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Bolsonaro, Moro e a nova forma de autoritarismo


Numa escola de idiomas em que trabalho, um professor foi chamado pela diretoria para uma conversa. A mãe de um adolescente com quem ele tem aula havia reclamado que o professor postava coisas esquerdistas e contra o presidente em redes sociais. A escola, ao invés de defender o professor, chamara-o para pedir que ele “maneirasse” nas redes sociais. Ele se viu obrigado a trancar sua rede social e deletou os alunos que tinha como amigos.

Na mesma semana em que vi isto acontecer com o colega professor, uma notícia chocante não teve o destaque merecido. As editoras que participam dos editoriais para venda de livros ao governo federal já estão “adaptando” seus materiais para que eles agradem ao novo governo. Os editais ainda não existem e o governo ainda não oficializou as novas exigências. As editoras, porém, já estão se mexendo para atender as exigências que ainda não existem.

Para entender a forma como funcionam os novos regimes antidemocráticos é necessário entender que eles não funcionam como as ditaduras clássicas dos anos 1960, em que, caso você dissesse algo que desagradasse o governo oficial, basicamente um guarda iria para sua casa te prender. Os novos regimes atuam de forma diferente. Basta ver como as coisa funcionam na Rússia, por exemplo. Não tenho a menor dúvida em dizer que, utilizando o simples conceito clássico, há liberdade de expressão por lá de uma forma que nunca houvera antes. Ninguém será preso apenas por dizer algo contra Putin. Mas há uma boa chance de que você enfrente problemas diversos em sua vida pessoal pela sua opinião.

Basicamente o que Bolsonaro e a Lava Jato estão montando é um regime de exceção que mantenha a aparência democrática. Fazem isso com a formação de um verdadeiro exército de seguidores dispostos a fazer o papel de fiscais da vida alheia. É a própria sociedade civil que terá o papel de pôr na linha aqueles que ousarem criticar os “salvadores”. No longo prazo, os anos de incentivo à delação premiada vai de certa forma transformar nossa sociedade em delatores. A punição, porém, não é a perda da liberdade, mas a perda do emprego.

A maior invenção da dupla Bolsonaro e Moro até o momento é o nacionalismo bocó. É um novo tipo de patriotismo que se baseia, basicamente, em cantar o hino errado a cada cinco minutos e ficar hasteando bandeiras. Ao contrário do nacionalismo clássico, não há a busca de símbolos culturais que justifiquem este nacionalismo. Bolsonaro, Moro e seu séquito sentem verdadeiro desprezo pela cultura nacional. Também não há apreço pelas empresas ou pelo patrimônio público em geral. O patriotismo é justificado da forma mais infantil possível, com cores, uniformes que são quase fantasias e slogans que lembram gritos de torcidas de futebol, tudo para manter qualquer profundidade longe do debate. O que Bolsonaro e Moro conseguem desta forma é basicamente criar em seu séquito a ideia de que eles defendem o Brasil e que todos os que estão do outro lado, portanto, não são apenas adversários políticos, mas inimigos da pátria. Está nisso a base da formação de um exército fiscalizador, pronto para denunciar e prejudicar aqueles que se proponham a enfrentar de alguma forma o regime.

A expansão das táticas da Lava Jato para as mais diversas áreas da vida é, não à toa, um dos projetos deste novo governo. A primeira medida do novo governo na área educacional, por exemplo, foi a criação de uma Lava Jato da Educação, para investigar e punir possíveis erros na área. Note que eles querem criar uma investigação para um crime que não sabem qual é e do qual não tem indícios, pretendem descobrir durante a investigação. Algo típico de um regime autoritário e paranoico. Outra medida que Moro defendeu nas últimas semanas é a criação de "delações premiadas" dentro das empresas privadas. Os funcionários receberiam bônus para denunciar o que acontece de errado na firma, um incentivo econômico à delação. Quase algo do tipo, "tive mais despesas neste mês, acho que vou fazer uma denúncia". O denuncismo se tornando política oficial.

A economicidade da vida nos transformou em pessoas medíocres. E, por incrível que pareça, faço isto com menos juízo de valor do que parece. Há uma frase numa música de Raul Seixas que acho a melhor definição de como funciona o choque entre o coletivo e o individual em nossas vidas: “Dois problemas se misturam, a verdade do universo e a prestação que vai vencer”. Todos pagamos contas, afinal. A questão é que cada vez mais pagar as contas se tornou basicamente a única preocupação da vida. Cada vez mais a prestação que vai vencer, cada vez menos a verdade do universo. Muitas pessoas já estão silenciando e sendo, portanto, coniventes com os abusos da gestão Bolsonaro-Moro antes mesmo que exista alguma imposição legal para isto, apenas com medo de que isto possa prejudicar seu emprego. Às vésperas da eleição, participei de um jantar com jornalistas descolados de diferentes meios de informação. Todos votaram em Haddad, nenhum deles fazia campanha abertamente. O motivo era o medo de que isto pudesse significar broncas no trabalho.

Esta economicidade é o maior instrumento que os novos regimes autoritários utilizam no processo de controle social. Forma-se um séquito disposto a investigar e denunciar pessoas que enfrentem o regime, mas não ao governo, e sim ao chefe. É muito provável, por exemplo, que é isto que tenha acontecido por exemplo no caso de Marco Antônio Villa. Duvido que tenha havido alguma ação oficial do governo solicitando sua demissão da rádio Jovem Pan. A rádio, contudo, deve ter recebido inúmeras reclamações de ouvintes do séquito, ameaçando diferentes tipos de boicote caso a rádio seguisse permitindo que Villa ousasse criticar Bolsonaro. O mesmo aconteceu no passado com Reinaldo Azevedo e vem acontecendo com Rachel Sheherazade, antigos ícones do antipetismo que agora lidam com o monstro que criaram. Todos cresceram e ganharam destaque acusando uma falsa perseguição petista e estão provando agora o que é uma verdadeira perseguição, realizada pelos monstrinhos que por anos foram seus ouvintes. SBT, Record, Rede TV e Bandeirantes já estão totalmente alinhadas com o novo governo em troca de patrocínios milionários. Qualquer crítica nestas redes já está, desta forma, proibida. A proibição vem da grana, e não do tanque.

Pense na sua vida pessoal. Reflita se você tem amigos ou conhecidos que resolveram maneirar nas redes sociais ou simplesmente saíram dela por “não aguentarem mais”. Pois é, a nova ditadura de certa forma já começou. Dessa vez quem cala não é o tanque. É o medo de perder o emprego. O alinhamento ao novo regime é para muitos uma questão financeira e quem quiser ser a resistência de verdade deve ter isto em mente. As coisas acontecem sem que nos demos conta. Muitos já silenciaram.


* Este texto não reflete necessariamente a opinião de Sputnik Commercial & Consulting

S O B R E O A U T O R

O COLUNISTA SPUTNIK JOÃO GABRIEL OLIVEIRA É ECONOMISTA FORMADO PELA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, EM SUA  COLUNA ABORDA POLÍTICA, ESPORTES, TV, CINEMA, RELIGIÃO E MUITO MAIS.

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