolução Russa de 1917. A burguesia italiana vê nos fascistas uma possibilidade de ter uma tropa de choque contra os trabalhadores, contra o partido socialista e mais tarde contra o partido comunista que nasce a partir da cisão do partido socialista em 1921 durante o congresso de Livorno. A burguesia italiana assume o fascismo como uma corrente política que poderia defender com muito mais firmeza seus interesses, uma corrente politico-militar capaz de reprimir os trabalhadores e suas greves exercendo a violência de forma organizada.

É dessa forma que o fascismo emerge não mais como uma expressão das camadas médias da Itália mas como uma corrente burguesa que se propunha estabelecer um regime ditatorial baseado nas ideias nacionalistas, militaristas e racistas e agora também aceitando a monarquia de Victor Emanuel que é quem nomeia Benito Mussolini seu primeiro ministro depois da marcha sobre Roma organizada por ele em 1920.

Esse modelo de fascismo italiana vai sendo exportado para outros países, a começar pela Alemanha de Hitler que se inspira no fascismo italiano, em seu nacionalismo, na sua forma de organização, seu militarismo, seus símbolos, seu anticomunismo, anti-marxismo, em suas tropas milicianas organizadas, nas suas ideias racistas porém, o nazismo da um peso maior às ideias raciais. A questão racial ganha um relevo enorme no nazismo ao se fundir com as ideias nacionalistas. O nacionalismo de Hitler era racial, buscava estabelecer uma narrativa pela qual os arianos erma encarnados pelo Estado alemão e este por sua condição de representante da “raça superior” tinha direito à expansão econômica e se transformar em um poderoso Estado capitalista. O nazismo, tal como o fascismo na Itália, seria o elemento que unificaria a burguesia alemã em seu Estado fragilizado.

Este modelo iria se expandir para vários países do mundo, surgiriam correntes fascistas até mesmo na América Latina, é o caso do integralismo no Brasil.

Estes movimentos estabeleceram um conjunto de ideias e práticas que permitem caracterizar esses movimentos. Inicialmente o fascismo tinha uma política econômica intervencionista, uma economia mista chefiada pelo Estado que garantiria a infraestrutura, as condições básicas para que os grupos capitalistas privados pudessem acumular uma forte lucratividade. O Estado regulamentaria o mercado, a infraestrutura, o comércio exterior de tal forma que a frágil burguesia italiana e a combalida burguesia alemã depois da I Guerra pudesse usufruir daqueles setores econômicos que necessitassem de baixo investimento e tivessem alta lucratividade. Nas experiências posteriores à Segunda Guerra Mundial depois da derrota do nazifascismo surgiriam novas formas de fascismo, neofascismo portanto. Por exemplo a ditadura militar de Pinochet, uma ditadura fascista embora com características diferentes das ditaduras fascistas tradicionais de Mussolini e Hitler. Pinochet era um neofascista do ponto de vista da politico mas um ultra-liberal do ponto de vista econômico. A ditadura militar fascista no Chile teve como objetivo não construir uma economia sob regulação dos Estado mas a aplicação da agenda neoliberal de forma radical sem maiores resistências. É portanto um variável do fascismo, mantinha os elementos de nacionalismo, militarismo. A mesma situação com Franco na Espanha e Salazar em Portugal e de muitas formas o movimento de Jair Bolsonaro remete a esses valores fascistas: o nacionalismo, não um de tipo imperialista mas racial, patriarcal, trata-se de um nacionalismo cuja ideia de nação busca expurgar a diferença, os movimentos da classe trabalhadora, é uma ideia que está no próprio lema da campanha do candidato “o Brasil acima de tudo,” o elemento nacionalista e, ”Deus acima de todos”, o elemento religioso, fundamental para sua lógica neofascista. O nacionalismo bolsonariano incorpora o elemento religiosa para poder defender exatamente os mesmos valores ultra-nacionalistas reacionários que estão nas teorias de Mussolini e Hitler, a supressão da luta de classes, a supressão das liberdades de organização e mobilização, dos sindicatos, dos movimentos sindicais, a supressão da diferença, é também militarista, reivindica a ditadura e as forças armadas como um partido orgânico da burguesia o qual ele quer dirigir em seu projeto, ao ponto de colocar um general como vice e prometer caso vitorioso um gabinete cívico-militar. Embora haja diferenças como os movimentos originais, é evidente que Bolsonaro bebe na fonte do fascismo e incorpora um dos modelos possíveis de neofascismo. Bolsonaro é inimigo do povo, da democracia.

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Conteúdo Breno Altman, Opera Mundi


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