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Vacina "Sputnik V" e "alma russa"


Doses da vacina Sputnik V (Gam-COVID-Vac) chegam na Argentina Foto: AGUSTIN MARCARIAN / Agustin Marcarian/Reuters/16-01-2021

Em 1842, o escritor Nikolai Gogol publicou “Almas Mortas”, uma sátira à Rússia da época anterior à libertação da servidão. Como em outras obras do gênero, descreveu de forma paródica vários componentes da sociedade russa, como corrupção e ganância. Em 1854, o livro foi traduzido para o inglês, mas com o título "Everyday Life in Russia". Editores ingleses transformaram o texto literário em etnográfico para enfatizar a chamada “barbárie de Moscou”. Isso não era novidade: em 1839, o Marquês de Custine, o aristocrata francês o qual depois se tornaria o personagem principal do premiado filme Arca Russa (2003) de Alexander Sokurov, publicou o livro “Rússia”, no qual retratou os russos como bêbados, intolerantes e dissolutos, com péssimos gostos artísticos, de maus e estreitos modos. Algo semelhante foi escrito pelo diplomata Joseph de Maistre em 1821 em suas “Noites de Petersburgo”, após passar várias temporadas na Petersburgo czarista. Várias décadas depois, muitos pensadores, depois de ler (e interpretar mal) os livros de Fyodor Dostoiévski e Anton Chekhov, chegaram à conclusão de que todos os russos são "loucos, melancólicos e propensos ao suicídio". Mesmo antes de Pedro, o Grande, viajantes e diplomatas descreveram suas experiências no Império Russo nos piores termos possíveis. Assim, durante séculos, persiste uma tradição europeia de atribuir à Rússia hábitos que são fortemente condenados no próprio território europeu. A vitória do comunismo em 1917 e a eclosão da Guerra Fria no século 20 apenas aumentaram o número de preconceitos. O famoso historiador francês encontrou facilmente as raízes Kalmyk (leia-se asiáticas) de Lenin para explicar a barbárie dos bolcheviques. A cultura popular também não escapou do preconceito contra a União Soviética, logo surgiram filmes em que os russos eram os bandidos. Isso é bem claro em James Bond e Rocky IV, bem como Maxwell Smart ou o agente secreto MacGyver.


A lista é longa, mas esses exemplos são suficientes para mostrar como, ao longo dos séculos, a Rússia foi vista sob o prisma do preconceito. A explicação é complexa, mas ao mesmo tempo simples: no território que chamamos de Ocidente, este país sempre foi uma cultura estranha. Perto, mas do outro lado. Assim, a posição da Rússia foi reduzida a uma posição de subordinação e estigmatização, como um reflexo negativo do Ocidente, que construiu sua identidade na oposição de pares binários. Todos nós precisamos do nosso oposto para sermos inteiros. Mas isso não leva em conta as enormes semelhanças, transições e pontos de contato que existiram historicamente entre os dois territórios, entre a Rússia e o resto do mundo, desde a participação de arquitetos italianos no projeto do Kremlin, terminando com a disseminação do cristianismo, por meio da influência dos pensamentos de Lev Tolstói sobre a filosofia da não violência de Gandhi ou a influência da literatura de Dostoiévski sobre o desenvolvimento do existencialismo na França, para citar apenas alguns exemplos. As características atribuídas à Rússia, e que a Europa considerou repreensíveis, refletiram-se no que é conhecido como a alma russa, uma espécie de essência imutável e um núcleo eterno que explica tudo, desde a melancolia e insanidade de sua população até a disposição dos russos para governantes poderosos e autoritários. A proliferação de memes e sites que postam esses estereótipos é reflexo de uma longa tradição que só confirma esse preconceito: de acordo com certa conta do Twitter, essas coisas acontecem "apenas na Rússia". Mais de uma vez, ao estudar essa suposta essência russa, percebe-se que o autor a justifica por meio de um contexto asiático, historicamente justificado pelo jugo mongol que se instalou no território da atual Rússia nos séculos XIII-XV. Hoje sabemos que a influência cultural tártara na Rússia era praticamente nula, mas séculos depois serviu para excluir a Rússia da tradição europeia e, via de regra, associou-a à barbárie e ao atraso, historicamente relacionados com o Oriente imaginário. Além disso, essa essência desempenhava um papel avaliativo e definidor: quanto mais próxima a cultura ou comportamento se aproximava dessa suposta tradição, mais russa ela era e, portanto, mais autêntica. Assim, tudo o que poderia vir da Rússia era produto do desenvolvimento natural, isolado do resto do mundo. “Esta melodia é tipicamente russa” ou “este escritor não é tão russo quanto outro”, essas frases são difundidas e expressam uma visão que simplifica a compreensão da nação russa a tal ponto que todas as explicações se resumem à questão da origem: “No final, são todos Russos ".


"Sputnik V".


Desde o anúncio da vacina Sputnik V em agosto passado, parte desse sentimento parece ter se reacendido. Quase como uma ação reflexa, as primeiras reações na mídia, nas redes sociais e nas conversas familiares foram de desconfiança e rejeição. Frases como "ela é insegura", "eles vão plantar um chip para me controlar" ou "eles vão implantar o comunismo em mim" soavam mais ou menos irônicas, mesmo antes de os primeiros resultados da pesquisa preliminar serem publicados. Essas propostas parecem estar mais próximas de velhos preconceitos e visões essencialistas do que de opiniões baseadas em conhecimentos científicos. No entanto, eles vieram da boca de líderes políticos e formadores de opinião com um amplo público. Explicações baseadas no preconceito e no essencialismo são usadas em programas de TV de grande sucesso ou mídia inescrupulosa, mas não apropriadas para aqueles que buscam entender a realidade em toda a sua complexidade. Em termos relativos, muito poucas pessoas no mundo podem avaliar a validade de uma vacina da Rússia, assim como de uma vacina que pode ser obtida em Oxford ou nos Estados Unidos. Porém, como em muitas outras áreas da nossa existência, contamos com profissionais que estudaram e se prepararam para dedicar suas vidas à pesquisa. A União Soviética criou um sistema científico e técnico de primeira classe que permitiu, entre outras coisas, pela primeira vez na história da humanidade enviar um satélite ao espaço, depois um homem e uma mulher. As tarefas dos bolcheviques incluíam construir não apenas uma sociedade mais justa, mas também mais moderna. Não é por acaso que um líder bolchevique como Alexander Bogdanov fundou o Instituto de Hematologia em Moscou na década de 1920 para melhorar a saúde da nação por meio de experimentos com transfusões de sangue. A própria irmã de Lenin, Maria Ulyanova, foi uma de suas voluntárias em sua busca para "tornar a saúde coletiva". Do ponto de vista epidemiológico, a URSS foi o país que deu ao mundo o maior número de vacinas para combater a varíola, e a contribuição de cientistas como Mikhail Chumakov e Marina Voroshilova foi fundamental para que a vacina desenvolvida por Albert Sabin nos Estados Unidos contra a poliomielite fosse testada e introduzida em todo o mundo. A organização por trás da vacina Sputnik V, o Instituto Gamaleya, foi fundada em 1891 e desenvolveu com sucesso outras vacinas, como a vacina contra o Ebola, que tem sido usada em todo o continente africano. Ao contrário de outros, o projeto da vacina covid-19 criado na Rússia foi financiado e desenvolvido por uma agência governamental.


Putin.


Também é verdade que estão em jogo interesses econômicos e geopolíticos. E este último ficou claro quando foi Vladimir Putin, e não um representante da comunidade científica russa, quem anunciou a existência da vacina para o mundo. O presidente russo sabe muito bem das oportunidades que oferece a vacina para a Rússia no xadrez internacional: quem primeiro encontrar a solução tem mais chances de escolher uma posição par si no mundo pós-bipolar. Só assim será possível entender as palavras que Kirill Dmitriev, diretor executivo do Fundo Russo de Investimento Direto, que financiou o desenvolvimento da vacina, proferiu em agosto do ano passado: "Estaremos à frente dos Estados Unidos, como fizemos com o Sputnik." Na verdade, o nome da vacina se refere à primeira espaçonave lançada ao espaço em 1957 pela União Soviética. Isso não é coincidência. Isso faz parte da ação do governo do país, que há muitos anos tem como objetivo restaurar o legado soviético e sua inclusão na história secular da formação do Estado russo. Isso explica como hoje Pedro, o Grande, Nicolau II e Stalin podem coexistir no mesmo panteão de personagens históricos, ou porque a melodia do hino soviético foi revivida junto com outros símbolos do Estado. Porém, nessa nova construção de significados, Putin prefere se distanciar da revolução de 1917, pois ela personifica o momento de quebra da continuidade do Estado. Em vez disso, o governo busca recuperar apenas algumas das conquistas da era soviética, como a industrialização do país, um papel crucial no fim da Segunda Guerra Mundial ou o desenvolvimento de um programa espacial inovador que reafirma a grandeza de um país que nunca desistiu de suas aspirações de se tornar um membro da elite geopolítica global.


Se a vacina tiver sucesso, então existe a possibilidade de a Rússia somar mais uma medalha às suas grandes conquistas mundiais: o primeiro lugar no pódio contra o coronavírus será somado à vitória sobre o fascismo e ao envio do primeiro homem ao espaço. A propósito, essa conquista pode ajudar a fortalecer o papel do Estado e ajudar a aliviar a crise socioeconômica que a Rússia está passando.


Em meio a uma pandemia sem precedentes que paralisou o mundo, a desconfiança e a rejeição de uma vacina baseada apenas em seu país de origem não é apenas tendenciosa e significativa, mas até mesmo perigosa e inadequada.



O texto foi baseado no artigo de Martin Banya

Martin Banya é Doutor em História (UBA). Professor Associado do Departamento de História da Rússia na Faculdade de Filosofia e Letras da UBA e Professor de Bacharelado em História na Unsam.


Disponínvel em: https://inosmi.ru/politic/20210112/248898493.html