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O PATRIOTISMO DE CHANCHADA NA POLÍTICA E NA ARTE





Naturalmente, os crimes abomináveis que o atual presidente da República vem cometendo mesmo antes de seu mandato - posto que a conduta criminosa e imoral é um forte traço de sua biografia - devem ser expostos, apontados e estar no centro do debate público e da atividade política nacional. Contudo, a recente situação envolvendo o pintor-empresário Romero Britto está intimamente ligada ao assim chamado bolsonarismo - em si um conjunto disperso de idéias retrógradas e preconceituosas, atitudes covardes, obscurantismo na interpretação da realidade e violência como modo de interação social. O tratamento grosseiro dispensado pelo cidadão Britto aos funcionários de um restaurante é o comportamento padrão da maioria dos adeptos e seguidores da família Bolsonaro e dos asseclas que lhes cercam. Parece-me que há uma ligação subjetiva e inerente entre as propostas de Jair Bolsonaro e a produção de Romero Britto; eu explico que o abuso de linguagem que cometo ao chamar de propostas as idéias do primeiro eu não posso expandir a ponto de chamar de arte a produção do segundo.

Ambos usam em seus ramos de atividade o nacionalismo como fator fundamental, e para ambos este conceito é completamente desprovido de substância; para o político é o chauvinismo verde e amarelo e o ufanismo, enquanto para o vendedor de estampas é uma suposta valorização das raízes nacionais brasileiras e a utilização de uma imagem folclórica do povo brasileiro. Nos dois casos é um patriotismo de chanchada; de um lado os bolsonaristas amam Miami e a consideram o suprassumo da civilização, de outro, os consumidores mais abastados podem ir a Miami visitar sua loja e comprar as peças, enquanto os mais pobres compram objetos domésticos estampados produzidos em escala industrial.

Romero Britto é valorizado e incentivado como grande talento nacional por vários grupos de mídia, dos quais se destaca o grupo Globo, esse mesmo grupo participou da razia política conduzida pelo Ministério Público Federal e da demonização da esquerda que potencializou o bolsonarismo. O desentendimento entre Jair Bolsonaro e a Rede Globo de televisão é uma questão pessoal, não uma discordância de propostas econômicas, já que a essência do pensamento do ministro Paulo Guedes é defendida também pela emissora; grosso modo, o mesmo público que acreditou que a operação lava-jato estava salvando o país, que acreditou que a política é apenas uma forma de cometer crimes e que acredita que o problema do Brasil é o funcionalismo público e não os juros exorbitantes pagos aos banqueiros, resultado da sujeição do governo ao mercado financeiro e aos interesses imperialistas, esse é o mesmo público que acha que os produtos estampados vendidos aos milhares são expressão da arte nacional.

Os dois personagens evocados neste texto são sintomas de uma sociedade doente e incivilizada cuja elite inculta, grotesca e desumana defende os lucros em detrimento da vida, considera que as pessoas vivem na rua porque são preguiçosas, que os pobres não precisam de livros, que os entregadores não são dignos de tratamento humano, que os bons policiais e agentes do estado são gente inferior porque ganham pouco, enfim, uma elite atrasada com pensamento colonial apoiada por uma classe média que acha a cidadania menos importante do que as posses, gente que não suporta ser chamada de cidadã, e por uma classe remediada que é iludida com uma promessa de ascensão social.

Assim, concordo que abordar o tema apenas como uma curiosidade ou como nota de coluna social é inútil, mas no cerne da situação está algo gestado há décadas na sociedade brasileira e que lhe é característico. O desprezo pelo trabalhador que levou à resposta da dona do restaurante ao pintor-empresário é o mesmo que se percebe na conduta dos fascistas que hoje se mostram desavergonhadamente em nossa sociedade e cujo patriotismo limita-se ao uso de uma camiseta da Confederação Brasileira de Futebol e a gritar histericamente “nossa bandeira jamais será vermelha” enquanto agita uma bandeira estadunidense. O ridículo do comportamento só se compara ao ridículo do gosto artístico, que é um elemento ao qual está embutido uma grosseria misturada com a empáfia de quem se acha melhor que os demais porque tem dinheiro e com a limitação cultural de quem, mesmo tendo educação formal, não consegue compreender conceitos abstratos e não lê obras relevantes para a formação de um pensamento crítico.

Nesse amálgama de ignorância e brutalidade, que por vezes usa marcas de luxo e por vezes usa moletom e camisetas de times de futebol, está o mal que precisa ser extirpado do Brasil para que possamos nos desenvolver: uma elite capitalista dependente das elites do capitalismo central e representa os interesses imperialistas em nosso país e um setor de classe média que se considera elite e defende aguerridamente esses interesses imperialistas; ambos os grupos têm horror a ser confundidos com o povo brasileiro, que julgam ser algo entre o folclórico e o desprezível. Eles têm ojeriza do povo trabalhador, defendem que este deve continuar trabalhando, ainda que morra de doença ou de fome, e acreditam que o pobre é pobre porque lhe faltou vontade e esforço. Àqueles grupos nem passa pela mente que o que faltou ao povo foi acesso à educação, à saúde e à infraestrutura, acesso negado por uma exploração desumana à qual o povo está submetido há séculos.


* Este texto não reflete necessariamente a opinião de Sputnik Commercial & Consulting.

S O B R E O A U T O R

Paulo Roberto de Macedo-Soares é formado em negócios internacionais, pós-graduado em política e relações internacionais e consultor Sputnik Commercial & Consulting. Em sua coluna escreve sobre política, economia e cultura.

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