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A formação dos países eslavos no contexto das Guerras Russo-Turcas



O secular sonho de libertação dos povos cristãos do Império Otomano foi fortemente ligado com a compreensão de Moscou de se ver como uma terceira Roma, último reduto dos ortodoxos, o qual protegeria aqueles que caíram cativos do Império Otomano. No século XIX esse sonho adquiriu uma nova dimensão:

A sociedade russa começou a sentir a sua unidade com o mundo eslavo e dolorosamente se tornou consciente de que a maioria dos povos eslavos era escravizado - sem os seus próprios Estados, não tendo plenos direitos vivendo em outras nações.

Um sofrimento particularmente agudo dos eslavos sob o jugo otomano os russos sentiram em meados da década de 1870, quando no Império Otomano se revoltaram os primeiros habitantes da Herzegovina, depois os bósnios, e então, finalmente, os búlgaros. Os levantes foram causados pela opressão dos turcos - mesmo na segunda metade do século XIX opressores continuaram suas atrocidades medievais.

As potências europeias há muito tempo já viam o Império Otomano como um anacronismo, concluindo que deveriam fazer algo com esse “membro doente da Europa”, mas, o que exatamente não se sabia. Porém, a Grã-Bretanha e a França apoiavam este “membro doente da Europa” com todas as forças pois criam que uma queda do Império Otomano levaria ao fortalecimento da Rússia e da Austro-Hungria, quebrando o balanço entre as potências. Eis a razão pela qual mesmo com as terríveis repressões sofridas pelos eslavos (os turcos incendiavam aldeias, estupravam mulheres e matavam crianças e velhos) os círculos oficiais da Europa interpretavam como reestabelecimento da ei e da ordem:

O primeiro ministro britânico Lord Benjamin Disraeli, justificando os turcos falando sobre "Inevitabilidade da violência nos Balcãs por causa do atraso da população." Retórica conhecida, não é verdade?

Tentado afundar em sangue a rebelião eslava, os otomanos provocaram a ira do antigo inimigo, a Rússia:

A sociedade russa estava indignada com os turcos, e chamou para a guerra de libertação. No entanto, as autoridades tinham medo do conflito aberto - Alexander II lembrava as lições da Guerra da Criméia, e sabia que os vizinhos europeu s não iam ficar de braços cruzados vendo as tropas russas entrarem nos Balcãs. Mas o tzar não pode (e não tentou) fazer nada para acalmar a sociedade - nas grandes cidades se reuniram soldados para a luta de libertação, doavam dinheiro para comprar pão e armas. Em todo o país, criaram-se os Comitês Eslavos para levar ajuda para a Bulgária.

Os fundos eram recolhidos para os eslavos rebelados nos territórios otomanos, mesmo nas aldeias russas mais remotas. Por exemplo, em uma das muitas cartas enviadas com dinheiro para um Comitê Eslavo da província de Samara os camponeses de uma aldeia, homens simples, escreveram: "tendo sabido da amarga experiência e o quão difícil é viver na miséria, sabemos que a nossa ajuda é pequena, composta por 143 rublos, mas é dada de coração e é composta de economias de pessoas que não são ricas, homens, mulheres e até crianças em situação de pobreza". A proteção dos direitos do povo búlgaro foi defendida pelos maiores escritores russos, artistas e cientistas, os quais eram bem conhecido em toda a Europa - Leo Tolstoy, Ivan Turgenev, Ilya Repin, Dmitri Mendeleev, Nikolai Pirogov.... Para os Balcãs apressaram-se os voluntários russos, não só militares, mas também o médicos.

Não sendo capaz de lidar com o fluxo pessoas querendo ajudar os irmãos-eslavos, o tzar permitiu que os oficiais pedissem baixa para ir se juntar aos voluntários nos Balcãs. As novas atrocidades cometidas pelos turcos não permitiam que o governo do Império ficasse parado: declarando-se defensor dos povos cristãos, a Rússia e já não podia aceitar a situação. Diplomatas russos começaram a campanha preparatória para convencer as potências europeias a permanecer na neutralidade.

A Alemanha de Bismark apoiou a Rússia, em segredo esperava que vencendo o Império Otomano, a Rússia se voltaria contra a Austro-Hungria que tinha pretensões em grande parte do Império Otomano. E até a Inglaterra decidiu não se opor pois, esperava que a Rússia se perderia nessa guerra e assim jamais alcançasse o Afeganistão e a Índia, grande temor dos ingleses.

A guerra foi declarada pelo Império Otomano em 12 de abril de 1877, causando um surto sem precedentes de patriotismo na Rússia. Para os Balcãs marcharam veteranos da guerra da Criméia, jovens oficiais e garotas de famílias nobres que se tornaram simples enfermeiras.

Um dos Titãs desta guerra foi o "General Branco" Mikhail Skobelev, cujo nome levou horror aos turcos. Para os soldados, a "Fortuna" movia-se repetidamente ou para os russos ou para os turcos. Com o preço de sangue de milhares de soldados russos, a Rússia finalmente venceu esta guerra.

O ápice da vitória foi o tratado de paz de Santo Estevão o qual deu aos povos eslavos do Império Otomano mais do que eles poderiam ter sonhado: o reconhecimento da total independência de Monte Negro, Sérvia, Romênia, a autonomia da Bósnia, Herzegovina e Bulgária. As potências ocidentais, naturalmente, não poderiam aceitar tal situação: nas condições de Bismark foi criado o Congresso de Berlin no qual as conquistas russas, em sua maioria, foram contestadas, mas aceitas. A Bulgária foi dividida em três partes, a Austro-Hungria conseguiu o direito de ocupação da Bósnia e Montenegro, incrementos territoriais da sérvia e Monte Negro foram cortados. Porém, de qualquer forma, o objetivo principal foi alcançado: cinco séculos de jugo otomano para os eslavos haviam acabado. A liberdade total não estava longe.


Uma poderosa União Eslava?

O Império Otomano não foi o único a oprimir os povos eslavos, A Austro-Hungria apesar de evitar a mesma violência, estava longe de dar aos eslavos os mesmos direitos dados à maioria alemã. Mesmo os húngaros tendo seu próprio rei, não poderiam imaginar plena igualdade. O arque duque Franz Ferdinand não se envergonhava em dizer: “eles me são antipáticos em razão da sua língua”. Os habitantes da Bósnia e Herzegovina sonhando com a liberdade do Império Otomano, viram nos seus sucessores austríacos o seu velho inimigo: em 1878 a Áustria ocupou uma região que poderia declarar independência. Tchecos, eslovácos, bósnios dos Balcãs e croatas sonhavam com seus Estados nacionais.

O impulso dado pela Rússia à libertação dos eslavos ecoou nos corações das minorias étnicas do Império de Hamburgo, mesmo a Rússia oficialmente distanciando-se dessas questões não querendo envolver-se em outra guerra. Na Rússia o general Skobelev, o “Garibaldi eslavo” chamava o país para nova guerra. Entendia que a Rússia deveria exigir da Austro-Hungria e da Alemanha, as quais receberam grandes territórios por conta dos eslavos, extinguir a opressão contra os povos eslavos.

Falando em Paris para estudantes sérvios, ele desenhou todo um programa de ação para criar uma união de Estados eslavos independente liderada pela Rússia. A Rússia deveria levar essa união não porque pretendesse a supremacia na Europa, e sim porque ela é um centro natural de gravidade das nações eslavas.


"Os eslavos desejam uma coisa: permanecer eslavos; eles não querem ser germanizados ou ficar sob a autoridade dos jesuítas - disse Skobelev. - A Rússia é o único país da Europa onde existe idealismo suficiente para lutar por causa de um sentimento. Seu povo não recua diante de sacrificios pela fé e irmandade. Desta forma, esta união deve ser completamente voluntária, mas ter as finanças Exército comuns. completa autonomia para cada membro, exército e recursos comuns, ... gestão interna como você desejar"

É curioso que, de acordo com o Skobelev, para a Rússia a ideia da guerra de libertação deveria se tornar uma nova ideia unificadora: "O governo tem sobrevivido ao seu tempo, mas impotente fora, ele também é impotente dentro de suas fronteiras. O que pode derrubá-lo? Constitucionalista? Eles são muito fracos. Revolucionários? Eles também não têm raízes entre as massas. Na Rússia há apenas uma força organizada - o exército tem e em suas mãos o destino da Rússia. Mas o exército não só pode erguer-se apenas com uma massa, ele precisa de um slogan compreensível, e não apenas no exército, mas também compreensível às massas. Esse slogan pode ser apenas a proclamação da guerra contra os alemães e a unificação dos eslavos. Este slogan fará a guerra ser popular na sociedade". Se o tribunal imperial não fosse tão cauteloso e priorizasse os interesses dos eslavos, o sonho de Skobelev se tornaria realidade, e a Rússia se tornaria a lider da União eslava. No entanto, a morte súbita do general e a atitude negativa em relação às suas idéias por parte do novo soberano - Alexander III foi a razão pela qual a idéia foi enterrada. No entanto, o desejo de libertação eslava, especialmente os esforços do início do século XX, tornaram-se um dos principais fatores que levaram à morte do Império Austro-Húngaro.

Durante a Primeira Guerra Mundial, a relutância dos povos eslavos em lutar contra a Rússia tornou-se aparente. Com várias fontes interessantes em seu artigo "Os povos da Áustria-Hungria na Primeira Guerra Mundial através dos olhos do inimigo russo" a doutora em ciências históricas Elena Senyavskaya relata que quando irrompeu a guerra, o governo da Áustria-Hungria teve que recorrer a uma política de flertar com as minorias étnicas como os poloneses, desejando por meio de concessões atraí-los para o seu lado, e até mesmo causar simpatia pelo Império de Habsburgo e entre a população polonesa vivendo na Rússia. As tropas de austríacos e poloneses capturadas pelos russos diziam: "Primeiro, fomos proibidos de falar polonês, mas após a declaração de guerra, fomos autorizados a falar polanês e até mesmo a fazer orações em polonês ... Pouco antes da guerra, nós fomos autorizados a cantar canções polonesas e os oficiais nos prometeram construir a Polônia (isto é, criar um Estado independente polonês - República da Polónia), caso, e apenas sob tal condição, se fossemos lutar ao lado deles". O socialista americano John Reed, que mais tarde se tornaria famoso pelo livro "Dez dias que abalaram o mundo" durante a Primeira Guerra Mundial trabalhou como jornalista no front. Entre outras coisas, ele descreve seu encontro com uma coluna de prisioneiros austríacos, escoltada por dois cossacos do Don:


"Haviam trinta soldados, e entre estes, estavam representadas cinco nações: os tchecos, croatas, húngaros, poloneses e austríacos. Um croata, dois húngaros e três tchecos não sabiam uma palavra em qualquer língua diferente da sua , e, claro, nenhum dos austríacos não sabia sequer um som em boemo, croata, húngaro ou polaco. Os croatas odiavam os húngaros, os húngaros odiavam os austríacos, e no que diz respeito aos tchecos, nenhum dos outros se quer falaria com eles ... Mas todos eles falavam muito bem sobre os seus guardas, os cossacos"

Eslavos viam o tratamento que recebiam por parte dos russos: os russos estavam prontos para lutar "contra inimigos jurados do Tzar, da Rússia e dos eslavos - os alemães odiados", mas sentiam-se muito desconfortáveis sobre os soldados austríacos, porque entre eles havia muitos eslavos. A relutância para lutar um contra o outro foi detectada em ambos os lados. Para manter os soldados eslavos como voluntários, os oficiais austríacos os intimidavam com invenções sobre a suposta crueldade russa - afirmavam que se caíssem prisioneiros dos russos seriam fuzilados e os feridos teriam a mesma sorte. Mas um dos soldados, que ficou realmente em cativeiro russo, disse que a propaganda não foi bem-sucedida: "O Conto de brutalidade russa goza agora de pouca credibilidade, porque na realidade em quase nenhum lugar ele foi confirmado, um soldado que ficou prisioneiro dos cossacos de kuban relata que foi bem tratado: alimentado, e quando souberam que ele estava doente, pediram ao proprietário da casa onde ele estava um cavalo para leva-lo ao hospital russo".

A derrota de Áustria-Hungria na guerra contra os aliados permitiu que os povos eslavos do moribundo Império tornassem realidade o seu sonho. Em 28 de outubro de 1918, a Checoslováquia surgiu, em seguida, em 29 de outubro, surgiu, a Eslovênia. E a sucessora do Império Russo, a União Soviética no século XX provou ser uma defensora dos povos irmãos, durante a Segunda Guerra Mundial, mais uma vez defendendo a independência dos Estados eslavos, anexados ou entregues em um Estado fantoche da Alemanha nazista. Alteram-se os nomes das entidades estatais, mas o papel histórico não desaparece.

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