• Equipe Sputnik Consulting

Os “Eixos do Mal” Huawei-Venezuela


Por Pepe Escobar.

Enquanto Washington continua sendo um prisioneiro bipartidário da caverna platônica russofóbica – onde as sombras da Guerra Fria na parede são tomadas como realidade –, o slogan de Trump, Maga (Make America Great Again), está perdendo o trem para a Eurásia. Uma hidra de muitas cabeças, a Maga, se despojada até os ossos, poderia ser lida como um antídoto não ideológico ao aventureirismo global do Império.


Trump, a seu modo não estratégico e caótico, propunha, pelo menos em teoria, o retorno a um contrato social para reerguer seu país – o que se traduziria em empregos, oportunidades para pequenas empresas, impostos baixos e não mais guerras estrangeiras. É uma nostalgia dos anos 1950 e 60, antes do atoleiro do Vietnã e antes de a produção “Made in the USA” ser lenta e deliberadamente desmantelada. O que resta são dezenas de trilhões de dívidas nacionais; um quatrilhão de derivativos; o Estado Profundo correndo solto; e muito medo de russos perversos, chineses tortuosos, mulás persas, a troika da tirania, o cinturão e a estrada, a Huawei e os estrangeiros ilegais. Mais do que uma “guerra de todos contra todos” hobbesiana, ou do que as queixas de que o “sistema baseado em regras ocidentais” está sendo atacado, o medo é, na verdade, do desafio estratégico representado pela Rússia e pela China, que buscam um retorno ao império do direito internacional. O Maga prosperaria se pegasse carona no trem de integração da Eurásia: mais empregos e mais oportunidades de negócios, em vez de mais guerras no exterior. No entanto, o Maga não vai acontecer – em grande parte porque o que realmente faz Trump exultar é sua tentativa de dominar as fontes de energia, para interferir decisivamente na Rússia e no desenvolvimento da China. O Pentágono e a comunidade das agências de espionagem [Intel Community] levaram o governo Trump a perseguir a Huawei, tratada como um ninho de espiões, enquanto pressionava os aliados-chave (Alemanha, Japão e Itália) a fazer o mesmo. A Alemanha e o Japão permitem que os EUA controlem os nós principais nas extremidades da Eurásia. A Itália é essencialmente uma grande base da Otan. O Departamento de Justiça norte-americano requereu a extradição da executiva financeira-chefe da Huawei, Meng Wanzhou, do Canadá na última terça-feira, acrescentando um ponto à tática geopolítica do governo Trump. Acrescente-se a isso que a Huawei – baseada em Shenzhen e de propriedade de seus trabalhadores – está matando a Apple em toda a Ásia e na maioria das latitudes em todo o Sul Global. A batalha real está em torno da tecnologia 5G, na qual a China pretende superar os EUA, enquanto melhora a capacidade e a qualidade da produção. A economia digital na China já é maior do que o PIB da França ou do Reino Unido. É baseado nas empresas BATX (Baidu, Alibaba, Tencent, Xiaomi); na Didi (a Uber chinesa); na gigante de e-commerce JD.com e na Huawei. Essas “Big Seven” são um estado dentro de uma civilização – um ecossistema que eles mesmos construíram, investindo fortunas em big data, inteligência artificial (IA) e internet. Os gigantes norte-americanos – Facebook, Instagram, Twitter e Google – estão ausentes deste enorme mercado. Além disso, o sofisticado sistema de criptografia da Huawei em equipamentos de telecomunicações impede a interceptação pela NSA. Isso ajuda a explicar sua extrema popularidade em todo o Sul Global, em contraste com a rede de espionagem eletrônica Five Eyes (EUA, Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia). A guerra econômica contra a Huawei também está diretamente ligada à expansão do BRI em 70 países asiáticos, europeus e africanos, constituindo uma rede de comércio, investimento e infraestrutura à escala da Eurásia, capaz de virar as relações geopolíticas e geoeconômicas, como as conhecemos, de cabeça para baixo.

* Pepe Escobar é jornalista independente, especialista em análises geopolíticas

#geopolítica #China #EUA #Eurásia

0 visualização