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O lema da campanha do Sr. Presidente Bolsonaro foi estelionato eleitoral.

ou Eleitores confundiram independência com subserviência.


Por Paulo Roberto de Macedo-Soares





Vivemos tempos nos quais as acusações sobre alinhamentos e ideais alheios são apresentadas sem qualquer vínculo com a realidade ou qualquer base factual, desse modo parece-me importante que eu mesmo já apresente minhas preferências e orientações políticas e ideológicas antes de prosseguir com este texto: tenho uma forte convicção cética e humanista, politicamente sinto-me confortável no centro, tenho tendência a ser conservador em política - do conservadorismo baseado no ceticismo, na conservação de moldes institucionais e no legalismo - e liberal nos costumes. Ressalto que esse conjunto de idéias é completamente diferente do que se vem chamando de conservadorismo no Brasil há alguns anos, esses são apenas reacionários. Relembro a frase do historiador Sérgio Buarque de Holanda que disse “Não temos conservadores no Brasil. Temos gente atrasada”, confirmada pelo ex-presidente Dr. Fernando Henrique Cardoso; o que é uma verdade ao analisarmos as forças políticas atuais. Passo ao texto em si, deixando aos honestos as explicações, aos canalhas a possibilidade de me acusarem alegando ignorância dos conceitos citados, aos ignorantes a sugestão de aprenderem algo e aos burros minha condolência. Muito se debateu sobre o estelionato eleitoral da então presidente Sra. Dilma Rousseff ao concorrer à reeleição em 2014, com um discurso na campanha e atitudes contrárias após a vitória, chegando mesmo a adotar medidas que eram propostas por seus adversários e que sua campanha afirmou serem prejudiciais ao país. Esse é um conceito da ciência política, e não um tipo penal, e basicamente é a mudança do posicionamento sobre determinado assunto ou a tomada de ação contrária ao discurso prévio. Desde a nomeação dos ministros ficou claro que o tal ministério técnico não seria realidade; isso já era claro na campanha ao se analisar a realidade política brasileira e mesmo da política em qualquer outro lugar do mundo, que torna inviável um governo desconectado do mundo político. Também a promessa de rigor contra a corrupção não se manteve diante dos indícios de um esquema estarrecedor de uso de falsos candidatos para desvio de dinheiro público, das ligações da família Bolsonaro com milícias no Rio de Janeiro e da recepção de dinheiro em forma de caixa dois pelo atual ministro da casa civil, Sr. Lorenzoni. Mas é interessante notar que o atual governo não apenas mudou de posição sobre determinados pontos; ele foi falso no seu próprio lema, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Essa falsidade - esse estelionato – fica patente na atuação política externa da adotada pelo governo, que não coloca o Brasil acima de tudo, esse lugar parece ser ocupado pelos USA, e tampouco coloca Deus acima de tudo, pois o definidor geral da política externa nacional tem sido o Sr. Trump. Pessoalmente eu sou extremamente avesso à segunda parte desse lema, pois defendo uma república laica, sem interferência direta de qualquer entidade sobrenatural; minha opinião não é a mesma dos eleitores que elegeram o Presidente da República. Conquanto não pudessem esperar objetividade nessa segunda parte do mote eleitoral devido à discussão sobre qual deus e qual interpretação ser demasiadamente ampla, os eleitores poderiam esperar que a primeira parte – Brasil acima de tudo – fosse cumprida à risca. Ao comportamento risível na relação com os estadunidenses soma-se um agravante: o próprio ministro das relações exteriores Sr. Min. Ernesto Araújo, que foi nomeado por Sua Excelência Presidente Bolsonaro por indicação do famoso astrólogo e místico Sr. Olavo de Carvalho (que trabalhou como jornalista desde que abandonou a escola antes do fim do curso primário até se mudar para o estado da Virgínia, nos EUA, onde ministra cursos online e divulga vídeos na internet criticando seus desafetos e todos que discordem dele, e questionando a validade da física clássica, da mecânica quântica, da teoria da evolução das espécies, da teoria da gravitação universal e da teoria heliocêntrica enquanto denuncia uma conspiração envolvendo comunistas, financistas, muçulmanos, feministas, homossexuais e a China para a dominação mundial por esses grupos, alinhados com maçons). Que não pareça que a crítica ao ministro é apenas pela origem de sua indicação – o Sr. Deputado Eduardo Bolsonaro, filho do Sr. Presidente, foi aluno do curso do Sr. Carvalho no curso online e fez a ligação entre seu pai, o partidário convertido à extrema-direita e o diplomata – pois ela é por toda a figura e pelo discurso do Sr. Ministro; quem lê seus textos pode concluir que ele é lunático ou tem o caráter duvidoso. É esperado e mesmo necessário que diplomatas de carreira adotem as linhas ideológicas e políticas do governo de turno, de maneira racional e decorosa, mas a veemência com que o Sr. Ministro Araújo defende sua proposta de política externa, alinhada com a ideologia do atual governo é a mesma com que ele defendia a política externa petista; chama a atenção a velocidade da troca desta por aquela assim que o governo da Sra. Rousseff começou a fazer água, bem como a mudança de opinião sobre diversos temas, inclusive sobre a ditadura militar e sobre a atividade dos grupos terroristas que combatiam esse regime. Não recordo de um governo tão sabujo, tão sem brio e sem orgulho nas relações internacionais, tampouco de um governo tão atrapalhado na comunicação e na articulação política. É possível que o que as aparentes falhas de comunicação sejam uma estratégia para desorientar a imprensa e a mídia enquanto mantém-se a militância bolsonarista ativa e anestesia-se a população com uma quantidade incalculável de bobagens, parecendo mesmo que alguns ministros têm unicamente essa função – notadamente a Sra. Min. Damares Alves e o Sr. Min. Ricardo Vélez Rodriguez. Os filhos do Presidente também participam ativamente da quota de imbecilidades e de patetices da política nacional, aliás, eles têm tanta influência sobre os assuntos do governo e sobre as atitudes do pai que os parcos monarquistas brasileiros já podem se sentir, de algum modo, concernidos no espetáculo momesco do qual o Palácio do Planalto virou palco – fazendo conjunto com o circo que é o Congresso Nacional e com o hospício do Supremo Tribunal Federal. Outro engodo que a campanha do PSL ofereceu ao eleitor foi o da “política externa não ideológica”. Todas as indisposições diplomáticas que Sr. Presidente Bolsonaro tem criado desde antes de sua posse ameaçam afetar nossas exportações, reduzindo uma parcela significativa do nosso PIB; discursos atabalhoados e decisões erradas já arriscaram nossas relações com Argentina, China e com os países muçulmanos, a primeira é praticamente nossa única cliente de produtos industrializados, a segunda é nossa maior parceira comercial e os últimos são nossos maiores compradores de proteína animal. Enquanto os bolsonaristas acreditam ter encontrado seu messias e os olavistas estão convictos de terem encontrado o demiurgo de um estágio superior de cultura e civilização, o que se materializa de fato é um governo muito barulhento, muito encrenqueiro e danoso para nossas relações comerciais. O apoio manifesto pelo Sr. Deputado Eduardo Bolsonaro à reeleição do atual presidente dos EUA é inadequado, posto que cada país desenvolve seu jogo político independentemente e autoridades de um país não devem opinar sobre o processo eleitoral alheio, e imbecil, pois não considera a razoabilíssima possibilidade de que o Sr. Trump perca a eleição, então assumirá a Casa Branca um governo que já de saída terá antipatia pelo Palácio do Planalto. Cabe perguntar aos defensores da política externa do atual governo: O que incomodava na política dos governos anteriores? Porque disfarçar a vontade de agitar uma bandeira com listras e estrelas agitando uma verde-loura? Que patriotismo é esse que detesta o nacional e almeja o estrangeiro? No plano interno, podemos apreciar o magnífico estado da nossa economia e o portentoso avanço do governo na modernização do Estado, a educação está nas mãos de gente competente que sabe o que fazer para resolver este atávico problema, bem como vemos intensa movimentação em ministérios como o do turismo, que há meses está mais preocupado em defender o ministro das acusações de desvio de verba e crime eleitoral que em cuidar do turismo, e o ministério dos direitos humanos, que foi constituído para ser uma chaminé permanentemente produzindo uma cortina de fumaça para os despautérios do Presidente e de seus filhos. Podemos também nos maravilhar com a qualidade dos nossos representantes no governo, no Congresso e dos magistrados nos tribunais, que nos oferecem espetáculos de civilidade, boa educação, notáveis nas falas e conversas de diversas autoridades públicas, e de esperteza, por exemplo, com o ministério público querendo gerir em fundos de direito privado fortunas imensas que deveriam ser ressarcidas ao erário. Esse governo grita muito, insulta e ofende para disfarçar a própria incompetência, para alimentar a claque virtual que igualmente só sabe raciocinar com frases feitas e figuras grotescas da internet, que só é capaz de gritar enraivecida contra um outro grupo de comportamento espelhado; resultados objetivos não interessam, apenas a agitação retórica das redes. As pessoas civilizadas e sérias correm o risco de serem alijadas completamente da vida pública. O país segue desgovernado e sem rumo em meio a esse permanente desfile de absurdos e ridículos. Se de um lado metade do governo não tem capacidade para governar – em temos técnicos, culturais e intelectuais – por outro o próprio presidente não parece ser muito afeito a trabalhar seriamente, o negócio dele é mais a balbúrdia da internet ou o palco de programas de auditório onde ele podia falar qualquer bobagem sem compromisso com a verdade e sem a responsabilidade de ter uma faixa presidencial sobre o peito. Sugiro um interessante exercício ao caro leitor: ponha no papel, ipsis litteris, as falas do Presidente Bolsonaro, antes ou depois da posse, e note como em termos de qualidade retórica elas são equivalentes às da ex-presidente Rousseff no decurso de seus dois mandatos – curiosamente ela falava melhor quando era ministra – e têm quase tantos erros de português, embora de natureza diversa, quanto às do ex-presidente Lula da Silva no segundo mandato – quando ele já tinha melhorado. Também é notável a incapacidade argumentativa dos seus filhos, uma leitura crítica da forma e conteúdo de seus tweets é elucidativa da capacidade de raciocínio da família. E parece que boa parte do governo segue esse padrão, incluindo o Sr. Ministro Moro, que recentemente fez o Brasil passar vergonha ao falar na Câmara dos Deputados cometendo erros crassos, que não seriam aceitáveis para um colegial, quanto menos para um ex-juiz e ministro de Estado – quem leu trechos de suas sentenças já pôde perceber que o português não é o forte do senhor ministro. Na lista dos agressores do português castiço também estão o presidente do Inep, Sr. Marcus Vinicius Rodrigues, e a ex-secretária de educação básica do MEC, Sra. Iolene Lima. Que honroso governo para a nossa pátria amada!

* Este texto não reflete necessariamente a opinião de Sputnik Consulting.


S O B R E O A U T O R

Paulo Roberto de Macedo-Soares é formado em negócios internacionais, pós-graduado em política e relações internacionais e consultor Sputnik Consulting para França e países francófonos. Eu sua coluna escreve sobre política, economia e cultura.

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