Posts Em Destaque

100 mil pontos no Ibovespa – o que isto pode significar de positivo para o Brasil?

Na presente data em que me detenho a discorrer sobre a relevância do mercado de capitais para o Brasil, o Ibovespa – índice calculado com base nos preços das principais empresas da Bolsa de Valores de São Paulo – atinge novo recorde, ultrapassando marca histórica dos 100 mil pontos. Afora os entusiastas pró-mercado, economistas, especialistas e investidores, o que há de tão positivo por trás de uma notícia como esta? Quais as implicações positivas, socialmente falando, que este fato nos traz?

A resposta a esta questão reside precisamente na definição e no sentido do conceito de “mercado de capitais”. Tal como sabemos, o mercado é entendido como o conjunto de relações livres ou espontâneas entre compradores e vendedores de um determinado produto. Assim, é possível observar em nosso dia a dia diferentes tipos de mercado, como a venda e compra de imóveis, veículos, mão-de-obra, alimentos, dentre ouros. Nessa definição mais elementar, o mercado financeiro e, de certo modo, o mercado de capitais, pode ser visto como o local – uma bolsa de valores, por exemplo – ou conjunto de relações de negociação entre vendedores e compradores, cujo bem negociado é justamente o dinheiro e seu uso no tempo.

Desde os primórdios do que hoje conhecemos como civilização coube à moeda exercer um papel fundamental nas relações de troca de entre as pessoas. Esse novo instrumento deu espaço à especialização do trabalho, permitiu a acumulação de capital, a produção de riquezas, a melhoria das condições de vida e ao progresso material. O uso de um bem universalmente aceito como moeda de troca suplementou o escambo e deu asas a um novo horizonte de desejos e satisfações materiais. É nesse contexto que o fator uso no tempo ganha relevância: dado a existência de fenômenos como a inflação e a necessidade do uso presente da moeda, como determinar seu valor no futuro? O juro parece corresponder a esse papel de equalizador entre aqueles que demandam, chamados no jargão como “agentes deficitários” e aqueles que ofertam moeda na forma de recursos e capital, chamados de “agentes superavitários”, num dado momento do tempo. Assim, tal como a conhecida lei da oferta e demanda, quanto maior a quantidade de agentes superavitários num dado momento, menor se torna, constantes as demais variáveis, o custo do dinheiro, isto é, o juro, o preço do crédito, do empréstimo, o custo da formação de capital e do investimento.

É justamente aqui que, passado este rápido rodeio, tencionava chegar. O mercado de capitais – onde a Bolsa de Valores talvez seja sua representação por excelência – é uma fonte alternativa de recursos aos empréstimos existentes no sistema financeiro. Através dele, o tomador de recursos (aquele a quem denominamos “agente deficitário”) emite papéis correspondentes, cada um, a uma fração do valor patrimonial de seu negócio, composto pelos ativos e passivos, e os coloca à venda para inúmeros investidores – os acionistas. Os juros de um eventual empréstimo neste caso são transformados nos dividendos e participação nos lucros do negócio que cada acionista terá direito. Dessa forma, a tomada de recursos via emissão de ações corresponde a uma forma alternativa, menos custosa e mais rentável a depender do cenário econômico e financeiro em questão, de captação, financiamento e expansão dos negócios de uma determinada empresa.

A resposta à pergunta que ensejou este escrito começa então a ser respondida. A pontuação computada pelo Índice Bovespa sobe conforme é mais forte a pressão compradora, ou seja, quanto maior for o volume de compradores desejosos a adquirir papeis a qualquer preço dado em relação aqueles desejosos de se livrar deles – como é, aliás, a essência do mecanismo que explica a subida ou queda no preço de um determinado ativo, seja ele o que for. A escalonada do índice nos últimos meses tem, portanto, um significado claro: há mais agentes superavitários dispostos a financiar empreendimentos no Brasil, sejam aqueles brasileiros ou não. Tem havido uma alocação maior de recursos no mercado de capitais brasileiro e, com isso, um gradativo aumento na captação de recursos e na expansão dos negócios. Se sustentado no longo prazo, o que irá depender substancialmente das reformas a serem aplicadas no campo interno e do cenário comercial no âmbito externo, este otimismo tende a resultar num aumento da atividade econômica, na criação de novos postos de trabalho, no crescimento da renda e do consumo.

É óbvio que estas considerações deixam de lado possíveis contra-argumentos, como o fato de que a subida vertiginosa do Ibovespa seja produto do crescimento de poucos e específicos setores, num ritmo muito diverso ou plenamente oposto ao da economia brasileira como um todo; ou, mais ainda, de que o fenômeno em questão seja resultado de um afã plenamente especulativo, sem toques concretos com a realidade e inteiramente dependente de um onda otimista sem muito fundamento empírico dado os tempos nebulosos em que estamos. São considerações legítimas, barbaramente razoáveis e verdadeiras – contudo, não se pode negar que um mercado de capitais bem estabelecido, operando sobre regras claras e com boa regulamentação, é peça fundamental para o crescimento econômico e, portanto, para a obtenção futura de melhores condições de vida

para todos.

O colunista Denis Cabrerizo é filósofo formado pela USP-SP, desenvolve estudos de conjuntura econômica para Sputnik Consulting. Escreve sobre filosofia, economia, política e literatura

Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Instagram Social Icon