• Equipe Sputnik Consulting

Pequim corta as asas do dólar


Por Pepe Escobar.

Pequim está percebendo que não pode cumprir suas metas geoeconômicas em energia, segurança e comércio sem passar por cima do dólar americano. De acordo com o FMI, 62% das reservas globais dos bancos centrais ainda eram mantidas em dólares americanos no segundo trimestre de 2018. Cerca de 43% das transações internacionais no sistema SWIFT ainda estão em dólares americanos.


Mesmo que a China, em 2018, tenha sido o maior contribuinte para o crescimento do PIB global, com 27,2%, o yuan representa apenas 1% dos pagamentos internacionais e 1,8% de todos os ativos de reserva detidos pelos bancos centrais. Leva tempo, mas a mudança está a caminho. A rede de pagamentos transfronteiriça da China para transações com o yuan foi lançada há menos de quatro anos. A integração entre o sistema de pagamento russo (Mir) e o chinês (Union Pay) parece inevitável. A Rússia e a China estão desenvolvendo o pesadelo final para os ex-xamãs da política externa dos EUA, Henry Kissinger e o falecido Zbigniew “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski. Em 1972, Kissinger foi o mentor – com a ajuda logística do Paquistão – do momento de Nixon na China. Esse foi clássico “Divide and Rule”, separando a China da URSS. Dois anos atrás, antes da posse de Trump, o conselho do Dr. K, oferecido nas reuniões da Trump Tower, consistiu em uma “Divide and Rule” modificada: seduzir a Rússia, para conter a China. A doutrina de Kissinger estabelece que, geopoliticamente, os EUA são apenas “uma ilha às margens da grande massa de terra da Eurásia”. A dominação “por uma única potência de qualquer uma das duas principais esferas da Eurásia – a Europa ou a Ásia – continua sendo uma boa definição de perigo estratégico para os Estados Unidos, com ou sem Guerra Fria”, como disse Kissinger. “Pois tal arranjo teria a capacidade de ultrapassar os EUA economicamente e, ao fim, militarmente.” A doutrina Zbig seguiu linhas similares. Os objetivos eram evitar conflitos e manter a segurança entre os vassalos da União Europeia-Otan. Mantenha os vassalos curvados; impeça que os bárbaros (ou seja, os russos e aliados) se unam; acima de tudo, impeça o surgimento de uma coalizão hostil (como a atual aliança Rússia-China), capaz de desafiar a hegemonia dos EUA; e submeta a Alemanha, a Rússia, o Japão, o Irã e a China a um permanente “Divida e Reine”. Daí a preocupação da atual Estratégia de Segurança Nacional, prevendo que a China, desalojando os Estados Unidos, “alcançaria a preeminência global no futuro”, através do alcance supra-continental da BRI. A “política” para neutralizar tais “ameaças” são sanções, sanções e mais sanções unilaterais, junto a uma inflação de noções absurdas espalhadas por Washington – como a de que a Rússia está auxiliando e instigando a reconquista do mundo árabe pela Pérsia, bem como a de que Pequim vai abandonar o plano do “tigre de papel”, o “Made in China 2025”, para obter papel de destaque na produção global em alta tecnologia, apenas porque Trump a detesta. Muito de vez em quando, um relatório dos EUA realmente acerta, como quando se refere a Pequim acelerando uma série de projetos da BRI, como uma tática Sun Tzu modificada, implantada pelo Presidente Xi Jinping. No Diálogo Shangri-Lá de junho de 2016, em Cingapura, o professor Xiang Lanxin, diretor do centro de Estudos One Belt and One Road, do Instituto Nacional da China para Intercâmbio e Cooperação Judicial da SCO, definiu o BRI como um caminho para um mundo “pós-Westfaliano”. A jornada está apenas começando; uma nova era geopolítica e econômica está próxima. E os EUA estão sendo deixados para trás na estação. * Pepe Escobar é jornalista independente, especialista em análises geopolíticas

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