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ENTRAMOS NA TORMENTA SEM CAPITÃO.


"Tempestade (1851), Ivan K. Aivazovskii".

O Brasil é um navio que entrou em uma tempestade com um capitão louco, um imediato incompetente, um navegador incapaz e cuja maioria dos oficiais de bordo categoriza-se em lunáticos, corruptos ou inaptos. Esta borrasca é a pandemia de covid-19, e seus danos sociais com todos os danos econômicos dela decorrentes. Ao vislumbrar as nuvens negras no horizonte, o que fez o comando do navio foi fingir que não estavam lá, quando o mar encrespou e o vento tornou-se furioso, ainda estava o capitão Sr. Bolsonaro gritando que nenhuma providência era necessária. Nesse momento, o imediato Sr. Guedes, que foi nomeado como o mais hábil dos hábeis para conduzir o navio suprindo a falta de experiência e as idéias estranhas do capitão, ficou perdido entre considerar que enfrentava apenas uma chuva inofensiva e não saber como agir em caso diverso. O navegador Sr. Moro desapareceu, escondeu-se em alguma parte para evitar expor a própria incapacidade, coisa incomum, pois gosta mesmo de estar sempre em sob olhar da marujada defendendo a mão pesada da justiça contra todos os seus desafetos, ele foi nomeado porque seria o único capaz de indicar um caminho virtuoso em uma jornada tão importante.

Todas as instâncias do país demoraram a agir, é certo; mas umas menos que outras. Muitos governadores e prefeitos agiram para reduzir a velocidade da propagação da doença enquanto o Presidente da República dizia que não era nada perigoso. Uma mistura de insanidade com o orgulho ressentido tão típico deste governo e desta família. Recusar a aceitar os fatos, negar a realidade que desfilava em caminhões do exército italiano carregados de caixões lacrados destinados aos crematórios foi o rompimento do último fio de esperança de que ante uma crise sem precedentes, o humorista que ocupa o palácio do Planalto pudesse travestir-se de estadista, ou ao menos de Presidente da República. Esperança vã, quedamos com um bufão, um fraco, um ser minúsculo desprovido de qualquer senso de humanidade cuja primeira manifestação sobre a possibilidade de uma mortandade sem precedentes foi dizer que aquilo que todas as demais lideranças mundiais nominavam pandemia seria apenas histeria coletiva incentivada pela mídia e por seus adversários políticos. Enquanto isso seus apoiadores esboçavam a imoral idéia de que os velhos e doentes precisariam ser sacrificados para a economia não parar.

Surgiram algumas pessoas sãs no governo federal, como o ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, que começou tendo uma atitude razoável, depois titubeou, e então voltou à razão – não discutirei os méritos e deméritos de sua carreira nem de suas ações anteriores, pois trato aqui da condução da presente crise. O general Braga Netto, ministro da casa civil, está tentando controlar a situação evitando que o capitão meta o navio a pique tão rapidamente - dada a incompetência do seu chefe e da maioria dos seus colegas, isso é inexorável. Ocorre que isso está acontecendo porque, em vez de presidir o país, o Sr. Bolsonaro prefere entrar antes do tempo na corrida eleitoral atacando tudo que se mova no seu campo de visão, sejam opositores, apoiadores, membros do governo ou os alvos preferenciais de sempre, a imprensa e a esquerda. Ele emula mal a trágica figura de um capitão Ahab; vida imitando a arte como farsa, a baleia branca do nosso capitão é o comunismo imaginário, e ele está disposto a destruir tudo para matá-la, ele exterminará o que ele delirantemente acredita ser o risco da implantação do comunismo no Brasil nem que para isso ele precise exterminar todos os brasileiros – matará toda a tripulação do Pequod e afundará o navio se necessário.

A demora em desenvolver um plano para auxílio emergencial dos mais pobres e a estrutura jurídica que viabiliza o financiamento do combate à epidemia, que vieram de fora do governo - ressalte-se – e cujo valor de R$200 proposto pelo ministério da economia foi aumentado por iniciativa do Congresso Nacional para R$600, é resultado da falta de atenção que o governo dispensa aos pobres, espantosa inépcia do ministro da economia, Sr. Paulo Guedes, e da notória incompetência do Sr. ministro Onyx Lorenzoni – que foi retirado da casa civil por incapacidade e colocado no ministério da cidadania, suspeito que pela mesma incapacidade. Observe-se que a falta de materiais sanitários necessários agora, embora seja um problema estrutural de longo prazo, poderia ter algum enfrentamento com uma política industrial específica para o momento, o que não acontece em nível federal; o presidente prefere oferecer ao povo a promessa de um medicamento milagroso e sugerir jejum e oração, enquanto estimula a súcia que lhe segue, coordenada por seus filhos que buscam atrapalhar o máximo possível em todas as áreas.

Um tipo de pessoa que é o mais perigoso em qualquer situação é um incompetente, intelectualmente limitado e atuante; essa é quase a descrição do Sr. ministro Abraham Weintraub, da educação. Digo quase porque sua personalidade é enriquecida com a grosseria, arrogância e parvoíce com que orgulha todos os brasileiros letrados quando lêem o que escreve nas redes sociais, e todas as pessoas que assistem a algumas de suas atuações lamentáveis em vídeos ou entrevistas. Este ministro preferiu participar da discussão imbecil e danosa com a China promovida pelo Sr. deputado federal Eduardo “Bananinha” Bolsonaro ao estilo de seu irmão, o Sr. vereador Carlos “Abobrinha” Bolsonaro. Destarte, o Sr. Weintraub escolheu prejudicar mais ainda nossa relação com os chineses quando poderia estar se ocupando dos assuntos de sua pasta, o que seria igualmente danoso para o Brasil, mas evitaria a sobrecarga na área das relações exteriores, cuja destruição já está a cargo do Sr. ministro Ernesto Araújo.

Destarte o resumo da ópera é um navio ameaçando soçobrar antes mesmo de enfrentar o verdadeiro temporal. O governo está semi-operante, com alguns poucos integrantes tentando evitar um desastre absoluto e uma miríade de canalhas e néscios fazendo cena ou fugindo às suas responsabilidades. Ao manter a conduta o presidente dobra a aposta, em qualquer cenário poderá jogar a culpa das inevitáveis mortes, cujo número pode ser dramático ou trágico, e da igualmente inevitável crise econômica em cima dos governadores e prefeitos. Os militares podem agora tentar salvar sua imagem, pois é inegável que ao embarcarem no governo desde a pré-campanha, ainda que impossibilitados de o fazerem institucionalmente, eles comprometeram-se moralmente e historicamente com o resultado das ações criminosas do Sr. Presidente da República Jair Bolsonaro.


* Este texto não reflete necessariamente a opinião de Sputnik Commercial & Consulting.

S O B R E O A U T O R

Paulo Roberto de Macedo-Soares é formado em negócios internacionais, pós-graduado em política e relações internacionais e consultor Sputnik Commercial & Consulting. Em sua coluna escreve sobre política, economia e cultura.

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