Posts Em Destaque

A CIRANDA DA INSANIDADE DO GOVERNO BOLSONARO.



A resposta do presidente à epidemia de covid-19 é irresponsável, é orientada por interesses eleitorais e de carreira, e mostra sua incapacidade para o cargo e seu despreparo político, técnico e intelectual, chegando às raias da insanidade.

No mundo todo, países mais desenvolvidos, mais organizados e mais preparados que o Brasil não estão conseguindo lidar com esta doença. Todos os países que demoraram a tomar medida de controle de movimentação, estabelecer quarentenas rígidas e testar a população em massa tiveram picos no número de casos da doença que colapsaram seus sistemas de saúde, mesmo países com um sistema excelente, como é o caso da Itália e da Espanha, e que possivelmente logo também será o caso do Reino Unido e da França. Por aqui, o governo federal não só não ajuda como deliberadamente atrapalha o esforço que alguns governadores estão empenhando - em impulsos de racionalidade que são completamente inéditos em alguns – ao fecharem comércios e limitarem a movimentação de pessoas. O presidente está disposto a usar a foça do cargo para impedir que o país se prepare para o pico da epidemia.

Em caso de colapso do sistema de saúde, a economia vai parar de qualquer jeito. Ou tomamos atitudes agora para evitar um morticínio e lidar com as consequências econômicas dessa epidemia depois, ou teremos esse morticínio e também a crise. Essas atitudes dividem-se em dois grupos: aquelas no âmbito da saúde, que incluem reduzir a taxa de contágio, criar mais leitos e providenciar os materiais e recursos necessários para lidar com a emergência sanitária; e aquelas no âmbito econômico, que passam por direcionar recursos para as medidas já citadas, converter e orientar a capacidade produtiva para produzir os bens prioritários para o combate da epidemia e para o sustento da população e alocar – e mesmo criar – recursos para assistir os mais afetados pela crise econômica. Muito mais poderia ser dito, mas creio que os exemplos são suficientes.

No Brasil a utilização dos leitos de UTI tanto na rede privada quanto na rede pública é superior a 80% em situações normais, isso significa que o sistema de saúde já opera com pouca capacidade excedente e que não será capaz de suportar a demanda se não houver o muito falado “achatamento da curva de casos”. Embora a mortalidade seja realmente muito mais alta em idosos, isso não significa que a doença não possa ser grave em pacientes mais novos e saudáveis, e é aqui que há um erro grave no raciocínio do presidente e de seus apoiadores: muitos doentes graves precisam de tratamento intensivo para que se curem, isso significa leitos de UTI e ventiladores pulmonares. O país não dispõe desses equipamentos em quantidade suficiente, nem de equipamento de proteção, nem de remédios para as infecções secundárias que costumam acometer os doentes nestes casos. O número total de doentes ao fim da epidemia será o mesmo independentemente do caminho tomado, mas evitar um pico de infecções que ultrapasse a capacidade do sistema de saúde - privado e público - é o que fará a diferença entre a situação ser dramática como na China ou ser trágica como na Itália, em um lugar houve capacidade de tratar as pessoas, no outro não e muitas pessoas estão sendo deixadas para morrer sem tratamento.

Entender o raciocínio simples de que diminuir o ritmo do contágio permitirá ao sistema absorver e tratar os doentes e salvar muitas vidas tem sido um desafio intelectual, ou moral, para o governo federal e para muitos dos seus apoiadores. Muitos liberais estão adotando, direta ou indiretamente o discurso de que algumas pessoas terão de ser sacrificadas pelo bem comum. A maioria absoluta dos entusiastas da imolação dos velhos pobres não é da categoria dos velhos, e os que são velhos não são pobres – pelo contrário; isso me parece mais uma falha de caráter que de raciocínio. É justo levantar a questão se não seria melhor oferecer ao martírio as contas bancárias dos imensamente ricos; os recursos que os magnatas apoiadores do governo possuem ajudariam muito a combater a epidemia e a crise econômica, com a vantagem de mostrar o valor moral e abnegação desses patriotas. Mas todos esses grandes empresários que vêm aparecendo em vídeos clamando pela salvação das contas públicas só estão dispostos a sacrificar a vida dos outros, não o próprio patrimônio; e todos estariam muito dispostos, suspeito, a aceitar benesses e subsídios governamentais ainda que à custa do equilíbrio fiscal.

Afora isso, o medicamento a que o Sr. Bolsonaro se refere repetidamente precisa de mais estudos para ser aplicado generalizadamente nos casos de covid-19 e tem efeitos colaterais que precisam ser estudados, além de ser consumido por pessoas que necessitam dele por outras doenças, e seu fornecimento e produção em maior escala precisarem ser implementados. A estratégia da desinformação é já um clássico no modus operandi do atual governo; a cada dia as informações e as mensagens do governo são mais desencontradas, até o ministro da saúde que há dois dias representava uma das poucas vozes lúcidas no poder executivo entrou na mórbida ciranda da insanidade liderada pelo clã Bolsonaro e seu pretensioso guru, o Sr. Olavo de Carvalho (que tem uma longa e oscilante carreira em diversos ramos do obscurantismo, foi astrólogo e depois islamista radical até se encontrar como youtuber especializado em teorias conspiratórias e distorções da filosofia ressentido por não ser reconhecido como um novo Sócrates, assim se considera abertamente). O fato de que o avião presidencial trouxe uma grande quantidade de pessoas contaminadas da última viagem do presidente à Miami deu a deixa para que as más línguas relembrassem o caso do ano passado quando 39 quilogramas de cocaína foram encontrados em um jato da comitiva presidencial e anunciassem que “as viagens presidenciais, quando não estão levando droga estão trazendo doenças”; uma maldade que causa constrangimento a todos os cidadãos de bem que reparam que a família do presidente costuma sempre estar envolvida em situações nas quais as milícias também estão. Voltando ao foco deste artigo, o governo, sua base no Congresso e seus apoiadores têm como conduta básica a adoção de uma versão alternativa dos fatos da realidade, com os quais passam a trabalhar e a partir daí formam opiniões e tomam posições que só podem ser alteradas por um choque de realidade muito forte, caso contrário, todos permanecem de mãos dadas na ciranda.

Caro senhor leitor, antes de dizer às pessoas que saiam às ruas e de defender que o Brasil é o único país inteligente do mundo, que enfrentará a epidemia a tapa e terá sucesso ao fazer exatamente o oposto do que fizeram os países que estão conseguindo controlar a situação, eu peço a vocês que digam quem das suas famílias vocês acham que podem se sacrificar por essa imunização coletiva da qual o presidente fala, quem dos seus entes queridos vocês estão dispostos a pôr em risco para que o dono de alguma grande empresa não perca a chance de comprar um jatinho novo ou trocar de Ferrari. Porque os pobres e a classe média, esses já estão condenados à dura provação de uma crise econômica forte e prolongada, que vem na esteira de uma economia mal gerida e periclitante com a qual nos agraciou um ministro da economia incapaz, arrogante e ressentido, nomeado por um presidente que partilha com ele os mesmos adjetivos pouco lisonjeiros - cuja lista seria longa para continuar aqui.

O Estado terá que lidar com o problema econômico junto com a sociedade, mas é obrigação do Estado e da sociedade evitar mortes e proteger os cidadãos, ambas as coisas não são opostas, são antes necessárias e mutuamente complementares. Se a população adoecer, a economia colapsará, se a economia colapsar, a população sofrerá. O momento exige esforço, empenho, disposição e trabalho, além de muita coragem para enfrentar a realidade. O presidente da República confunde a coragem de encarar a realidade com a loucura de fingir-se de valente negando-a. E mais, fá-lo por um cálculo eleitoral mesquinho; planeja jogar a culpa de qualquer desastre nas costas dos governadores, como a economia será imensamente afetada seja qual for o desenvolvimento da situação, ele dirá que os governadores destruíram a economia por histeria sobre a doença ou dirá que eles não agiram corretamente e por isso as mortes arruinaram a economia. Seja como for, a maior responsabilidade por qualquer catástrofe será dele, por omissão ou por incompetência, talvez mesmo por ação deliberada.


* Este texto não reflete necessariamente a opinião de Sputnik Commercial & Consulting.

S O B R E O A U T O R

Paulo Roberto de Macedo-Soares é formado em negócios internacionais, pós-graduado em política e relações internacionais e consultor Sputnik Commercial & Consulting. Em sua coluna escreve sobre política, economia e cultura.


Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Instagram Social Icon