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Literatura russa. A fabulosa trilogia de Maksim Gorki

Gorki é magistral, enxuto, conciso, mortal, deslumbrante na sua trilogia autobiográfica, sob todos os aspectos uma obra-prima. Algumas cenas nos deslumbram pela contundência, pela precisão dos detalhes, pelo fragor da narrativa, pela atualidade. Fellini deve ter lido, pois a literatura de Gorki revela que estamos cercados pelo surrealismo, que a realidade é hiper-real, que os seres humanos são um mural de exceções, o que chamariam hoje de diversidade.





Dias de infância


Esse é o primeiro volume da trilogia autobiográfica de Maksim Gorki (Infância, Ganhando meu pão e Minhas universidades), que narra a vida de Aleksiei, órfão de pai, criado pelos avós analfabetos após ser “abandonado” pela sua mãe doente.​

O livro acompanha o celeumático cotidiano desse pequeno garoto, num ambiente opressivo e sujo, mas, ao mesmo tempo, atulhado de afeto. O narrador personagem autor nos conta a história através dos olhos de uma criança, que, às vezes, não consegue compreender o que se passa ao seu redor. As cenas que ele assiste perpassam desde as escaramuças familiares, pela herança de parcas terras, aos momentos íntimos, carinhosos e educativos com a sua sabia avó (sem dúvida nenhuma a personagem mais rica do livro, que cativa o garoto com sua atitude, religiosidade pagã e canções populares russas).


A primeira cena de Infância é a morte do pai do narrador, que coincide com o nascimento do seu irmão, parido pela mãe de luto e em desespero. Há o funeral paterno (em que Gorki se preocupa com duas rãs que são enterradas junto com o caixão) e a viagem imediata para a cidade natal da mãe. A criança morre e é carregada numa pequena caixa no camarote do vapor que singra o Rio Volga.

No recinto sinistro, estão a avó, a mãe e ele, o menino Aleksiei, mais tarde "Máximo, o Amargo". A Rússia gelada e chuvosa, o povo em tremendo sofrimento, a família partida e enlouquecida pelas brigas internas começam, então, a desfilar no livro onde cada frase é um punhal e cada parágrafo contém a grandeza do humano.

Gorki ofereceu livro de contos de estréia para várias editoras e foi recusado por todas. Quando conseguiu publicar, houve um estouro. Tornou-se popular e fez amizade com os maiores escritores da época, como Tchekhov e Tolstói. Nas páginas de Infância, vemos como se formou esse caráter onde a inocência duela com a culpa, a vítima dos açoites afia sua capacidade crítica, a travessura prepara a independência e a paisagem hostil inspira um escritor admirável.

A narrativa do autor – com seu estilo seco e refinado – nos apresenta todo um emaranhado de personagens e suas perigosas e difíceis relações (como os dois grandes amigos de Aleksiei: o expansivo ciganinho e o carrancudo Coisa Boa, entre outros).

Não obstante toda a riqueza que existe na obra – relacionada à construção da narrativa e da interação entre as suas personagens, o que mais chama a atenção são os momentos em que o autor, já adulto, reflete sobre a sua intimidade. Vide exemplo nos trechos abaixo, nos quais Maksim Gorki (pseudônimo do autor, é bom que se frise) reflete sobre um dos vários instantes de solidão e de monotonia; ou ainda, como ele interpretava aqueles que os cercavam e como estes enriqueciam a sua vida de formas diferenciadas:

“Na monotonia interminável dos dias úteis, até a desgraça é um feriado, e até um incêndio é uma distração; num rosto vazio, até um arranhão é um enfeite…”

“Eu me vejo na minha infância como uma colmeia, aonde várias pessoas simples, insignificantes, vinham, como abelhas, trazer o mel de seu conhecimento e das reflexões sobre a vida, enriquecendo generosamente o meu espírito cada um como podia. Muitas vezes acontecia de esse mel ser sujo e amargo, mas todo conhecimento era, mesmo assim, um mel”.

Se a história de Aleksiéi Maksímovitch Piechkóv foi representada de forma verdadeira e sincera para nós leitores pelo escritor, isso, definitivamente, pouco importa. O que realmente interessa é saber que o que é contado cativa e ensinou muito. Uma história de embates, inveja, carinho, sortilégios, surras, canções e contos. E de muita sinceridade e frieza:

“- Bem Aleksiei, você não é medalhão para focar pendurado no meu pescoço, aqui não tem lugar para você, então vá ganhar o seu pão e ser gente…

E eu fui ser gente”.



Ganhando meu pão


Ganhando meu pão mostra um panorama de sua adolescência, época marcante para o desenvolvimento de seu caráter e para a formação do seu estilo literário. Desde muito jovem teve que trabalhar duramente, e nestas páginas de grande realismo nos mostra como o convívio com as pessoas simples lhe despertou o interesse pelos livros, ao mesmo tempo que lhe trouxe a descoberta da estranha humanidade que cerca a vida do povo russo.    


Minhas universidades


Antes a literatura russa tinha conhecido apenas aristocratas e latifundiários, burocratas, corruptos e corruptores, intelectuais, desempregados e camponeses oprimidos. Quando Gorki surgiu trouxe com ele uma gente até então ignorada pela literatura russa. Seus personagens eram vagabundos, desempregados, nômades das estepes russas, pessoas com quem o próprio escritor conviveu - em sua juventude Gorki uniu-se a um grupo de nômades e percorreu com eles, a pé, toda a Rússia meridional, sustentando-se através do trabalho de ocasião. As minhas universidades - o título é naturalmente irônico, pois Gorki jamais frequentou qualquer universidade -, como toda a obra do escritor, tem um caráter biográfico. O livro está repleto dessa gente simples que Gorki aprendeu a amar e admirar. A literatura russa de 1900 parecia condenada a emudecer, Gorki a despertou, encaminhando-a para um novo estilo: um realismo objetivo e exato, vivificado por uma cordial simpatia humanitária.      

"Qual e o papel do amor?" Tudo o que eu lia estava saturado de ideias de cristandade, de humanismo , de clamores sobre o sofrimento em prol as pessoas - sobre isso, falavam com eloquência e fervor as melhores pessoas que eu tinha conhecido ate então. Tudo o que eu observava de forma direta não tinha quase nada a ver com o sofrimento das pessoas. A vida desenrolava-se a minha frente como uma infinita cadeia de hostilidade e de crueldade , como uma luta sórdida e incessante pela posse de ninharias. Pessoalmente, eu só precisava de livros, todo o resto  não tinha sentido aos meus olhos."

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