• Equipe Sputnik Consulting

Yuri Gagarin, um embaixador do futuro

Há 58 anos, jornais do planeta inteiro estampavam o assombro do mundo com a notícia de que a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas havia enviado um homem ao espaço. “O Colombo cósmico é um homem soviético” – Paris. “Nós nos orgulhamos dos seus sucessos” – Pequim. The Cambera Time chamou o feito soviético de “truque”, já Londres reconhecia a façanha e na cidade os leitores liam na Reuters que “A Rússia ganhou a competição pelo envio do primeiro homem ao cosmos”. “O conto se tornou realidade”, “Um homem soviético no cosmos” – Varsóvia. “A inteligência do homem venceu” – Tóquio. “Os vermelhos nos venceram”, lia-se em um dos jornais mais anti-soviéticos da Flórida. "Canções nas ruas da capital búlgara" - Sofia. “As pessoas estão se movendo em grupos por toda parte nas ruas e discutindo animadamente as notícias que acabaram de receber sobre o lançamento pela União Soviética da espaçonave que transporta o major Gagarin. De manhã, uma manifestação espontânea foi realizada em frente à embaixada soviética. Continuamente chegavam colunas de estudantes de instituições de ensino superior de Sofia. Os manifestantes cantaram canções soviéticas e proclamaram brindes em homenagem ao povo soviético, em homenagem ao Partido Comunista da União Soviética e ao governo soviético. O embaixador Soviético G.A. Denisov da sacada da embaixada agradeceu calorosamente aos amigos búlgaros por sua alta apreciação das conquistas da União Soviética no domínio do espaço”.




"Tendo circundado a terra na nave, eu ví como é maravilhoso o nosso planeta. Gente, vamos proteger e multiplicar essa beleza, não destruí-la". Yuri Gagarin.

Grande parte dos avanços conquistados à época e utilizados até hoje na Estação Espacial Internacional (EEI) se devem a conhecimentos e inovações descobertas pela União Soviética. Ao levar ao espaço o primeiro satélite, o primeiro ser humano e a primeira estação orbital, a União Soviética conseguiu vencer os Estados Unidos, grande rival na Guerra Fria. As origens do programa espacial da URSS vêm das ruínas da Segunda Guerra Mundial.

Quando os americanos lançaram a bomba atómica em Hiroshima e Nagasaki, nasceu uma nova ordem mundial. Em apenas quatro anos, os soviéticos produziram a bomba atómica. Como era muito mais pesada que a dos americanos, precisaram desenvolver um foguete mais poderoso para transportá-la, o que acabou impactando o programa espacial. E a pessoa a quem encarregaram a tarefa foi o engenheiro Sergei Pavlovich Korolev. Na União Soviética, as pessoas o consideravam tão importante do ponto de vista estratégico que, para protege-lo de qualquer tentativa de assassinato, mantiveram sua identidade em segredo até seus últimos dias. Ele era conhecido apenas como "o construtor chefe". Em 1957, Korolev concluiu sua obra-prima, o foguete R-7 Semyorka, que era nove vezes mais poderoso que qualquer outro lançador criado até aquele momento. Depois de várias tentativas falidas, o R-7 foi testado com sucesso: ele conseguiu voar por 5,6 mil quilômetros até a península de Kamchatka. Foi o primeiro míssil balístico intercontinental e, com ele, Korolev transformou a União Soviética em uma superpotência global. No entanto, o destino do R-7 não era se transformar em uma arma. Como míssil, ele era ruim. Demorava-se muito para prepará-lo para o disparo. Enquanto foram desenvolvidos outros foguetes mais eficientes, o R-7 foi dedicado exclusivamente à exploração espacial. Em 4 de outubro de 1957, o Sputnik foi colocado em órbita e começou a enviar sinais de rádio à Terra, um "bip" que os Estados Unidos se esforçaram para decodificar, mas que na realidade não continha nenhuma mensagem. Ou melhor, a mensagem era clara: a via soviética para a modernidade e seu modelo social era superior. O mundo ficou fascinado. Entusiastas formavam longas filas diante dos telescópios disponíveis para poder ver a "segunda Lua" “a lua soviética” cruzando o firmamento. O soft power adquirido pela Rússia foi monumental. O Sputnik foi uma jogada de mestre de propaganda e, a partir disso, o líder soviético Nikita Kruschev quis mais: ele pediu a Korolev outra grande missão espacial para as comemorações de 7 de novembro, o aniversário da revolução bolchevique de 1917. Fazer isso dentro de um mês parecia impossível. No entanto, no dia 3 de novembro de 1957, a União Soviética enviou ao espaço outro satélite, mas desta vez havia um passageiro a bordo: Laika, uma cadela vira-lata encontrada em Moscou. No dia 12 de abril de 1961, Gagarin chegou onde nenhum ser humano havia chegado antes: a órbita da Terra. A bordo da cápsula Vostok, ele deu uma volta ao planeta em uma hora e 48 minutos.


"Estou olhando para a Terra", disse, ao se comunicar com o centro de controle. "Vejo as cores das paisagens, bosques, rios, nuvens. Tudo é muito bonito".

Gagarin foi recebido como um herói na União Soviética e viajou pelo mundo levando seu sorriso triunfal. Era a encarnação do domínio da União Soviética na ciência.

No dia 18 de março de 1965, mais uma conquista: Alexei Leonov se tornou o primeiro ser humano a realizar uma caminhada espacial.

No dia 19 de abril de 1971, eles lançaram em órbita a Salyut 1, primeira estação espacial temporal da história. Três astronautas viveram nela por três semanas. Depois disso, vieram outras missões e estadias cada vez mais prolongadas.

No dia 20 de fevereiro de 1986, enquanto os americanos se concentravam em voos de curta duração com ônibus espaciais, os soviéticos colocaram na órbita terrestre a primeira estação permanente, a MIR, que foi construída ao longo de uma década.

Com 31 metros de largura, 19 de comprimento e 27, 7 de altura, essa estrutura se transformou em um enorme laboratório suspenso, com módulos separados para astrofísica, ciência dos materiais e estudo da Terra. Equipes de cosmonautas visitavam a estação por períodos de um ano e se tornavam verdadeiros especialistas na vida no espaço.

Todas estas conquistas deixaram marcas indeléveis na Rússia, em sua cultura, arquitetura, cinema e na consciência coletiva de seu povo, os russos tornaram-se um povo obcecado pelo futuro e pela ciência. Mas o tempo e a história parecem se comportar de forma não linear onde o passado se confunde com o futuro enquanto mudam as ambições humanas. O que houve com o fascínio da humanidade pela ciência e pelo conhecimento provocados por aqueles primeiros eventos da nova era espacial inaugurada pela Rússia Soviética?

Gagarin faleceu prematuramente aos 34 anos, em 27 de março de 1968, quando testava um novo avião de caça e por isso permanecerá eternamente jovem nas fotografias e na memória coletiva.

Gagarin é um viajante do tempo, eternamente jovem, sua figura representa hoje, 58 anos depois de seu vôo, um futuro proposto por um projeto de Modernidade apresentado ao mundo pela Rússia de então. A modernidade russa propunha o surgimento do “Homem Novo”. O ser humano guiado pela razão, glorificando o trabalho e a ciência, que rejeitava o misticismo e tomaria os rumos da história em suas próprias mãos em direção a um “futuro brilhante” tantas vezes expresso nas artes e na arquitetura russas do século XX.

Esse futuro não veio, este protótipo de homem moderno do século XX que teve seu ápice em Gagarin no contexto da exploração espacial se perdeu no mar da história junto com a própria proposta de modernidade soviética. Entenda-se aqui o conceito iluminista de modernidade, onde o homem passa a se reconhecer como um ser autônomo, autossuficiente e universal, e a se mover pela crença de que, por meio da razão, se pode atuar sobre a natureza e a sociedade. Hoje, em nossas telas de smart fones, cada um com mais tecnologia do que aquela embarcada na própria nave que levou Gagarin ao espaço, paradoxalmente, temos contato diariamente uma sucessão de absurdos, de teorias terraplanistas até ataques diretos à ciência de uma forma bastante característica do tempo presente onde a capacidade de pensar criticamente parece ter perdido o compasso com o avanço tecnológico. Que uso estamos fazendo de toda a tecnologia possibilitada pela era do Sputnik? Neste sentido Yuri Gagarin é mais do que o Colombo cósmico, Gagarin é um viajante do tempo, um embaixador do futuro. Tudo que ele representa é, hoje mais do que nunca, necessário para as sociedades do mundo que, a despeito de toda a tecnologia, cada vez mais estão afundadas no obscurantismo, no misticismo e no atraso intelectual. O homem moderno, aquele homem do futuro representado por Gagarin e agora desbotado em fotos antigas pensava a tecnologia como instrumento para o desenvolvimento harmônico da sociedade e para a conquista de fronteiras muito além do espaço conhecido. 12 de abril é mais do que o dia de celebração do primeiro voo humano ao espaço cósmico, 12 de abril deve ser a celebração de uma ideia, a ideia de que o ser humano deve ser o ser supremo para o próprio ser humano, de que devemos “estudar, estudar e estudar”, buscar o conhecimento e dar fins nobres e coletivos a ele. Eis a maior contribuição da Rússia para o mundo.