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Acordo de Munique 1938: O Limiar da Catástrofe


O chanceler russo Sergey Lavrov com Valery Artzybaev, curador da Exposição "Munique 38", em Moscou

Na sala de Exposições dos Arquivos Federais em Moscou está funcionando a Mostra “Munich-38. O limiar da catástrofe”. A exposição coincide com o 80º aniversário da assinatura em Munique do acordo entre Alemanha, França, Grã-Bretanha e Itália.

“O Acordo de Munique, que se tornou o prelúdio da II Guerra Mundial, coroou a vergonhosa, de fato criminosa, política de “apaziguamento” com o Terceiro Reich. Os países que participaram desta conspiração – Reino Unido, França, Itália – alimentaram esperanças ilusórias de afastar de si a ameaça de agressão nazista e tentaram levá-la para o Leste. O “Acordo de Munique” é um exemplo clássico de quais consequências catastróficas podem resultar do abandono do direito internacional”, disse na abertura da Exposição o Ministro de Relações Exteriores da Federação Russa, Sergey Lavrov

O Departamento Histórico-Documental do Ministério das Relações Exteriores da Rússia avalia, com riqueza de informações, no texto abaixo, os 80 anos do “Acordo de Munique” – completados neste 29 de setembro -, que materializou, com a entrega da região dos Sudetos na Tchecoslováquia, a capitulação da Inglaterra e da França perante a Alemanha nazista e a Itália fascista.

“Autores de interpretações históricas tendenciosas opõem o Acordo de Munique ao pacto de não-agressão soviético-alemão [Molotov-Ribbentrop] em 23 de agosto de 1939. No primeiro caso, dizem que as democracias ocidentais tentaram preservar a paz e, no segundo caso, que regimes totalitários desencadearam a guerra. No plano político, esse esquema é francamente oportunista e, no científico, não resiste a uma crítica séria”, esclarece o documento.

Conforme o Departamento, “é impossível manter a paz cedendo constantemente ao agressor, pois a partir disso seus apetites só crescem. Hitler chantageou a Europa e nunca parou no que conseguia”. “A política de ‘apaziguamento’ o convenceu da fraqueza das democracias ocidentais, que entregaram posição após posição, e, finalmente, elas mesmas se tornaram presas fáceis. Pela definição de W. Churchill, escolhendo entre a desonra e a guerra, Chamberlain escolheu a desonra e teve a guerra”, lembra o documento, que publicamos a seguir.

SUSANA LISCHINSKY

SOBRE O “ACORDO DE MUNIQUE”

Encontra-se em curso uma ativa campanha de desinformação e propaganda, cujo objetivo é provar a “culpa histórica” da União Soviética e da Rússia pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. Os fatos são distorcidos, com alguns, inclusive os mais significativos, sendo silenciados ou mencionados aleatoriamente.

Entre estes últimos, em particular, está o que se refere à Conferência de Munique de 29 de setembro de 1938 e ao acordo por ela acertado. Ele foi assinado pelos chefes de quatro Estados – a Alemanha nazista, a Itália fascista, Grã-Bretanha e França. O resultado foi a divisão da Tchecoslováquia entre a Alemanha, a Polônia e a Hungria, e depois sua liquidação como Estado independente.

Documentos de arquivo, incluindo uma vasta correspondência da Embaixada soviética em Praga, permitem restaurar um quadro objetivo do passado. O representante plenipotenciário da URSS, Serguei Aleksandrovsky¹, gozava da confiança do presidente da República da Tchecoslováquia, Edvard Beneš, e mantinha contato constante com ele, estando ciente de seus planos e avaliações. Os telegramas codificados de Aleksandrovsky são uma valiosa fonte histórica, que nos permite revelar algumas características importantes do desenvolvimento dos acontecimentos em um estágio crítico da história europeia.

“Apaziguamento” e segurança coletiva.

O Acordo de Munique foi o apogeu da política de “apaziguamento”. Sua essência era, ao custo de certas concessões, reduzir a pressão da Alemanha para o Ocidente, e direcionar sua expansão para o Oriente. Essa política baseava-se no desejo de enfraquecer ou destruir o Estado soviético, na subestimação estratégica – pelas democracias ocidentais – da ameaça representada pelo fascismo.

Com a conivência de Londres e Paris, a Alemanha realizou uma remilitarização da Renânia (março de 1936) e ocupou a Áustria (Anschluss em março 1938). Foram realizadas as agressivas alianças entre Alemanha e Itália e Alemanha e Japão (eixo “Berlim-Roma” e o Pacto Anti-Comintern). A posição anglo-francesa tornou-se uma das principais razões para a derrota da República Espanhola na Guerra Civil de 1936-1939, com o apoio militar alemão e italiano. Simultaneamente, se preparava a ruptura, a favor da Alemanha, dos Sudetos, que era a área mais desenvolvida da Tchecoslováquia, com uma população predominantemente alemã (2,8 milhões). No país, moravam 3,5 milhões de alemães, numa população total de 10 milhões.

Uma alternativa ao “apaziguamento” poderia ser um sistema de segurança coletiva, defendido pela URSS. Em 1935, o governo soviético assinou acordos de assistência mútua com a França e a Tchecoslováquia, considerados a base deste sistema. No entanto, de acordo com o tratado soviético-tchecoslovaco, a ajuda da URSS só poderia ser fornecida se a França cumprisse obrigações semelhantes.

Um opositor convicto da segurança coletiva foi o Reino Unido, que apresentou o conceito de “neutralização” da Tchecoslováquia, que previa o desmantelamento de tratados de ajuda mútua. De 28 a 29 de abril de 1938, em uma reunião de primeiros-ministros e ministros das Relações Exteriores da Grã-Bretanha e da França, foi tomada a decisão de encorajar Praga a concordar com as exigências da Alemanha. O chefe do governo francês, E. Daladier, informou a Beneš que, caso contrário, ele não deveria contar com a defesa francesa.

Moscou, diferente disso, queria ativar alavancas para a segurança coletiva. Em 17 de março, o Comissário Popular de Relações Exteriores M.M Litvinov comunicou sobre a disposição da União Soviética para ações conjuntas, que “teriam o objetivo de parar o desenvolvimento de futuras agressões e a eliminação do perigo crescente da guerra mundial”. No final de março, a questão foi discutida por J.V. Stalin e o Comissário do Povo da Defesa K. E Voroshilov com o Comandante do Exército G.I. Kulik, em viagem à Praga. Stalin e Voroshilov estavam determinados a “ajudar decisivamente os tchecos se eles realmente lutassem por sua independência”.

Em 26 de abril de 1938, o presidente do Presidium do Soviet Supremo da URSS, M. I. Kalinin, disse que a ajuda soviética à Tchecoslováquia pode ser fornecida “sem esperar pela França”.

No telegrama cifrado de Litvinov de 26 de julho, Aleksandrovsky foi instruído a informar a Beneš: “Nossos contatos com a França e a Tchecoslováquia, além de prestar assistência em caso de guerra, também têm o objetivo de prevenir ou reduzir o perigo de guerra em certas partes da Europa. Diante da ameaça que paira agora sobre a Tchecoslováquia, deve ficar claro para o mundo inteiro que o pacto soviético-tchecoslovaco cumpre essa sua função, que ele é o maior, senão o único, fator principal para aliviar a tensão em torno da Tchecoslováquia”.

Inevitavelmente, surgiu a questão sobre as condições “técnicas” de prestar assistência. Uma vez que a União Soviética e a Tchecoslováquia não tinham fronteira comum, o Exército Vermelho deveria atravessar a Polônia ou a Romênia. O governo polonês, que era extremamente hostil à URSS e pretendia uma parte do território tcheco, dificilmente poderia dar tal consentimento. Ao mesmo tempo, como Beneš considerava, havia algumas chances de chegar a um acordo com Bucareste. Ele disse isso a Aleksandrovsky, referindo-se aos parágrafos 16 e 17 do estatuto da Liga das Nações, que permitiam o direito de passagem para ajudar um membro da organização que fosse atacado.

Em 3 de setembro, o representante plenipotenciário informou: “Beneš observou que certa vez tinha dito a Litvinov e a Titulescu que o acordo com a Romênia sobre a passagem do Exército Vermelho por seu território já existe na forma correspondente ao estatuto da Liga das Nações, à qual pertencem todos os três países”. No dia 19 de setembro, Aleksandrovsky informou ao governo sobre a intenção de Beneš, no caso de um ataque da Alemanha, dirigir-se imediatamente ao Conselho da Liga das Nações com um pedido para pôr em vigor os parágrafos 16 e 17.

O presidente da República da Tchecoslováquia sublinhou a capacidade de luta das forças armadas do país, prontas para repelir o ataque do agressor. Em 18 de maio, durante conversa de uma hora com o plenipotenciário, ele “pediu transmitir a Stalin, Molotov, Voroshilov e Litvinov que não se retiraria em nenhuma circunstância da atual base democrática de sua república e defenderia o regime de seu Estado e suas fronteiras por todos os meios à sua disposição”.

Ao mesmo tempo, ele estava ciente de que o Reino Unido e a França estavam fazendo um jogo duplo e tentavam nem tanto preservar a paz quanto usar a situação que existia para formar uma coalizão anti-soviética. Segundo ele (conversa com Aleksandrovsky em 28 de julho), a questão era renovar o “pacto dos quatro”, assinado por representantes da Alemanha, Itália, Grã-Bretanha e França em 1933, dirigido contra a União Soviética. “Os ingleses” – disse o presidente, considerando acertadamente Londres a força motriz desse plano -, “querem colocar um cabresto em Hitler, e para isso eles devem pagar com a Tchecoslováquia, sem uma solução militar para a questão”.

Em 2 de setembro, a França se dirigiu pela primeira vez à URSS com um questionamento oficial: prestaria assistência à Tchecoslováquia? Embora a liderança soviética quase não tivesse dúvidas de que os franceses eram ardilosos, não negligenciava nenhuma oportunidade de consolidar o sistema de segurança coletiva, e no dia seguinte deu uma resposta afirmativa. A França foi convidada a tomar as medidas necessárias para influenciar a Polônia e a Romênia, a fim de obter o consentimento para a passagem das unidades do Exército Vermelho por seu território.

Então, nos primeiros dias de setembro, o governo soviético ofereceu ao Reino Unido e à França um programa concreto de medidas:

1) A convocação imediata de uma reunião tripartite e a publicação em nome dos três Estados de uma declaração alertando a Alemanha que, em caso de agressão, a Checoslováquia será apoiada.

2) Comunicação urgente à Liga das Nações com um chamamento para constatar a ameaça de agressão alemã contra a Tchecoslováquia.

3) Convocar uma reunião de representantes dos governos da URSS, França e Tchecoslováquia para resolver questões práticas de ação comum entre as forças armadas desses Estados, a fim de combater a agressão.

Discursando na Liga das Nações em 21 de setembro, Litvinov registrou novamente a disposição da URSS de cumprir suas obrigações com o pacto de assistência mútua com a República da Tchecoslováquia e, junto com a França, prestar assistência a ela “de maneiras exequíveis”.

O Comando soviético pôs em estado de prontidão de combate a grandes unidades militares – corpo de tanques, 30 divisões de infantaria e 10 de cavalaria, sete de blindados, uma brigada de infantaria motorizada e 12 brigadas de aviões, soldados de defesa aérea. Estes agrupamentos, unidos com as forças militares da Tchecoslováquia e da França, superavam significativamente as forças da Alemanha nazista. No entanto, as propostas de Moscou não receberam apoio nem da Grã Bretanha, que intensificava seus contactos com os nazistas; nem da França, que se interessava apenas formalmente pelas opiniões soviéticas e não se dispunha a salvar a Tchecoslováquia.

ACORDO

Desde o início de setembro, houve uma pressão maciça desses Estados sobre Praga para obter um consenso sobre a transferência para a Alemanha dos Sudetos e outras terras da Checoslováquia. Segundo Beneš, aconteceu uma “pressão inacreditável” da Inglaterra e uma “frenética pressão anglo-francesa”.

Nos dias 15 e 16 de setembro, em uma reunião com Hitler em Berchtesgaden, o primeiro-ministro britânico N. Chamberlain concordou com um plano, segundo o qual deixariam para a Alemanha as regiões da Tchecoslováquia onde os alemães representavam mais de 50% da população. Onde a população alemã era minoritária, se concederia sua autonomia. Com isso, todos os acordos existentes da Tchecoslováquia, incluindo com a França e a URSS, foram cancelados, o que implicou o desmantelamento do sistema de segurança coletiva.

Em 19 de setembro, os representantes oficiais britânicos e franceses entregaram a Beneš o ultimato hitlerista, especificando que, em caso de recusa, ele não deveria contar com o apoio desses Estados. No entanto, a princípio, o presidente e o governo da República tcheca rejeitaram o ultimato. Na noite de 20 de setembro, Beneš convocou Aleksandrovsky apressadamente, com o pedido de confirmar a posição da URSS. Logo recebeu uma resposta clara e precisa: Moscou viria em socorro, mesmo nas condições em que Londres e Paris ficassem abertamente do lado da Alemanha hitlerista.

O apoio soviético deu esperança à sociedade da Tchecoslováquia. “Nas grandes massas do povo tcheco – relatou Aleksandrovsky – há uma convicção inabalável de que a União Soviética não deixará o povo à mercê do fascismo selvagem de Hitler e ajudará em todas as circunstâncias e independentemente das possibilidades formais e obstáculos… Uma disposição especialmente firme para lutar reina nas fileiras do exército desde os simples soldados até o alto comando. Uma mobilização geral foi realizada no país, um exército de meio milhão e todas as forças aéreas estão preparados para repelir o ataque”.

No entanto, a Grã-Bretanha e a França aumentaram a pressão. Na noite de 21 de setembro os chefes das missões diplomáticas desses países foram uma vez mais até o presidente, dizendo que, recusando-se a aceitar a sua oferta, “vai correr o risco de provocar uma guerra”, Beneš e o governo da Tchecoslováquia, “submetendo-se a uma pressão sem limites”, decidiram não agravar a situação, desde que todas as mudanças políticas e legais no status das áreas disputadas da República da Tchecoslováquia fossem realizadas sob controle internacional, por etapas, ao longo de pelo menos vários meses. Em conversa com Aleksandrovsky em 21 de setembro, Beneš explicou que “um acordo sobre concessões territoriais será determinado por uma comissão internacional e pela não presença de tropas alemãs no território” (de uma conversa com Aleksandrovsky no dia 22 Setembro).

O presidente da República da Tchecoslováquia se recusou a acreditar que Londres estivesse jogando “não apenas de um lado só” e fosse capaz de uma traição vil e cínica. No entanto, no seguinte encontro com Hitler em Bad Godesberg, em 22-23 de setembro, o líder britânico em nada contradiz o líder dos nazistas, que agora insistiu na plena ocupação da Tchecoslováquia com população alemã, independentemente de que fosse maioria ou minoria. Ao memorando alemão recebido por Beneš em 25 de setembro se anexava um mapa “de divisão do território da Tchecoslováquia” que, segundo avaliação de Aleksandrovsky, “absolutamente sem nenhuma dúvida representa a simples eliminação desse Estado, porque o que restaria será completamente insustentável em qualquer aspecto, até mesmo como um Estado dependente”.

Praga reagiu indignada. Em 25 de setembro, o enviado da Tchecoslováquia a Londres, Y. Massarik, enviou uma nota ao Ministério das Relações Exteriores observando: “Meu governo estudou o conteúdo do memorando. Suas propostas vão muito além do que concordamos no chamado plano anglo-francês. Ele nos priva de qualquer garantia de existência nacional. Teríamos que entregar grandes empresas de defesa, cuidadosamente preparadas, e permitir que o exército alemão penetrasse no país antes que pudéssemos organizá-lo na nova base e nos prepararmos para sua defesa. Nossa independência nacional e econômica praticamente desapareceriam… Todo o processo de movimento populacional se reduzirá à debandada e à partida daqueles que não querem aceitar o regime dos nazistas alemães. O meu governo pede-me que declare, da maneira mais oficial, que as exigências de Hitler na sua forma atual são absoluta e incondicionalmente inaceitáveis para nós. Diante dessas novas e severas exigências, meu governo se sente obrigado a tomar medidas para uma resistência firme e faremos isso com a ajuda de Deus. O povo de São Venceslau, Janus Hus e Thomas Masaryk não será um povo de escravos”.

Chamberlain, extremamente irritado, enviou uma carta a Beneš, entregue às cinco da tarde de 27 de setembro. Dizia que se até às 14 horas do dia seguinte as autoridades tchecas não fossem ao encontro de Hitler, seria dada a ordem para que as tropas alemãs atravessassem a fronteira. O chefe do gabinete britânico escreveu que isso poderia levar a uma nova guerra mundial e a este respeito ele “não pode assumir a responsabilidade de aconselhar qualquer coisa à Tchecoslováquia”. Na verdade, era uma ameaça velada. Jogaram Praga à deriva, mas ainda deixaram entender que iriam culpá-la pela eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Beneš não desistiu, acreditando que o exército nacional, com apoio soviético, seria capaz de repelir o agressor. No final da noite de 27 de setembro, ele informou Aleksandrovsky sobre a carta de Chamberlain e enfatizou que, com o início da invasão, seria altamente desejável obter primeiramente o apoio aéreo da URSS. “Segundo informações confiáveis, pelo menos 800 aviões alemães concentram-se nas fronteiras da Tchecoslováquia. Hitler tentará no primeiro dia tirar Praga da face da terra. Apenas a aviação soviética pode oferecer séria resistência”.

No entanto, mesmo nesses últimos dias de setembro, a liderança da Thecoslováquia manteve a esperança de uma solução pacífica da situação de crise, que não teria consequências catastróficas para o país. Cenários de compromisso foram novamente considerados, incluindo aqueles propostos pelos britânicos. Um deles limitava a entrada imediata de tropas alemãs pelas cidades de Gerland e Ash, que ficavam fora da zona de defesa tcheca. Ao longo da República foi realizada a desmobilização, as tropas foram retiradas das áreas disputadas, e em uma das cidades da região dos Sudetos, em 3 de outubro, começou o trabalho da conferência dos comissários plenipotenciários tchecos, alemães e britânicos, que iria definir o seu futuro. Para garantir a segurança e o controle, observadores britânicos e quatro batalhões do exército britânico foram enviados para lá.

É desnecessário dizer que os hitleristas simplesmente descartaram esse tipo de cenário. No que diz respeito aos britânicos, ao que tudo indica, eles deliberadamente enganaram Praga e, simultaneamente, pelas costas dela concordaram com Berlim. Desde Londres mandaram sinais encorajadores: se os alemães demonstrassem intransigência, então não restaria nada a fazer, a não ser dar-lhes uma resistência conjunta. Mais tarde, o ministro das Relações Exteriores da República da Tchecoslováquia, K. Krofta, comentava com Aleksandrovsky: “… Um dia antes de Munique, a Grã-Bretanha e a França alimentavam de todas as formas no governo da Checoslováquia a ilusão da inevitabilidade da guerra e da sua participação nela. Os tchecos criaram um clima de alto astral, porque todas as pessoas preferiam a guerra ao cumprimento das exigências de Hitler…”.

Sua contribuição para essa vergonhosa conivência foi trazida pelo presidente dos Estados Unidos, Roosevelt, que enviou uma mensagem pessoal a Hitler, bem como aos chefes de governo da Tchecoslováquia, Grã-Bretanha e França, com a proposta de convocar uma Conferência Internacional para “impedir a guerra”. Nestas circunstâncias, o resultado da conferência foi bastante previsível.

Em Munique, não permitiram a presença da Tchecoslováquia nem da União Soviética. Na história da diplomacia, este é um exemplo sem precedentes de uma violação aberta do direito internacional e das normas éticas universalmente reconhecidas. Sem qualquer discussão de fundo, as partes aprovaram o projeto de acordo preparado pela Alemanha, no qual os Sudetos e várias outras regiões foram separadas da Tchecoslováquia. O país perdeu 1/5 do seu território, cerca de 1/4 da população, grandes instalações militares e industriais, metade das empresas de mineração e metalurgia, fábricas militares.

O pano de fundo do acordo era puramente anti-soviético. O representante do comando militar tcheco, general K. Gusarek, informou a Aleksandrovsky que “em Munique, Hitler conseguiu convencer Chamberlain e Daladier, que nesta situação o maior perigo para a Europa não era ele, mas a União Soviética”, que “é objetivamente o posto avançado bolchevique”, e este convencimento tornou-se “uma criação real – não formal – de um bloco de quatro contra a URSS”. Isto levou à conclusão de que “se a Tchecoslováquia resistisse hoje – e disso resultasse a guerra -, ela se transformará imediatamente em uma guerra da URSS contra toda a Europa. É possível que a URSS ganhe, mas a Tchecoslováquia será varrida de um modo ou de outro e riscada do mapa”.

Quando chegou a notícia sobre o Acordo de Munique, Praga ainda hesitava e se recusava a capitular completamente. É o que se vê pelo telegrama cifrado de Alexandrovsky, que foi recebido em Moscou às 17 horas do dia 30 de setembro. O plenipotenciário assinalava: “Beneš pede fazer a seguinte pergunta ao governo da URSS: As grandes potências, mesmo sem perguntar à Tchecoslováquia, vergonhosamente a sacrificaram para a Alemanha, por seus próprios interesses. A decisão final das formalidades cabe à Tchecoslováquia. Isso significa que ela está perante uma escolha: ou começar uma guerra com a Alemanha, tendo contra ela a Inglaterra e a França – pelo menos em termos das relações com seus governos, que manobram a opinião pública retratando a Checoslováquia como a causa da guerra -, ou capitular frente ao agressor. Ainda não está claro qual será a posição do parlamento e dos partidos políticos. Deixando essa questão aberta, Beneš quer conhecer a atitude da URSS em relação a essas duas possibilidades, ou seja, continuar lutando ou se render. Ele deve saber disso o mais rápido possível e pede uma resposta entre as 18-19 horas, hora de Praga, isto é, às 20–21 horas de Moscou”.

A União Soviética não teve tempo de reagir a este último e desesperado pedido de ajuda. Quarenta e cinco minutos depois desse telegrama, chegou uma segunda mensagem cifrada, na qual Aleksandrovsky informou sobre a decisão de Praga de aceitar os termos de Munique. “Beneš não insiste mais na resposta a seu último apelo, porque o governo já tomou a decisão de aceitar todas as condições. A ocupação dos Sudetos pelas tropas alemãs começará amanhã de manhã”.

Como logo ficou claro, recusar definitivamente a possibilidade de resistência de Praga influenciou a posição da Polônia, que declarou sua intenção de atacar a Tchecoslováquia em conjunto com os nazistas.

MAPA VENCEDOR

O Acordo de Munique previa a satisfação das reivindicações territoriais que a Polônia fazia à República da Tchecoslováquia (várias regiões da Silésia, principalmente a região de Teshinskaya) e da Hungria (sul da Eslováquia, Ucrânia Transcarpática). Esses dois Estados foram na esteira da caminhada alemã, esperando assim fortalecer suas influências no continente e, ao mesmo tempo, “lucrar” à custa do vizinho.

Um zêlo especial demonstraram os poloneses que, durante a primavera, o verão e o começo do outono de 1938, formaram unidades militares para a invasão da Tchecoslováquia. Em 22 de setembro, Krofta pediu para transmitir a Moscou que “a Polônia concentra-se em toda a fronteira com a Tchecoslováquia”.

Durante as horas mais tensas do dia 30 de setembro, quando o destino da nação dependia da decisão do presidente e do governo, o Estado-Maior do exército da Tchecoslováquia comunicou: a intervenção militar na Polônia mina completamente a defesa nacional. A partir da conversa com Gusarek, Aleksandrovsky soube que o governo solicitou a opinião do Estado-Maior, sobre se a Tchecoslováquia “pode, e por quanto tempo” resistir “ao ataque simultâneo de Alemanha, Polônia e Hungria”. A resposta foi decepcionante: “não pode e será destruída em um curto espaço de tempo. Contra a Alemanha sozinha, mesmo sem qualquer outra ajuda, o exército pode resistir por um longo prazo, com base em três linhas de fortificações. Mas a fronteira com a Polônia e a Hungria não está fortalecida. Com a participação desses países na guerra o front seria ampliado para três mil e quinhentos quilômetros”.

O governo tcheco esclareceu se o exército do país exército poderia ou não resistir até a chegada da ajuda soviética. “A resposta do Estado-Maior foi: ajuda aérea da União Soviética poderia chegar em dois ou três dias, mas esta assistência é limitada pelo estado dos aeródromos da Tchecoslováquia, pelas reservas de combustível e pelas munições. O que pode receber tecnicamente a Tchecoslováquia não vai jogar um papel significativo na guerra contra três vizinhos ao mesmo tempo”. Sobre a questão das forças de artilharia, o Estado-Maior respondeu que se a Romênia vai deixar passar o Exército Vermelho, ele pode fornecer uma ajuda significativa em três ou quatro semanas, e se “não deixam passar e o Exército Vermelho vai ter que lutar, ele provavelmente só chegaria depois da derrota completa e destruição do exército da Tchecoslováquia”.

A invasão do corpo expedicionário polaco foi preparada na noite de 30 de setembro a 1º de outubro, e Varsóvia pretendia impor a Praga a responsabilidade de ser o “agressor”. Para este fim, a agência de notícias polaca divulgou informações sobre o “incidente” na fronteira entre a Polônia e a Tchecoslováquia, durante o qual os checos supostamente “dispararam contra os polacos”. Posteriormente, a própria Polônia se tornaria vítima de uma ação provocativa quando na noite de 1º de setembro de 1939 os alemães organizaram o “ataque polonês” (soldados SS vestidos com uniformes poloneses) a uma estação de rádio em Gleiwitz, que serviria como pretexto para a eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Às onze e meia da noite de 30 de setembro, o enviado polonês chegou até Krofta exigindo a transferência de distritos da Silésia (Fristadt, Teschen, Yablunkov) para a Polônia. No mapa anexado ao documento, eles foram divididos em três zonas. A primeira deveria ser transferida em 24 horas, a segunda – nas seguintes 24 horas, a terceira – em seis dias. Foi apontado mais um local, no qual se encontravam os poloneses e onde insistiam em realizar um plebiscito, mas sem controle internacional, o que foi categoricamente rejeitado.

Havia pouco tempo para uma resposta – até às 14 horas do dia 1º de outubro. O início da transferência dos territórios incluídos na primeira zona era previsto imediatamente. O documento continha “uma frase muito insultante: em relação com uma série de circunstâncias, e também porque o governo polonês não pode mais acreditar nas declarações feitas em nome da República da Tchecoslováquia, é claro que ele deve se sentir compelido a tomar as medidas para concretizar a promessa tcheca”.

Na tarde de 1º de outubro, Aleksandrovsky recebeu a confirmação do gabinete presidencial de que “o governo capitulou ante o ultimato polonês”.

O líder dos social-democratas da Tchecoslováquia, deputado Hamil, em uma conversa com Aleksandrovsky, disse que “o erro soviético-tcheco foi que eles não viram que a Polônia era ‘a chave para a situação’ ”.

RESULTADOS E AVALIAÇÃO

Em setembro de 1938, houve uma oportunidade real de fornecer proteção à Tchecoslováquia, conter o agressor e impedir a Segunda Guerra Mundial. Essa chance não foi usada por culpa das principais potências ocidentais que acreditavam que a Alemanha hitlerista era menos ruim para elas do que a URSS, na esperança de evitar um confronto militar com o Terceiro Reich, forçando-o a tomar o “espaço vital” no Oriente.

Autores de interpretações históricas tendenciosas opõem o Acordo de Munique ao pacto de não-agressão soviético-alemão em 23 de agosto de 1939. No primeiro caso, dizem que as democracias ocidentais tentaram preservar a paz e, no segundo caso, que regimes totalitários desencadearam a guerra. No plano político, esse esquema é francamente oportunista e, no científico, não resiste a uma crítica séria.

É impossível manter a paz cedendo constantemente ao agressor, pois a partir disso seus apetites só crescem. Hitler chantageou a Europa e nunca parou no que conseguia. A política de “apaziguamento” o convenceu da fraqueza das democracias ocidentais, que entregaram posição após posição, e, finalmente, elas mesmas se tornaram presas fáceis. Pela definição de W. Churchill, escolhendo entre a desonra e a guerra, Chamberlain escolheu a desonra e teve a guerra.

Para Hitler, Munique tornou-se um argumento decisivo a favor de agressão em grande escala na Europa. As garantias de que nos Sudetos sua expansão pararia não valiam um tostão. O ministro das Relações Internacionais da República da Tchecoslováquia, Krofta, disse: “A Tchecoslováquia foi transformada em uma ficção, um Estado sem qualquer valor, sem sua própria linha de comportamento. Não está longe o tempo em que se tornará um apêndice flácido da Alemanha”. E foi isso o que aconteceu. As prometidas garantias britânicas e francesas de suas novas fronteiras provaram ser uma ficção. Em março, todo o país entrou no III Reich sob a forma de um Estado eslovaco fantoche e do Protetorado da Boêmia e da Morávia. A crise da Tchecoslováquia terminou com a eliminação de mais um Estado no mapa da Europa.

Depois de Munique, a Grã-Bretanha e a França assinaram com Hitler declarações de não-agressão, abrindo o caminho para a agressão nazista no Oriente. A URSS ficou praticamente em completo isolamento internacional. Seu protesto contra a ocupação da Tchecoslováquia (nota ao governo alemão em 18 de março de 1939) não teve o apoio de Londres e Paris, assim como a proposta de discutir essa questão na Liga das Nações.

No entanto, Moscou fez mais uma tentativa de chegar a um acordo com Londres e Paris sobre assistência mútua, incluindo assistência militar, estendendo-a aos estados da Europa Oriental localizados entre os mares Báltico e Negro e fazendo fronteira com a URSS. Essa iniciativa foi apresentada pelo governo soviético em 17 de abril de 1939, o que levou às negociações soviético-anglo-francesas em Moscou. As chances de formar uma coalizão anti-Hitler eram grandes, mas Londres e Paris estavam segurando as negociações, considerando-as, antes de mais nada, como uma forma de chegar a um acordo com a Alemanha às custas da URSS. Isso também foi evidenciado pelos contatos secretos anglo-alemães relatados a Moscou por espiões soviéticos em Londres.

A experiência das relações da União Soviética com o mundo ocidental prometiam pouco: a intervenção armada de 1917-1920, o bloqueio econômico, a política de cordão sanitário, as provocações militares e diplomáticas, o apoio ao fascismo alemão e ao militarismo japonês. Não se podia ignorar a recente traição de Munique. Assim, vários fatores fortaleceram a desconfiança da liderança soviética em relação aos parceiros e acabaram forçando-a a mudar de rumo para não enfrentar a frente consolidada das potências ocidentais.

Informações que chegaram a Moscou sobre a preparação praticamente finalizada do ataque da Alemanha à Polônia também jogaram seu papel. Era impossível admitir que, no caso de sua derrota, os alemães chegassem perto de Minsk. Isso criava uma situação perigosa para a área estratégica central de Moscou-Smolensk e, no sudoeste, para a área estratégica de Kiev.

O tratado de não-agressão de 23 de agosto não foi a principal causa da Segunda Guerra Mundial. O ataque à Polônia foi preparado muito antes disso e teria ocorrido, independentemente do pacto com a URSS, dentro dos prazos estabelecidos por Hitler em abril de 1939 – “no máximo em 1º de setembro”. Em meados de agosto, o exército alemão estava totalmente mobilizado e pronto para executar o plano “Weiss”.

O tratado de não-agressão germano-soviético deve ser avaliado no contexto da política real da época e as condições específicas que caracterizaram a véspera da Segunda Guerra Mundial. Hoje é fácil falar sobre sua imoralidade, esquecendo que toda a política externa naquele tempo não se caracterizava pela moralidade e em muito se resumia à redistribuição territorial a favor dos mais fortes. De fato, a URSS venceu a Grã-Bretanha e a França em seu próprio campo, seguindo as regras propostas por elas. Neste caso, em contraste com o Acordo de Munique, que entregou aos nazistas um país europeu inteiro e a sua população (incluindo judeus sujeitos à aniquilação total), o contrato datado de 23 de agosto de 1939 tirava da esfera de influência alemã grandes áreas do oeste da Ucrânia e Bielorrússia e os Estados bálticos, salvando seus habitantes da “nova ordem” e do Holocausto. Ele melhorou significativamente as posições estratégicas da URSS e deu uma certa pausa antes da inevitável batalha contra a Alemanha nazista.

Para a liderança soviética, a assinatura do tratado foi uma medida excepcional em circunstâncias excepcionais, a única alternativa à nova conspiração de Munique, desta vez à custa da URSS.

Departamento Histórico-Documental do Ministério das Relações Exteriores da Rússia

Tradução: Hora do Povo

Originalmente publicado por: Hora do Povo

Fonte: https://horadopovo.org.br/acordo-de-munique-1938-o-limiar-da-catastrofre/

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