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As redes sociais e a desintegração da democracia

Assisti ontem uma entrevista de Aldous Huxley realizada pouco após o lançamento de Admirável Mundo Novo. O autor foi questionado sobre qual seria para ele a grande ameaça à democracia no mundo moderno. Sua resposta foi: avanço tecnológico. Embora o autor se referisse muito mais a ideia de vigilância completa que este avanço traria, sem ter ideia de que algo como redes sociais pudesse existir algum dia, talvez estejamos no processo de verificação de que o inglês estivesse certo em sua previsão.

Não dá pra dizer que esta é a eleição das redes sociais. Ainda vivemos num país em que o maior instrumento de informação é a televisão. Mas sem dúvidas o impacto destas redes cresce a cada eleição. Já foi assim em 2014, 2016 e agora em 2018. E continuará sendo assim até que, provavelmente, em algum momento estas redes superem a televisão. A forma como a campanha é feita nos dois meios é totalmente distinta.

Os candidatos começaram a participar das sabatinas feitas por emissoras de TV. Já assisti às realizadas na TV Cultura, na Globonews, na Bandeirantes e na Gazeta. A conclusão a que cheguei é que na verdade quase ninguém assiste a estas sabatinas. Elas servem atualmente apenas para duas coisas. Para o jornalista tentar aparecer e ganhar prestígio é a primeira. E para que o candidato ou a candidata tentem criar pequenos momentos de no máximo dois minutos que possam ser usados em redes sociais.

Rede social não serve para refletir. Serve para que grupos se fechem entre si e vivam em mundos paralelos. Isto se faz com radicalismo e agressividade. A maioria dos vídeos de política compartilhados, independente do lado, vem sempre com verbos como “lacrar”, “humilhar”, “destruir” e “calar”. Candidato A humilha jornalista “petralha”. Candidato B destrói argumentos de jornalista “imperialista”. Os candidatos mais preparados vão a estas sabatinas atrás disso.

Seguindo esta lógica, ninguém tem ido tão mal nestas sabatinas quanto Alckmin. Os motivos são dois. O primeiro é que ele não tem o perfil de quem sabe se impor da forma como os consumidores das redes sociais exigem. Muito raramente ele “lacra” ou “humilha”. A segunda é que sem dúvida ele é o candidato favorito de todos os grandes meios de comunicação, tendo assim uma entrevista mais fácil e sem confrontos do que os demais. Isto o prejudica, pois é a partir destes confrontos que surgem os vídeos que tanto sucesso fazem nas redes sociais. A repercussão que ele tem tido destas entrevistas é zero, ainda mais se compararmos com o que acontece com o candidato fascista.

Tenho poucas dúvidas de que a escolha de Ana Amélia como sua vice tem a ver com isto. A senadora pelo RS é membro do MBL, possivelmente a maior fábrica de notícias falsas da internet brasileira. Se Alckmin não sabe “lacrar”, Ana Amélia sabe. A senadora ganhou grande popularidade com um vídeo em que confunde a emissora árabe Al Jazeera com o grupo terrorista Al Qaeda e em que destila preconceitos contra os praticantes do islamismo. A escolha de Ana Amélia dará forças para Alckmin nesta guerra. Fará o trabalho da “lacração”.

Não há dúvidas de que nas grandes cidades as redes sociais impactam mais do que em outras regiões. Os resultados das eleições municipais de 2016 já comprovam isto, com a vitória de candidatos que souberam muito bem utilizá-las. Em SP ganhou um palhaço egocêntrico que soube como ninguém entender que o eleitorado queria soluções fáceis e gritos de ódio em vídeo de um minuto e meio. Algo semelhante aconteceu em Porto Alegre. No RJ ganhou um pastor evangélico, em BH um presidente de clube de futebol, ambos com pouco tempo de TV, mas fazendo uma forte campanha nas redes sociais. Não à toa em quase todas as capitais das regiões Sul e Sudeste a liderança pertence ao candidato fascista.

As redes sociais nos fecharam em bolhas. Lemos apenas coisas com as quais concordamos e vídeos curtos contendo o que chamamos de “verdades absolutas”, ou “lacração”. Não adianta tentar explicar para um bolsonete quais os impactos que a escravidão tem até hoje sobre a nossa sociedade. Ele acha que o que o candidato fascista disse é verdade e está cercado de pessoas que pensam como ele. Tentei numa discussão por Facebook argumentar com um deles utilizando um trecho do Abolicionismo de Joaquim Nabuco. Recebi como resposta um meme feito pelo MBL com risos. Somos estimulados à intransigência. Qual o caminho? Não faço ideia. Mas vendo o que acontece no mundo, não tenho dúvidas de que estamos longe do fim. A democracia se desintegra.

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Colunista Sputnik Consulting, João Gabriel Oliveira tem 34 anos, é economista formado pela Universidade de São Paulo, escreve sobre política, esportes, religião, cinema, TV e tantos outros assuntos em seu blog >> 2contraomundo.blogspot.com/

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