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As razões que guiaram a virada pró-Rússia de Emmanuel Macron


Por Isabelle Lasserre para Le Figaro

Traduzido do original por Paulo Roberto de Macedo-Soares


Vladmir Putin e Emmanuel Macron no Fort Bregançon. Sputnik News.


A inclinação do presidente vis-à-vis (expressão oriunda da língua francesa e que possui o significado de "cara a cara" ou "face a face", ou seja, duas pessoas ou situações que são apresentadas de lados opostos, confrontando-se ou comparando-se) este grande país que ele quer ver europeu, sua atração pela Rússia eterna que foi esclarecida pelo Iluminismo, tem raízes antigas. Com a Rússia de Vladimir Putin, os presidentes franceses conheceram altos e baixos, esperanças e decepções, mãos estendidas e depois torcidas pelo Kremlin.

Mas jamais algum dentre eles levou tão longe quanto Emmanuel Macron o flerte com a Rússia, até imaginar para os dois países um futuro comum. Jean-Yves Le Drian fala de uma “inflexão manifesta”. Trata-se de uma verdadeira guinada, preparada, amadurecida e refletida.

Se compara-se a desconfiança inicial de Emmanuel Macron quanto à Vladimir Putin, que apostou em Marine Le Pen e lançou seus órgãos de propaganda ao assalto do candidato durante sua campanha, ao discurso entusiástico que ele pronunciou perante os embaixadores em fins de agosto, o presidente francês parece ter tomado uma curva em ângulo reto. mas sua inclinação face este grande país que ele quer ver europeu, seu encanto pela Rússia eterna que foi esclarecida pelo Iluminismo, tem raízes antigas. Quando ele era ministro das finanças, ele já defendeu Moscou pelo levantamento das sanções.

Desde o convite feito a Vladimir Putin na galeria das batalhas, em Versalhes, em maio de 2017, os gestos de reaproximação, objeto de uma lenta maturação alimentada pelo antigo ministro Jean-Pierre Chevènement, não fizeram senão se multiplicar. Após o diálogo do Trianon entre as sociedades civis este ano, o retorno da Rússia ao Conselho da Europa foi orquestrado pela França em junho de 2019. A visita ao Fort de Brégançon foi uma nova etapa do reaquecimento. Antes da apoteose do discurso aos embaixadores. Entrementes, o presidente francês também flexionou sua linguagem, falando de um simples “gesto militar” para evocar a anexação da Criméia. Outros encontros são previstos, como a possível participação de Emmanuel Macron no 75º aniversário da Segunda Guerra Mundial, em Moscou no próximo ano. Neste ínterim, a reunião 2 + 2 ⎯ os ministros dos negócios estrangeiros e da defesa ⎯ na capital russa é um passo suplementar na consolidação da relação bilateral. “Isso não será a grande noite, mas a retomada do diálogo estratégico com a Rússia, que tinha sido abandonado”, comenta uma fonte no Eliseu.

As razões da mudança de rota são numerosas. Combinadas, elas explicam também porque a virada acentuou-se durante o verão. A princípio, certamente há a personalidade diplomática do presidente, livre de reservas ideológicas, inspirada pelo pragmatismo, que dita a fórmula, válida em todas as áreas, de “ao mesmo tempo”. Há juntamente uma análise inquietante do estado do mundo. “Não se pode compreender a relação com a Rússia se não considerada dentro da política externa global da França. A desconstrução dos mecanismos de gestão de crise e da ordem multilateral tornou-se muito perigosa. Ela deve ser neutralizada. A França quer contribuir com a emergência de uma nova ordem internacional”, resume uma fonte no Eliseu. A análise e a ambição francesas, baseadas no longo prazo, alimentam-se de uma constatação realista: desde o seu grande retorno à cena internacional, a Rússia é indispensável à resolução das grandes crises do momento. Ela é uma peça indispensável nos quebra-cabeças da Síria, Líbia, Irã e Ucrânia, quatro temas nos quais a diplomacia francesa está muito comprometida.

Há enfim as ocasiões, que forneceram a oportunidade dos grandes discursos e das iniciativas. A presidência francesa do G7 e a do Conselho da Europa foram grandes ocasiões.


“Para Emmanuel Macron, que quer ser o grande estratega da Europa, o verão traz um formidável alinhamento cósmico”, explica Tatiana Kastoueva-Jean, especialista em Rússia no IFRI.

A eleição em Kiev de Volodymyr Zelensky, recebido no Eliseu em junho de 2019, arejou a crise ucraniana. A transição política na Alemanha, a crise governamental na Itália e o brexit na Grã-Bretanha deixaram o campo livre à Emmanuel Macron, que desde o fim da primavera desponta como o único grande líder do continente.

“Este é um ciclo presidencial clássico na França. Quando chegam ao poder, os chefes de Estado se concentram inicialmente nos Estados Unidos e na Alemanha. Em um segundo momento. eles se voltam à Rússia”, analisa Thomas Gomart, diretor do IFRI.

O elã russo do presidente foi encorajado, ademais, pela chegada aos Negócios Estrangeiros do social-democrata alemão Heiko Maas, em um momento no qual Ângela Merkel está enfraquecida e quando “a nova direção do SPD operou uma virada de 180 graus”, segundo as palavras de um diplomata.

A dificuldade de reestabelecer a dinâmica européia com Berlim e a incerteza da relação com os Estados Unidos de Donald Trump reforçou a importância da relação bilateral franco-russa.

“O período de interrogação que a UE atravessa criou um espaço que Macron quer utilizar para retomar a iniciativa. A questão que se coloca é saber se a relação bilateral franco-russa é julgada mais eficaz que a relação entre a UE e a Rússia”, prossegue Thomas Gomart.

Mesmo se seus métodos diferem, Emmanuel Macron e Donald Trump estão em harmonia sobre numerosos temas, notadamente sobre a necessidade de aproximar a Rússia da família ocidental e de contrabalançar a potência chinesa. “Não se pode negar que a ofensiva de charme de Emmanuel Macron face a Vladimir Putin antes do G7 igualmente contribuiu à benevolência de Trump com o presidente francês”, analisa o diplomata Michel Duclos para o Instituto Montaigne.

A Rússia sendo um ferrolho da maioria das grandes crises, o horizonte poderá clarear no oriente médio e a leste do continente.

Vista de Paris, a inflexão russa da política externa francesa suscita várias esperanças. Em se acreditando em Emmanuel Macron, a afirmação do caráter europeu da Rússia pode favorecer ao mesmo tempo o acalmamento de uma ordem mundial tornada selvagem e a afirmação estratégica da UE, e logo a da França. A Rússia sendo um ferrolho da maioria das grandes crises, o horizonte poderá clarear no oriente médio e a leste do continente. Arrefecida há muitos anos, a questão ucraniana foi reavivada e o Eliseu espera ressuscitar o processo da Normandia nas próximas vindouras. Os dirigentes franceses se defendem do toda ingenuidade. “Isso será ganha-ganha. E a aproximação supõe, do lado da Rússia, o reconhecimento da existência da União Européia e de suas necessidades fundamentais”, previne Jean-Yves Le Drian, ministro dos negócios estrangeiros.

Mas os riscos e os obstáculos no caminho de uma normalização não faltam. A retórica da culpabilidade ocidental utilizada por Emmanuel Macron para explicar a agressividade da Rússia é no momento considerada como um sinal de fraqueza por Vladimir Putin, que só se sente à vontade em encontros de força e sempre buscou dividir a Europa. “Difícil de conceber uma nova arquitetura de segurança na Europa com o país que a ameaça”, resume Jean-Sylvestre Montgrenier, especialista do Instituto Thomas More.

Mesmo ainda não tendo resultados, o reajuste francês face a Moscou provoca cólera e inquietação nos países do Leste, que temem o imperialismo russo.  Eles comparam então a política externa de Emmanuel Macron àquela de Barack Obama, que também se colocou em uma reaproximação com a Rússia. Esta mudança brusca de política igualmente fez da relação com a Rússia a principal linha de clivagem da política externa francesa. Mais importante que o Irã ou a Síria. Vladimir Putin, por seu lado, apresentou as mãos estendidas da França como uma das vitórias simbólicas da Rússia sobre a Europa.

“Não esqueçamos que a política externa é o tema que mais alimenta a popularidade de Vladimir Putin”, lembra Tatiana Kastoueva-Jean.

Será possível sair do impasse? “Emmanuel Macron considera que é seu dever e nosso interesse sair de uma estéril guerra de posições”, explica o antigo ministro de negócios estrangeiros Hubert Védrine. O futuro próximo dirá se os resultados são proporcionais ao esperado e ao investimento. Ou se, como as tentativas precedentes, este novo reinício chocar-se-á contra os muros vermelhos do Kremlin.

Por Isabelle Lasserre para Le Figaro



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N. do T.: No original “basées sur « le temps long »”, em referência ao conceito criado pelo historiador francês Fernand Braudel em 1949.


Original em: <http://www.lefigaro.fr/international/les-raisons-qui-ont-guide-le-tournant-prorusse-d-emmanuel-macron-20190908?redirect_premium>

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